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Vícios e virtudes

Vícios e virtudes

Olhar curioso sobre a quixotesca missão de fixar novas identidades

Da janela de um pequeno quarto de hotel, com vista para a Baixa, o amanhecer da cidade iluminada ao primeiro sol. Como numa tela em branco, os desenhos se delineiam: ruas, árvores, colinas, casas, o castelo, o rio. As cores emergem e, num processo vagaroso, a pintura se faz, revelando, sob olhar cuidadoso, uma Lisboa plácida. Olhar virgem de estrangeiro? Mais adequado falar-se em exílio. Pois quem narra esse dia a ganhar formas é Helder Macedo, no belo parágrafo de abertura de seu terceiro romance, “Vícios e virtudes”.

Helder nasceu na África do Sul, criou-se em Portugal e seguiu durante a ditadura de Salazar para Londres, onde hoje é titular da cátedra Camões no King’s College. Notabilizado pela poesia e pela vida acadêmica, o escritor vem se solidificando nos últimos anos também como romancista, em obras que em geral circundam temas caros aos portugueses. Em “Partes da África”, tratou dos últimos dias de domínio sobre as colônias africanas. Com “Pedro e Paula”, refez a trajetória de um casal de gêmeos ao longo de alguns do capítulos mais relevantes da história lusitana. No romance que agora nos chega, o autor propõe uma reflexão sobre a natureza e as razões do que se convencionou chamar de “identidade nacional portuguesa” por intermédio de Joana, personagem contemporânea cuja vida confunde-se com a da filha homônima de d. Isabel de Portugal.
A enigmática imagem de Joana desvela-se por meio dos discursos de dois narradores, que dialogam durante todo o livro sobre quem enfim seria essa mulher em permanente mutação. Helder trabalha com uma estrutura narrativa fluida, repleta de saltos temporais. Como nas obras anteriores, abstém-se de abraçar o poder demiúrgico de que se crêem dotados alguns escritores e rompe a espécie de pacto que possibilita aos mundos ficcionais, ainda que momentaneamente, ganharem contornos de realidade. O narrador principal divide com o leitor suas poucas certezas e seu imenso manancial de dúvidas sobre Joana, permitindo que se tornem cúmplices na busca da compreensão dos mistérios que cercam a personagem – e de suas relações com a Joana histórica, que gerou dom Sebastião.
Como na poética descrição da paisagem lisboeta, cuja topografia desenha-se à medida que seu colorido se revela, o enredo de “Vícios e virtudes” é vagarosamente construído, porém permeado de pistas falsas. Os contornos que Joana vai ganhando ao longo das 224 páginas do livro insurgem-se com a união dos fios soltos de diferentes discursos que se cruzam: o do próprio Helder, o do segundo narrador e o da protagonista. Joana se desnuda e é desnudada, pois o romancista não se acanha em expor suas incertezas; consulta os personagens, ouve suas versões. Dota-os de impressionante liberdade, com a qual desenham suas rotas. Não há caminhos previamente traçados, mas possibilidades. Talvez porque, como o próprio autor já assinalou, “as nossas vidas só se tornam inevitáveis depois de terem acontecido”.
A multiplicidade de discursos presta-se à tentativa de se montar um perfil e uma história possível para Joana, sempre atenta para escapar de definições. No subtexto de seu comportamento diante da insistência dos narradores, jaz uma alusão crítica ao sebastianismo. Ao salientar a recusa da personagem em ter imposta uma identidade, o escritor acena para a necessidade de Portugal livrar-se do dilema trazido pelo mito de dom Sebastião, saudado inclusive por alguns dos mais respeitados nomes da literatura do país, como Luis de Camões e Fernando Pessoa, mas que representa, para Helder, “uma doença da alma nacional portuguesa”.
Afinal, se os descobrimentos e a aventura atlântica impuseram-se como germes da essência do “ser português”, a decadência do império viria a legar uma frustração que parece abrandada com a constante tentativa de retomada, a recorrência à memória, à mitificação. Helder aposta na dissolução do sebastianismo, tanto no que pode sugerir de megalomania, quanto no que provoca de autoflagelação. Em alguns trechos do livro, a referência é bem clara, como quando um dos narradores afirma: “Uma ova a identidade nacional, não há tal coisa. Há pessoas e circunstâncias. Mudam umas, mudam as outras, muda a identidade nacional. E se muda já não é a mesma, deixa de ser o que era, de modo que não há”. Em outros momentos, o aceno é mais sutil. Joana chega a comentar que “se mentimos, é para que a mentira se torne verdade para nós”.
O título do livro refere-se a um jogo apresentado a Joana por seu tio. As cartas do baralho contêm diferentes frases, e cabe a cada participante classificá-las entre os vícios e as virtudes humanas. Valendo-se dessa dicotomia, o autor lembra que mesmo quando o assunto é moral há algum espaço para a ambigüidade. Sublinha, então, sua firme recusa à aceitação de legados infligidos, sugerindo que definir identidades é em geral missão quixotesca. Seriam elas, por fim, como a fascinante Joana: complexas, fugidias, circunstanciais.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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