IMPRENSA

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Marcelo Moutinho

Na dobra do dia

A menina que perdeu as cores

A palavra ausente

Somos todos iguais nesta noite

Memória dos barcos

O meu lugar

Canções do Rio

Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa

Contos sobre tela

Prosas cariocas

Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos

Entrevistas

Como você lida com o leitor de crônicas que você é? Como a leitura dos cronistas da sua preferência interfere, se é que interfere, no seu exercício de cronista?

Marcelo Moutinho – Não penso nesse leitor que sou, ou fui, no momento em que escrevo as crônicas. Mas talvez inferira, já que aquilo que lemos passa a fazer parte de nosso repertório, seja o consciente ou o inconsciente. Claro que há temas que atravessam cronistas de diferentes épocas e gerações, como o clássico mote da falta de assunto. E, nesses casos, torna-se fundamental conhecer o legado que outros colegas deixaram. Para não sermos mero repetidores e, mais essencial, para dialogar com eles.

João do Rio diz que as ruas não apenas pensam – como na frase que você usa para nomear a segunda parte do seu livro – mas têm alma. E sabemos, claro, que elas também têm memória. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso: as ruas pensam, sentem e lembram?

Marcelo Moutinho – Tem alma e memória. Gosto de pensar que certos lugares guardam a lembrança do que foram um dia, de como foram, do que aconteceu ali. O prédio de uma escola, o banco de uma praça, espaços aparentemente ordinários do ponto de vista da grande história ou da arquitetura, podem carrear mundos inteiros de afetos. As ruas conjugam a concretude do asfalto, das paredes, com o emaranhado de vidas que as cruzam. São uma síntese de muitos fios, uma interseção profundamente simbólica. Como escreveu o próprio João do Rio, “há suor humano na argamassa do seu calçamento”. Daí a ideia de que, sim, pensam, tem nervos, são potentes como sítios de criação. Na segunda parte de “Na dobra do dia”, essa perspectiva serve como norte para um passeio pelas ruas da cidade. Da cidade que permanece e da cidade que se foi.

A memória é matéria-prima dos seus contos e crônicas. Como se dá isso, essa relação da memória com a escrita, no seu processo de criação?

Marcelo Moutinho – Gosto muito de uma expressão que o Carlos Heitor Cony usou para dar título a um de seus romances: “matéria de memória”. Meus contos e crônicas, em determinado sentido, são isso. Recolhas de histórias e experiências que, envernizadas pela ficção, buscam a vida que pulsa nas miudezas. Muitas vezes quase que silenciosamente. Como a da moça que observa o mundo de uma janela da Praça Tiradentes ou a do menino que trai o pai na hora de escolher o time. O homem que maneja sua pipa imaginária na esquina da Mem de Sá com a Gomes Freire, a lembrança de uma festa de Cosme e Damião, o desalento da casa vazia. A escrita é capaz de dar eternidade à memória. Uma maneira de sacanear a morte, líquida e certa. De iludi-la. E eu quero mais é que a morte se dane.

Você disse uma vez, na FLIP, que jogar futebol é melhor do que escrever. Ainda pensa assim? E emendando nesta uma outra pergunta: que espaço o futebol ocupa na sua vida e de que modo entra, ou não, no que você escreve?

Marcelo Moutinho – Incomparavelmente melhor. Se você me perguntar se preferiria ser o craque meia-armador do Fluminense ou vencedor do Nobel, nem pensaria duas vezes quanto à resposta: jogador do Flu. Mas, como jogador, sou um escritor razoável. Então me resta escrever, embora não deixe de jogar minha pelada toda semana. O futebol ocupa grande espaço na minha vida e às vezes até gostaria que ocupasse menos. Uma derrota pode ser capaz de estragar meu dia, de destruir o bom humor. Parafraseando a expressão do Cortázar, no futebol a emoção vence a razão por nocaute, não por pontos. E, assim como as outras coisas presentes no meu cotidiano, desliza para a literatura de forma natural e espontânea. Gosto de explorar esse universo ficcionalmente, sobretudo nos contos. É um universo riquíssimo, que não raro resvala no trágico, nos dramas individuais. Como dizia o Nelson Rodrigues, em futebol, pior cego é o que só vê a bola.

O escritor carioca elegeu lugares fluminenses fundamentais na sua obra e na sua vida

Marcelo Moutinho é um escritor. Também é um guia, podemos dizer. Ou um cicerone. Ou, ainda, é um olho vivo no Rio de Janeiro. Mas não só olho, porque não vive apenas de imagens, pelo contrário, as traduz em palavras.

Quando li, há algum tempo, sobre o livro de crônicas que ele iria lançar, logo pensei: se encaixa certinho na coluna 3 lugares, do Roteiros. Mas, depois de terminar o livro, vi que era mais que isso. Na dobra do dia é a essência do Roteiros Literários.

Trata-se de uma reunião de crônicas curtinhas, que estão divididas em duas partes no livro: Pequenos Amores da Armadilha Terrestre e As Ruas Pensam. A primeira crônica, que tem o mesmo nome que dá título à obra – Na dobra do dia -, fala desse período do final do expediente, entre o cair da tarde e a chegada da noite. “Existe uma hora imprecisa do dia”, diz o autor. E termina invocando um dos deuses da crônica, homenageado por ele: Paulo Mendes Campos.

O pôr-do-sol no Rio de Janeiro é o convite de entrada do livro. É uma crônica linda e, ao mesmo tempo faceira, porque te dá a falsa sensação de que o livro vai ficar por ali, naquela cancha da subjetividade, mostrando os pontos turísticos de um Rio de Janeiro poético. Ledo engano, amigos, porque a segunda crônica já chega te puxando pela mão para um rolê pelo subúrbio. “Recebi um e-mail de minha irmã Lilian sobre o imóvel que temos em Madureira”. Pronto! É aí que começa a imersão.

Entre memórias de infância, nomes de rua, sambas-enredo e tradições como o dia de São Cosme e Damião, a gente vai conhecendo a Madureira do Marcelo. Conhece, meio que já conhecendo, porque a familiaridade que a narrativa traz parece cutucar também aquelas lembranças que a gente tem em algum lugar-comum do inconsciente: o piso de cacos cor de terra no quintal da casa, a cadeira trançada ou as prateleiras abarrotadas de enfeite – “Espaços livres são praticamente um interdito no subúrbio. Se há um canto sem móveis na sala, instala-se ali uma poltrona”, escreve o autor na crônica Subúrbio.

Na segunda parte, com a benção de João do Rio, Moutinho convida o leitor para um chope – com colarinho! – num dos muitos botecos que aparecem no livro: o Bip Bip, o Villarino, o Coisa da Antiga, o Semente, o Brasil, o Nova Capela o Cosmopolita e o A Paulistinha. É um passeio pela Lapa e pelo centro que tem aquele clima de papo de bar, na melhor síntese que uma crônica pode ter.

Por tudo isso que contei aí em cima, quando fui conversar com o Marcelo para essa matéria, não tinha como fugir do Rio de Janeiro na hora de escolher seus 3 lugares preferidos, aqueles que influenciaram sua escrita. Ele decidiu, então, falar sobre dois bairros cariocas e uma cidade fluminense. Acompanha aí:

MADUREIRA

“Foi o bairro em que eu nasci, que é muito importante em todas as coisas que eu escrevo e na minha própria vida. É onde ficava a casa da minha infância e onde também está a quadra da Império Serrano, minha escola de samba, onde eu desfilo todos os anos e tenho uma convivência com a comunidade local até hoje.

Essa minha Madureira afetiva começa mais ou menos na Rua Carvalho de Souza, que é a rua um pouco antes do viaduto – para quem conhece o bairro – e se encaminha até uns 500 metros, no início da Estrada do Portela, onde tem a quadra do Império Serrano, a parte mais comercial. O viaduto divide os dois bairros: de um lado um bairro mais residencial e do outro, uma espécie de centro comercial do subúrbio do Rio de Janeiro.

Esse lugar é de fundamental importância porque não foi só a minha primeira convivência de infância, mas por determinar alguns caminhos que eu literariamente exploro, que é esse universo do subúrbio carioca, da classe média baixa, não só nos contos, mas também e, principalmente, nas crônicas. Eu falo sobre esse universo urbano da cidade, a classe média/baixa que circula por esse universo”.

Foi em seu segundo livro, Somos Todos Iguais Nesta Noite, que ele passou a ter consciência de que o subúrbio era parte importante da sua escrita. “Era um momento que me parecia que a gente estava um pouco fechado numa dicotomia: havia os livros que falavam da favela, das comunidades, da violência e tal; e os livros que falavam dos dramas burgueses, e eu achava que aquela vivência que eu tinha experimentado estava sem lugar e eu queria escrever sobre isso – não só como testemunha, mas também usando esse universo como inspiração ficcional”.

Marcelo vive atualmente em Botafogo. Morou em Madureira até os 10 anos. O pai era comerciante local. E, depois, embora não morasse mais no bairro, ainda tinha um vínculo, já que a bisavó e as tias-avós moravam, e era lá onde ele estudava. “Embora eu não dormisse, passava praticamente o dia lá até o momento do vestibular, aos 17 anos”.

Ele também falou sobre o contato com Madureira hoje em dia. “Minha relação é muita atravessada pelo Império Serrano, que é a escola de samba que eu desfilo todo ano. Então, por exemplo, amanhã eu tenho ensaio e vou pra Madureira. Minha família não tem mais a loja, mas eu acabo frequentando o bairro por causa da quadra”.

CENTRO DA CIDADE

“O centro é onde eu trabalho desde os 19 anos e onde morei até o ano passado (na Lapa). O que me encanta no centro é uma coisa que talvez só a praia no Rio de Janeiro tenha: que é o espaço onde se juntam as pessoas de todos os cantos da cidade. As pessoas que vêm das zonas suburbanas; da zona sul – a zona mais nobre; as que vem da zona oeste e acabam indo para o centro trabalhar. Acho que é um universo muito rico de encontros e de sínteses. Quer dizer, numa cidade que, ao contrário do que se pensa, é muito setorizada – os ricos estão na zona sul, os mais ou menos ricos na Tijuca; e os mais pobres estão nas zonas periféricas – o centro, assim como a praia, é o espaço de convivência democrática dessas pessoas.

Fora isso, tem uma outra coisa bacana do centro que é a história. É onde a história do Rio de Janeiro praticamente começou, tem muitos prédios preservados… então há ali um sentimento de pertencimento e de ligação com o passado muito forte. É como se o passado tivesse sendo evocado o tempo todo, apesar da gente estar hoje vivendo em outro tempo”.

Moutinho trabalha na Ordem dos Advogados do Brasil, na Avenida Marechal Câmara, que é perto do Aeroporto Santos Dumont e razoavelmente perto do Morro do Castelo. “Tem vários lugares próximos que eu frequento, por exemplo: o bar Villarino, que tem uma crônica dedicada a ele no livro. É o bar onde o Tom Jobim conheceu o Vinicius de Moraes. Ele é muito famoso por isso hoje em dia, mas antes já era o bar da boemia antiga. Minha livraria preferida é a Folha Seca, na Rua do Ouvidor. Está para além do ir e vir do trabalho – de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Eu frequento muito o centro como o lugar para beber com meus amigos, para ir a livrarias, para ouvir samba e tudo mais”.

PARATY

“Meu irmão morou 12 anos em Paraty, desde antes da FLIP existir. Muita gente conhece a Paraty da FLIP, que é completamente diferente do tempo sem a FLIP. Tem uma crônica no livro sobre isso também. Acho bacana as pessoas irem também a esta outra Paraty.

Foi uma cidade que eu tive grande intimidade. Embora não seja tão perto do Rio, volta e meia eu estava lá. Parece que na FLIP ela se enche e perde um pouco das características próprias, fazendo uma espécie de cenário para uma importante festa literária. Talvez não seja muito possível observar os casarios, as lojas com aqueles pequenos balões da cidade. Me parece que a alma de Paraty é ser uma cidade um pouco vazia, não uma cidade cheia. É como se fosse uma cidade em que o tempo é um pouco mais lento, em que se vive um tempo de outro tempo, do passado.

E essa minha Paraty não fica apenas no centro histórico. Se estende, por exemplo, para Paraty Mirim, onde ficam as reservas indígenas e uma praia; para a estrada pra Cunha, que é uma parte mais rural; para a praia de São Gonçalo… quer dizer, é uma Paraty de uma desaceleração da vida [que na FLIP nem é possível já que você está sendo o tempo todo demandado] e que mistura de maneira incrível rio, mar, aldeia indígena, igrejas de referências portuguesas. Em Paraty Mirim tem a capela de Nossa Senhora da Conceição que fica na areia, uma ruína da época colonial dentro de uma reserva indígena. É uma síntese de natureza e de cultura muito incrível.

Gosto de Paraty quando ela está mais vazia, as praias estão mais vazias, você consegue caminhar, vagabundear, flanar pela cidade sem pressa e podendo demorar 3 horas num almoço, tomando cachaça e cerveja”

Três perguntas para Marcelo Moutinho

Autor dos livros de contos “A palavra ausente” (Rocco, 2011), “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco, 2006) e “Memória dos barcos” (7 Letras, 2001) e do infantil “A menina que perdeu as cores” (Pallas, 2013), o carioca Marcelo Moutinho está lançando “Na dobra do dia” (Rocco), com uma seleção de crônicas publicadas no site Vida breve.


SM – A divisão do livro em duas partes também tem a ver com a dobra do jornal à qual se refere o título do livro?
MM – Na verdade, o título foi retirado da crônica que abre o livro. O texto trata daquele daquele instante em que se torna impossível definir se ainda é tarde ou a noite já chegou. O tal do crepúsculo. Acredito que a crónica, como gênero literário, também tem suas bordas borradas. Aproxima-se do jornalismo, mas tem muito de subjetividade. A princípio não é escrita para durar, mas por vezes permanece, alheia à passagem do tempo. Já a divisão interna se deu a partir de frases de dois cronistas que admiro: Paulo Mendes Campos e João do Rio. Na primeira parte – “Pequenos amores da armadilha terrestre” -, estão os textos mais ligados à intimidade, à casa, à família. Na segunda, as crônicas com o pé na rua, que contemplam lugares, comportamentos e personagens da cidade.
SM – O subúrbio não é visto apenas por um lado nostálgico nas suas crônicas. Mesmo não morando mais lá, a zona norte do Rio de hoje é fundamental para o que você escreve?
MM – Nasci e morei em Madureira, que está muito presente no livro. Certamente, a vivência por lá foi fundamental para o que eu escrevo. Não só quanto aos temas – o samba e o futebol, por exemplo, fazem parte da minha vida e do que produzo como escritor -, mas porque é o espaço da infância, agora reprocessada em memória. Penso que a infância é determinante para o nosso modo futuro de olhar e sentir o mundo. Ainda hoje costumo ir bastante ao subúrbio. Frequento a quadra do Império Serrano, escola na qual desfilo religiosamente. E minha sogra mora em Cascadura, pertinho de Madureira.
SM – A literatura brasileira sempre teve grandes contistas e cronistas, mas dizem que o mercado editorial prefere romances. Onde fica o leitor?
MM – De fato, o mercado editorial prefere romances. Eu não sei é se o leitor prefere. Essa tese me parece um dilema de Tostines, ou seja, não temos como precisar o que causa o quê. De qualquer modo, não acho que um escritor deva nortear seus textos por aquilo que o mercado prefere ou deixa de preferir. Hoje, com a internet, o leitor esperto encontra aquilo de que gosta, já não precisa tanto de mediações. E isso é ótimo.

Marcelo Moutinho, memória cartográfica

A narrativa do escritor é uma espécie de cartografia do Rio de Janeiro, os afetos, sobretudo ligados à infância, abrem canais para histórias ligadas à cidade

Por Ramon Mello

A narrativa de Marcelo Moutinho é uma espécie de cartografia do Rio de Janeiro, os afetos – principalmente relacionados à infância – abrem canais, ruas, vielas para o leitor caminhar por histórias ligadas à cidade.

“A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos porque morei 21 anos na Barra [da Tijuca], ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação”. E completa:

“Na infância meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador”, relembra o autor, admirador de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector.

No trajeto de Moutinho, carregado por referências da literatura e da cultura popular, não há espaço para um atalho mais fácil, foge-se dos clichês. O olhar para cidade é periférico, seja no ritmo da alegre de uma escola de samba de Madureira ou o no swing de travesti da Glória. As histórias passeiam de um lado a outro da cidade, cruzem o túnel, mudam o foco, buscam a memória.

“Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: ‘A oportunidade não cruza o Rebouças’. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças.  Ou, se cruzam, são formas clichês”, questiona o autor de Memória dos barcos (7Letras, 2001) e Somos todos iguais esta noite (Rocco, 2006).

Conforme declara o próprio autor, seu “vínculo com a literatura é de não pertencimento”. Marcelo Moutinho dedica-se à palavra, pode-se esperar o livre trânsito entre ofícios (exercícios) da escrita: resenhas literárias, livros de contos, ou antologias – que tem organizado com frequência, como Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), com Flávio Izhaki e o excelente Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), com Jorge Reis-Sá, entre outras.
Na entrevista, confunde-se o escritor e o jornalista. É inevitável.

A infância está muito presente em seu livro Somos todos iguais nesta noite (Rocco). Fale sobre esse período da sua vida.
Marcelo Moutinho
 – Em Memória dos barcos [7Letras], meu livro anterior, a infância não é tão presente. Quando estava escrevendo Somos todos iguais esta noite passei novamente a freqüentar a Madureira, meu bairro de infância, por conta do Império Serrano – sou apaixonado por escolas de samba. A quadra fica a 80 metros da loja do meu pai, mais ou menos, 600 metros da casa onde eu morava. E, também, perto da casa da minha bisavó, a matriarca da família, onde todos os parentes se reuniam. A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos, ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação.

O Rio de Janeiro é mostrado através um olhar que foge do clichê…
Moutinho – Porque o Rio do clichê em geral é o da Zona Sul.

Lembrei do trecho de uma canção do Chico Buarque: “o Cristo está de costas…”
Moutinho
 – É verdade. Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: ‘A oportunidade não cruza o Rebouças‘. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças. Ou, se cruzam, são formas clichês.

O contato com a literatura aconteceu na infância?
Moutinho
 – Na infância meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador. Venho de uma família de conservadores de direita, comerciantes de Madureira, meu pai não tinha sequer o primeiro grau e minha mãe não completou o segundo. Então, eu não tive livros em casa, definitivamente. Sou de uma família de seis irmãos, a minha irmã mais velha se formou em jornalismo. Ela participava muito da campanha do Gabeira e eu acompanhava.  Fui ao abraço da Lagoa e ao comício do dia 13 de novembro, antes da eleição, o que me rendeu brigas homéricas com meu pai – um xingava o outro. E, a partir desse momento, passei a ler tudo que você imagina. Não sei em que momento, nem exatamente o porquê, mas comecei a ler livros de ficção.

Quando você saiu do subúrbio?
Moutinho
 – Fui morar na Barra quando tinha uns 10 anos de idade, mas continuei estudando em Piedade. Depois fiz o segundo grau no Méier. Só sai do subúrbio mesmo quando comecei a fazer faculdade.

Qual a marca mais forte do subúrbio em sua vida?
Moutinho
 – Escrever sobre o subúrbio não foi tão pensado e sim mais emocional, o reencontro. Acho que o subúrbio me traz, assim como um forte envolvimento com carnaval, uma singularidade em relação à média da literatura brasileira contemporânea – uma literatura muito centrada em si mesma, feita por pessoas que viveram a vida inteira na Zona Sul, estudantes de jornalismo ou de letras. Não é à toa que grande parte dos protagonistas dessa produção é feita de jornalistas ou escritores frustrados.

Você é formado em jornalismo?
Moutinho
 – Sim. Mas não imaginava ser escritor, nada disso. Na verdade, eu escrevia uns poemas muito ruins. Só em 1997 que comecei a escrever uns contos. A literatura era um interesse como leitor. Em algum momento mudei de canal, não sei exatamente quando. Sei que há livros marcantes, li quase tudo do Kafka na época da faculdade. Na primeira vez que li Notas de subsolo [de Dostoiévski] pensei: “Esse livro foi escrito para mim”. E depois conheci os livros do Caio Fernando [Abreu] e li tudo. Através do Caio conheci a Clarice [Lispector], um caminho contrário. Meu vínculo com a literatura é de não pertencimento. Quando eu morava na Barra, estudava na Zona Norte. No Méier eu era considerado um “mauricinho” rico e na Barra eu era considerado um cara que gostava do subúrbio. Difícil de encarar quando se é jovem porque se quer pertencer. Toda a literatura que gosto é de não pertencimento, olhando para o retrovisor enxergo isso.

Você tem um blog chamado Pentimento. É por causa de um trecho do livro Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu?

[Atravessei devagar o parque deserto enquanto ouvia de longe as sirenes das ambulâncias, carros de polícia e bombeiros, dei a volta pelo lago onde um barco solitário me fez lembrar, outra vez, aquela palavra que eu não sabia o significado. Pentimento, repeti: pentimento, um sentimento com pena. A roupa molhada secava contra o corpo, água de chuva e suor.]

Moutinho – (risos) Não. É por causa da biografia da Lilian Hellman. O blog surgiu porque eu queria escrever sobre teatro e não me sentia preparado para publicar nos jornais. Um espaço de experimentação, diferente do rigor de uma publicação especializada. Pentimento é muito a idéia do rascunho, tudo que não é o quadro final. As pessoas, em geral, não sabem o que é. Por isso coloquei a definição da Hellman no layout.

Você faz resenhas e críticas para jornais. Como é resenhar e criticar autores contemporâneos?
Moutinho
 – O espaço para a literatura nesses cadernos literários é muito pequeno em relação à quantidade de livros e autores, ou seja, os colaboradores são necessários. Teve uma ocasião engraçada: quando fiz a resenha do livro Dentro de um livro (Casa da Palavra, 2005), uma antologia de contos. Falei bem de uns contos e mal de outros, inclusive de um conto do Marcelino [Freire]. E eu adoro o Marcelino, impossível não gostar dele. Ele tem uma virtude singular é um amigo incondicional, muito generoso com os jovens autores. É um pouco constrangedor quando se conhece o autor. Mas vou deixar de resenhar?  Acho que tenho capacidade de discernir a pessoa do livro. Meus livros também estão aí para serem criticados, faz parte do jogo. Quem escreve críticas não pode perder a dimensão do leitor que foi.

O que você espera como leitor?
Moutinho
 – Eu quero que o texto me desconcerte ou me ilumine. Esse iluminar pode ser emocionar. Quero que o texto me mostre algo que eu conhecia, mas não sabia dizer. Quem me faz isso? Caio, nos Morangos mofados, por exemplo. O que é o conto “Dama da noite” [do livro Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio F. Abreu]? Gosto muito do Fernando Sabino noEncontro marcado. O [Carlos Heitor] Cony é sensacional, ele tem um texto trágico que me interessa.

Sobre o trabalho de organizar antologias. É complicado?
Moutinho
 – Fiz três antologias e encerro aqui. A primeira foi Prosas cariocas (Casa da Palavra, 2004)O Flávio [Izhaki] tinha acabo de fazer um conto o sobre o Catete e me convidou para organizar o livro a quatro mãos – a Casa da Palavra comprou a idéia. O Contos sobre tela foi publicado pela Pinakoteque [em 2005]. Mas eu disse que não faria mais nenhuma antologia porque estava ficando mais conhecido como organizador de antologias do que autor. Os critérios de antologias são subjetivos, não adianta. Em todas as antologias, com exceção do Prosas cariocas (Casa da Palavra, 2004), que era somente com jovens autores cariocas, procuro misturar gerações de diferentes lugares. Em Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005) tem de Ana Paula Maia a Adriana Lunardi, estilos completamente diferentes.  A idéia do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009) foi explorar a diversidade de autores e de escritas, de Antonio Torres a Marcelino Freire.

Sobre o seu primeiro livro, Memórias dos barcos…
Moutinho
 – Lancei esse livro antes das antologias, muito antes. Mas eu ainda não havia matado meus pais, o Caio Fernando era muito presente, por exemplo. Memórias dos barcos é um livro afetado pelas influências e por querer escrever bonito, uma tendência a “filosofices”. Isso me incomoda muito, tem de haver espaço para o leitor.

Você escreve romance?
Moutinho
 – [silêncio] Não sei. [risos] Ainda estou descobrindo.

Escrever um livro de contos é muito diferente de escrever um romance?
Moutinho
 – Tem muita diferença. Eu não consigo pensar numa história longa, gosto de histórias de fôlego curto. Gosto do soco que nocauteia, do Cortázar. Não sei, pode ser que um dia eu escreva um romance. Não me cobro.

E poesia?
Moutinho
 – Já brinquei. Inclusive publiquei umas poesias no blog – onde publico coisas com falta de critério. [risos] O [poeta]Henrique Rodrigues disse que tenho que continuar escrevendo contos; confio no discernimento dele. Leio muita poesia, é o que mais me inspira a escrever contos. A prosa está carregada de enredo, prefiro partir de um sentimento ou uma epifania que a poesia me permite. Li muito Ana Cristina CesarAdélia PradoHilda HilstDrummond

O que você pensa a respeito da não obrigatoriedade do diploma de jornalismo?
Moutinho
 – Sou contra a obrigatoriedade do diploma, sempre fui. Mas acho que essa decisão não foi feita da maneira certa, com um projeto de lei que amarrasse uma regulamentação mínima. Eu não recomendo para ninguém a faculdade de comunicação, o jornalismo poderia ser apenas uma especialização de curso de humanas.

É difícil escrever por encomenda?
Moutinho
 – Não acho, não. Trabalho com jornalismo, então chegar em casa e escrever é penoso. A encomenda me dá foco, escrevo com disciplina.

Você tem horários para escrever?
Moutinho
 – Não. Mas o jornalismo me deu a habilidade de escrever nos lugares mais improváveis. No começo misturava o jornalismo à minha literatura. Só mais tarde aprendi a acionar cada chave na hora certa. Os textos dos jornalistas que são escritores são melhores porque há mais liberdade na escrita.

O que te leva a escrever?
Moutinho
 – As cenas, frases de um filme. Muitas vezes uma música, uma conexão muito forte com a música. Meu processo de criação também funciona muito bem encomenda. Existem janelas sensíveis, quando elas abrem devemos escrever. Não é inspiração, só sensibilidade e trabalho. A memória é muito importante na minha escrita. Não é a toa que título do meu primeiro livro chama-se Memória dos barcos. A memória é uma briga, um lamento, contra a inexorável finitude das coisas.

Você tem medo da morte?
Moutinho
 – Não tenho, não, já perdi tanta gente. Perdi meu pai, uma irmã, alguns tios… A morte, o sofrimento e a dor trazem maturidade. Quem se interessa por perdas se interessa por memórias, o recolhimento de tudo que se foi. Nenhuma memória é só feliz, muito menos a da infância. [risos]

O que é necessário para ser escritor?
Moutinho
 – Ser sincero com a escrita.

Marcelo Moutinho: encantado pelas palavras

No limiar entre o conto e a crônica; na fronteira entre o Jornalismo e o Direito. É assim que vive o escritor e superintendente de Comunicação da OAB-RJ, com talento e maestria para brilhar em dois mundos nem tão distantes assim.

Tudo começou com as histórias em quadrinhos, a clássica primeira leitura de muitos apaixonados por livros. Depois, encantou-se com “Flicts”, de Ziraldo e, um pouco mais adiante, com a coleção Vagalume, célebre por formar muitos jovens leitores. Mas o carioca de Madureira Marcelo Moutinho foi bem além quando sentiu a necessidade de começar a criar suas próprias histórias.

Aos 43 anos de idade, o escritor e jornalista tem quatro livros publicados – Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001) –, além de organizar e assinar a coautoria de diversas antologias. Ele também acumula diferentes experiências no meio literário, como curador, palestrante, articulista…

Nesta entrevista, o superintendente de Comunicação da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ), fala de literatura, influências, pre­ferências e também sobre a cidade, as pessoas e os lugares do Rio de Janeiro – que tanto influenciam sua obra.

Revista Justiça & Cidadania – Quais foram suas principais inspirações no hábito da leitura? Qual a primeira obra que te cativou?
Marcelo Moutinho
 O primeiro livro de que me lembro é “Flicts”, do Ziraldo. Foi uma das irmãs que leu para mim, porque eu havia discutido com minha mãe e estava triste. De pronto, me identifiquei com aquela cor que não encontra lugar no mundo, que não está no sol, no céu, nem na caixa de lápis de cor. Talvez essa identificação tenha acontecido por eu estar, à época, entrando naquela fase em que o sentimento de pertencimento ainda é frágil, débil.

JC – Quando você sentiu a necessidade de escrever, criar histórias?
MM
 Desde pequeno. Fui fazer a faculdade de jornalismo justamente pela necessidade de me expressar em palavras escritas. A literatura veio depois.

JC – Qual a importância do bairro de Madureira – e do subúrbio carioca em geral – na sua formação como escritor e jornalista?
MM
 Total. Nasci e passei a infância em Madureira. A ambiência do subúrbio está impregnada na minha vida de forma inexorável. O curioso é que só fui compreender a importância dessa ambiência, e das experiências que tive por lá, mais tarde. Em meu primeiro livro de contos, por exemplo, não há a cor local que apareceria nos demais. Há um marco da mudança: a morte de meu pai. Fui inventariante, o que me levou novamente a Madureira, a remexer em papéis antigos que, como madeleines, traziam inteiro na boca o gosto da infância. Reencontrei as ruas onde brincava, o sobrado da minha bisavó, o Império Serrano [escola de samba] que emocionava tanto o pai. Em “Somos todos iguais nesta noite”, lançado em 2006, isso começa a aparecer. Passo a situar parte das histórias no subúrbio, inventar personagens oriundos da classe média baixa, esse segmento tão ausente da literatura brasileira contemporânea. Parece que vivemos entre dois polos: livros que tratam do universo das favelas, eufemisticamente chamadas de comunidades, e livros que abordam os dilemas da alta burguesia. Como se o lugar do meio entre esses dois mundos não existisse, ao menos no âmbito da ficção brasileira.

JC – Como nasceu a coletânea de crônicas “Na Dobra do Dia”? Há algum traço comum a todas as histórias?
MM
 O livro nasceu quando percebi que, nos textos que escrevo semanalmente para minha coluna no site Vida Breve, havia algumas interseções. O grande Antonio Candido afirmou, em estudo clássico, que a crônica não foi feita para durar, mas muitas vezes permanece, torna-se atemporal. Eis seu paradoxo. Tive isso como premissa, escolhendo aqueles textos que, longe da quentura do acontecimento, parecem continuar iluminando o cotidiano em suas insuspeitadas belezas, entre assombros e delicadezas. Na primeira unidade, “Pequenos amores da armadilha terrestre”, reuni as crônicas mais íntimas, ligadas a casa, a família. Em “As ruas pensam”, segunda fração, estão os escritos com o pé na rua, que abordam lugares e personagens da cidade. As frases que servem de título às duas partes citam Paulo Mendes Campos e João do Rio, dois cronistas que souberam, cada um à sua maneira, vislumbrar transcendência no que se sugeria ordinário.

JC – Quais são os cronistas que você mais admira? E por quê?
MM
 Além de Paulo Mendes Campos, João do Rio e Rubem Braga, citaria dois cronistas da minha geração – Antonio Prata e Luís Henrique Pellanda. E também Machado de Assis. Certa vez, Machado escreveu que a crônica nasceu de uma conversa fiada entre duas vizinhas sobre o calor carioca. Pois ele conseguiu transformar essa conversa em gênero literário. É o pai da crônica brasileira.

JC – Machado de Assis, além de ser responsável por obras eternas, como “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, era reconhecidamente um ótimo contista. Com qual faceta do escritor você se identifica mais?
MM
 Machado conseguiu a rara proeza de ser genial nos três gêneros. É ótimo contista e cronista, e genial romancista.

JC – A sua escolha pela crônica seria uma forma de unir o jornalista ao escritor? E onde se encaixaria o Direito nisso tudo?
MM
 É e não é. Porque ao escrever crônica me permito viagens ficcionais que, no jornalismo, seriam impróprias. O Direito, no meu caso, está mais próximo do jornalismo do que da crônica. Isso por conta de meu ofício cotidiano no Departamento de Jornalismo da OAB-RJ.

JC – Aliás, como surgiu o seu envolvimento com o meio Jurídico?
MM
 Decidi estudar jornalismo aos 45 do segundo tempo. Até dois meses antes do vestibular, a ideia era cursar Direito. Por essas coincidências da vida, acebei indo estagiar na Caarj [Caixa de Assistência dos Advogados do Estado do Rio de Janeiro], o que me levaria, depois, à OAB-RJ. Na Ordem, fui de estagiário à repórter, de repórter a editor, de editor a superintendente de Comunicação. São 22 anos de OAB-RJ.

JC – Você já pensou em escrever uma crônica inspirada na sua vivência no mundo jurídico?
MM
 Até hoje, não. Mas a crônica, de modo geral, reflete as experiências do cronista em seu dia a dia. De modo que é natural que, uma hora ou outra, esses dois mundos se encontrem. Mas há textos que remetem ao mundo jurídico. Isso aconteceu há poucas semanas, quando escrevi sobre os linchamentos virtuais, infelizmente cada vez mais disseminados na internet, salientando a importância do direito de defesa e o perigo das pré-condenações. Na verdade, era mais um artigo do que uma crônica.

JC – Em sua opinião, qual caso judicial, dos muitos que vêm ganhando as manchetes dos jornais nos últimos anos, mereceria um conto?
MM
 Vários. Mas, em geral, as histórias mais interessantes para serem transformadas em conto não estão nas manchetes, e sim nos cantos de página. São aquelas que tratam de dramas humanos, da vida ao rés-do-chão, para lembrar mais uma vez de Antonio Candido. A crônica e mesmo o conto gostam das pequenezas.

JC – Você participou de duas coletâneas musicais e organizou uma coletânea de ensaios chamada Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010). Qual a importância da música na sua formação e no processo de criação literária?
MM
 Total importância. Sempre digo, para espanto de alguns colegas, que gosto mais de música do que de literatura. Então não só procuro aprender com a poética dos compositores, como também de cruzar as duas artes, utilizando canções como inspiração para minhas histórias. Já escrevi, por exemplo, contos inspirados nas músicas “Para ver as meninas”, do Paulinho da Viola, “Vento no litoral”, da Legião Urbana, e “Something”, de George Harrison.

JC – Como você tem visto a influência da internet, tanto na sua geração de escritores quanto na de novos leitores?
MM
 A internet foi fundamental para que as novas gerações travassem contato, trocando textos e experiências. Muitos dos novos autores começaram a carreira publicando seus textos em blogs. É um fenômeno que, tenho certeza, merecerá estudos no futuro, porque permitiu o reaquecimento de uma vida literária com tudo que a caracteriza: livros ruins e livros bons, críticas justas e críticas demolidoras, debates importantes e polêmica vazias. Além de picuinhas entre os escritores, claro. As novas tecnologias ajudaram, também, a baratear a produção de impressos. A dimensão das mudanças que a internet trouxe é tamanha que somente com o distanciamento temporal podermos ter uma ideia mais precisa. Não tenho dúvidas, contudo, de que poderemos assinalar um “antes” e um “depois” bem demarcados.

JC – Pesquisa recente feita pela Fecomércio-RJ mostrou que sete em cada dez fluminenses não leram um livro sequer em 2014. Por outro lado, temos o exemplo da vizinha Buenos Aires, cidade com o maior número de livrarias no mundo (25 para cada 100 mil habitantes), enquanto no Brasil tivemos redução de 12% das nossas, segundo dados da ANL (Associação Nacional das Livrarias), de 2013. Ainda que seja improvável virar esse jogo, é possível, ao menos, diminuir essa goleada imposta por nossos hermanos? Como?
MM
 Sim. Mas é um cenário de muita complexidade para ser analisado em apenas algumas linhas de resposta. Penso que é possível atrair o jovem para a literatura, mas que isso não se deve dar com estratégias de pressão. Pelo contrário. É importante, de todo modo, ter em vista que a descoberta da literatura é absolutamente individual. O que “Flicts” significou para mim quando li, ainda bem pequeno, será diferente do que significará para outros. Qualquer política de estímulo à leitura que se queira eficaz deve ter isso em mente.

JC – Quais as principais medidas que devem ser tomadas no País para que haja um maior interesse na leitura, sobretudo entre crianças e jovens?
MM
 Apresentar a leitura não como um fardo, uma obrigação, e sim como uma possibilidade de transcender o espaço do dia a dia. Sedução, em vez de pressão.

Marcelo Moutinho: “Qualquer análise do Brasil que não inclua o futebol será sempre escassa”

O escritor carioca fala sobre a parca presença do esporte nacional na literatura brasileira, reflete sobre o aniquilamento da magia do futebol em nome de uma suposta modernidade e recapitula sua passagem pela última Feira do Livro de Frankfurt.

“Minhas primeiras experiências com a bola foram mesmo na base do bloco do eu-sozinho. Ligava o rádio na emissora que iria transmitir o jogo do Fluminense, fechava a porta do quarto e corria, chutando a bola virtual, enquanto o narrador descrevia o que se passava no estádio. Uma dança secreta e solitária com a própria imaginação”, diz um trecho da crônica “A bola e o tempo”, de Marcelo Moutinho, que foi lida pelo escritor durante a Feira do Livro de Frankfurt.

Nascido em 1972 no Rio de Janeiro, Moutinho é especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio e autor dos livros “A palavra ausente”, “Somos todos iguais nesta noite” e “Memória dos barcos”. Em 2010, mediou a retrospectiva “Brasil, Futebol e Livros”, evento que reuniu escritores no Rio de Janeiro. No ano posterior, organizou a edição especial da revista Bravo dedicada ao futebol, a “Bravo! – Literatura e Futebol”.

“Foi ali que pude me debruçar mais detidamente sobre o assunto futebol como objeto de pesquisa e interpretação literária”, reflete Moutinho a respeito da organização do especial. Sobre o futebol como terreno propício para expedições literárias, ele diz: “O fato de a forte presença do futebol no imaginário brasileiro não repercutir na literatura sempre me intrigou. O tema tinha até há pouco tempo presença bastante tímida em nossa literatura. A exceção é a crônica, cuja produção é extensa”, completa.

A escassez do tema em romances, contos e poemas é analisada por Moutinho da seguinte forma: “A dificuldade de recriar, com tintas ficcionais, o que se passa dentro das quatro linhas, é grande.” Ainda assim, o escritor aceitou o desafio de escrever um conto sobre futebol: “Domingo no Maracanã” integra a antologia “Entre as Quatro Linhas – Contos Brasileiros Sobre Futebol”, publicada em agosto de 2013 na Alemanha como parte dos preparativos do Brasil como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt e que chega ao Brasil no começo de 2014.

“Domingo no Maracanã” narra a primeira visita de uma menina ao Maracanã”, salienta Marcelo. “Na história, o estádio está em obras, sendo reformado para a Copa. Abordo o deslumbramento de uma estreia, mas também o aniquilamento da magia em nome da modernidade, esse traço tão brasileiro de transformar em ruína o que ainda é construção”, diz ele, em analogia ao verso da canção de Caetano Veloso.

A participação na Feira do Livro de Frankfurt foi valiosa. O escritor teve a oportunidade de unir, durante o evento, suas duas grandes paixões: a bola e a escrita. A bola, como meio-campista da seleção de escritores brasileiros, o Pindorama FC. Moutinho e os colegas de time jogaram uma partida contra a seleção alemã de escritores, a Autonama. Os alemães venceram de goleada, de 9 a 1. Mas sobre isso ele fala pouco.

A escrita, através das já citadas obras “A Bola e o Tempo” e “Domingo no Maracanã” e a mediação de uma mesa redonda de nome “Fla, Flu & Co: Os grandes clubes brasileiros”. “Qualquer análise do Brasil que não passe minimamente pelo futebol será sempre escassa”, opina Moutinho. Sobre a junção do futebol e da literatura durante o evento, ele ressalva: “Não estivemos lá somente como Pindorama FC, para jogar futebol. O mais interessante da proposta foi o estreito diálogo esportivo e literário com escritores alemães através de leituras, criação de textos e o debate sobre as marcas que distinguem a cultura de cada país”, resume.

Para desgosto da família, em sua maioria torcedora do Botafogo, Moutinho é fã inveterado do Fluminense: “Nunca tive identificação alguma com o Vasco, apesar da origem lusitana da minha família. E não me aprazem times de torcida majoritária, então nunca cogitei torcer para o Flamengo”, diz o escritor, namorado de Juliana, “que terrivelmente torce para o rubro-negro”. E o Botafogo? “Desviei da linhagem familiar alvinegra porque nos anos 1970, época em que eu escolheria meu time, o Botafogo passou por uma fase horrenda”, recorda. Sobrou o Fluminense.

“Em âmbito literário”, aponta Moutinho, o Botafogo é muito mais interessante que o Fluminense”. Para o escritor, “a ficção se apropria muito melhor de situações e personagens que têm um sentido trágico, o que é o caso clássico do Botafogo, com suas superstições, a paradoxal ânsia derrotista, o flerte com o desastre sempre à espreita”. Questionado sobre qual é o gênero literário que mais se assemelha a seu time, Moutinho responde rápido: “O romance do século XIX, com certeza. Pela identificação com a ascensão da burguesia, pela linguagem sofisticada, pela qualidade do registro – e também, claro, pela pretensão”.

Uma “certa simpatia” por times de outros países é existente. Na Alemanha, Moutinho gosta do Borussia. Mas antes que alguém possa entendê-lo mal, faz questão de frisar: “Torço pelo Fluminense, sempre, em qualquer lugar do mundo”.

Imagens para divulgação

Fotos por Leo Aversa

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