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O filho do crucificado

O filho do crucificado

Seis propostas para o fim dos tempos

Irresistível a remissão ao atentado terrorista que fez ruir as torres do World Trade Center e à guerra travada pelos EUA, com apoio de boa parte do planeta, contra os talibãs. Afinal, embora não intencionalmente, é sob a avassaladora exacerbação provocada pelo ato e suas conseqüências, traduzidas no clima de insegurança que desde então perdura, que chega às livrarias “O filho do crucificado”, o mais recente passeio de Nelson de Oliveira pelos bosques da ficção. A proximidade de um apocalipse responsável pelo aniquilamento de tudo e de todos funciona como fio condutor e concede organicidade às narrativas, recheadas de transes místicos, poções e truques mágicos. Reunindo cinco contos e a novela que lhe dá título, o livro apresenta aquelas que seriam as seis propostas do autor para o fim dos tempos.
Oliveira intensifica na obra um traço marcante em trabalhos anteriores, como “Naquela época tínhamos um gato” e “Subsolo infinito”, valendo-se do tema para explorar seu fascínio pelo insólito, ainda que sob um registro não totalmente experimentalista do ponto de vista estético/formal. Ao recorrente “inusitado” de Franz Kafka, o escritor alia um senso de humor que lembra Campos de Carvalho, atuando como uma espécie de xamã contemporâneo, capaz de promover a intermediação entre a realidade e dimensões sobrenaturais, e revelar o caos simbólico de uma época na qual todos os discursos se equivalem. As referências ao histórico e ao sagrado servem como trunfo para embaralhar mais as cartas dessa profusão de vozes desafinadas.
Há alusões, por exemplo, ao ataque contra Dresden, na Alemanha, na Segunda Guerra (no conto “As bruxas”), à Revolta da Vacina (em “O filho do crucificado”) e a episódios da Bíblia, mas tal prática parece querer tão-somente explicitar, fazendo a ilusão penetrar bruscamente no factual, o quanto a chamada realidade tem de ilógica. Em alguns momentos, secularismo chega a confundir-se com profanação: em “Quantos?”, estruturado nos moldes de entrevista, a prostituta que diz ter seduzido o Criador confessa ater-se, quando faz sexo, apenas “à silhueta sedutora e colorida dos anúncios”. Seu sonho, virar apresentadora de TV, é o desejo de tantos, e a rubrica mordaz e irônica de Oliveira sobre o lugar da mídia em seu apocalipse.
Diante desse quadro, os personagens trafegam confusos na busca de um mundo plausível. O protagonista de “Arremessa teu raio até a morte” parte do ambiente caótico de um prédio para, com um velho aparentemente louco, assistir ao passe de mágica que dará fim a tudo. No excepcional “Nada do que é humano me é alheio”, o salto no vazio de um indivíduo provoca uma onda de suicídios. Desenhada num fluxo narrativo que destaca seu movimento, a queda coletiva permite a confissão de dramas individuais agravados pela inevitável proximidade do chão. A situação-limite expõe uma irrealizada e desesperada necessidade de expressão, observada pelo autor também quando faz usar máscaras (“Arremessa teu raio até a morte”) ou coletes de invisibilidade (“O saxofone baixo”) alguns personagens.
De forma menos explícita que em “Nada do que é humano me é alheio”, há uma inconfessa amargura nas seis narrativas. Talvez se possa relacionar tal sentimento ao desconforto próprio a um século no qual a abundância de discursos convive com completa ausência de uma visão de conjunto. Macronarrativas já não dão conta de decifrar as agruras de nosso tempo, e o autor aposta na via da imaginação. Como sublinhou Leyla Perrone-Moisés, “lembrar-se do que nunca existiu é não conformar-se com o mundo e suas histórias, não considerar o real inelutável; é afirmar que as coisas poderiam ter sido outras, poderão ser outras”.
Dentre as possibilidades da literatura, essa capacidade de levantar, “por suas reordenações e invenções, uma dúvida radical sobre a fatalidade do real” está entre as que mais encantam o autor de “O filho do crucificado”. Um diálogo entre Ana Maria dos Espíritos, personagem da novela, e o homem que a repreende por pedir esmolas fazendo-se de deficiente é revelador. Ante a questão levantada – por que ela fingia ser aleijada? -, Ana responde: “Porque sou excepcional. E você, por que se faz passar por judeu esclarecido?”. Ele rebate: “Conhece disfarce melhor para alguém que queira ascensão rápida e eficaz?”, e recebe uma sagaz alfinetada: “Já tentou o de trapezista? Namorei uma dúzia deles, todos falsos. Apesar da mentira, me levavam à lua”. Cheio de verve, Oliveira caminha atrás de um leitor sofisticado que se deixe enredar por seu alucinante frenesi de imagens absurdas. Na esteira desse movimento, realça a faculdade que as palavras têm de através da fábula desassossegar, se o sossego do mundo deixa a desejar.

 
* Resenha publica no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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