Todos os dias

A literatura como ilusão de eternidade

Num de seus poemas, Fernando Pessoa especula se a alegria revivida ao ouvir uma velha música corresponde de fato ao sentimento experimentado na infância. “Eu era feliz?”, indaga a si mesmo, tomado pela nostalgia. E então conclui: “Não sei: / Fui-o outrora agora”. No paradoxal verso, o poeta cristaliza aquela que talvez seja a principal faculdade da memória: recriar, com requintes de ficcionista, impressões possíveis da realidade.
Essa engrenagem difusa assinalada por Pessoa funciona como moto-propulsor de “Todos os dias”, o romance de estréia do também português Jorge Reis-Sá, lançado no Brasil pela Record em edição que respeita a grafia lusitana original. Dividida em sete etapas – “Aurora”, “Manhã”, “Almoço”, “Tarde”, “Crepúsculo”, “Jantar” e “Noite” –, a história se desenrola em apenas 24 horas. No núcleo do enredo, uma família do norte de Portugal vive à sombra da perda recente de Manuel Augusto, um de seus membros.
O livro é narrado por Justina (a mãe), António (o pai), Fernando (o irmão) e Cidinha (a avó, já falecida), que descrevem, em relatos sempre atravessados pela ausência do parente morto, a banalidade do cotidiano doméstico. Essas quatro vozes constroem paulatinamente uma imagem plausível, mas exterior, de Augusto. Nas últimas páginas, ele finalmente ganhará autonomia, num epílogo (“Tarde demais”) desconcertante e revelador.
O tom monocórdico dos quatro narradores poderia sugerir a inabilidade de Reis-Sá, conhecido em seu país como poeta e contista, na elaboração dos personagens de maior fôlego. Trata-se, porém, de uma artimanha intencional. Mais do que as reminiscências individuais, ao autor interessa captar as dores, os afetos e as sensações que se insurgem em comum, como uma espécie de “memória da casa” na qual, em algum momento, todos moraram juntos.
“A casa que é dos pais inunda-me de passado”, como diz Fernando. A casa onde Cidinha fritava sardinhas às quartas-feiras, onde Justina dava de comer à cadela, onde se estabeleceu o confronto central entre os dois irmãos. Fernando, o pragmático, mendigando a atenção dispensada a Augusto. Este, por sua vez, brilhando naturalmente com seu carisma, mesmo tendo decepcionado os pais ao abandonar a faculdade e trancar-se no sonho de ser escritor.
Pairando como neblina sobre a família, a saudade é acionada por pequenos atos e gestos. No sino da igreja, que se perde em Justina “como um ressoar diário”; na máquina de café, “ligando os barulhos da memória naquele remoer”. À medida que a casa se esvazia, que cada um segue seu rumo – seja a morte, seja o casamento -, eles tentam desesperadamente povoá-la de lembranças. O processo de erosão do antigo lar espelha, de certo modo, a diluição da própria família, como demonstra António em seu lamento: “O tempo acaba sempre por rasurar o que sentimos, por inundar de horas, de demasiadas horas, o amor que temos pelo outro”.
Para ele e Justina, agora a sós na casa, o vazio é ainda mais acachapante. “O dia cai na noite como caíam outros dias. Como caía quando havia mais gente nesta mesa, onde cair. Como caía quando o Fernando não a tinha só para ele, com um filho e a mulher, quando a mãe a tinha perto, onde colocava um jantar quente e novo; quando o Augusto nos ajudava na felicidade por nos acompanhar a todos numa refeição”, lista António, refazendo em pensamento o som dos grilos, dos carros a passar na rua, da cadela latindo no interior do barraco. “Nós somos as pessoas que foram conosco”, resume.
Reis-Sá conduz essas emoções com ternura, lirismo e muitos adjetivos, num texto que muitas vezes se aproxima do registro poético. E o leitor mais observador poderá notar como, na estrutura do romance, o autor redesenha o movimento da própria literatura. Primeiro, ao condensar, num intervalo intenso e brevíssimo – no caso, a duração de um dia – acontecimentos espaçados em muitos e muitos anos. “Sou, na passagem das horas, no olhar de quem amo, todas as resignações, todos os dias que já fui”, sintetiza Cidinha. Em segundo lugar, sublinhando a fé na palavra como combustível de uma (ainda que frágil) perenidade, crença que seus personagens manifestam em várias passagens. É novamente Cidinha quem alerta: “Os mortos só existem enquanto existir quem deles fale”.
“Todos os dias” reitera que a literatura é sempre um réquiem, uma ilusão de eternidade. Porque, no fim das contas, a ampulheta corre.
Box:
Record aposta no autor
A Record decidiu mesmo apostar em Jorge Reis-Sá, que esteve no Brasil recentemente para lançar seu romance. A editora promete para breve os livros “Terra” – originalmente posterior a “Todos os dias” – e “Por ser preciso”. Publicados em Portugal respectivamente pela Sextante e pela Cosmorama, os dois trabalhos confirmam que, embora jovem (30 anos), o autor já demonstra um estilo literário próprio. E mais: uma admirável maturidade nos temas que elege.
Os contos reunidos em “Terra”, aliás, ratificam também aquela que parece ser a obsessão de Reis-Sá. Evocando a infância, as oito histórias do livro percebem a memória como uma máquina capaz de devolver a harmonia às coisas passadas. E evidenciam que o universo fortemente metafórico do autor chega a pontos altíssimos nas narrativas curtas. Caso, por exemplo, de “O vaso dos nomes”, em que a menina protagonista imagina, nos nomes escritos em papéis que espalha pelo chão da casa, as pessoas que passarão por sua vida.
“Por ser preciso” é constituído por um só conto, no qual o narrador se dirige ao pai, morto depois de muito sofrer por conta de um câncer. Mais do que a dor de quem se vai, o pequenino e dilacerante livro esquadrinha a expiação de quem fica. Cada frase é embebida de recordações, que falam de um pai ainda vívido e, por contraste, dão ao leitor a dimensão da perda.
Além dos títulos de prosa, Reis-Sá tem cinco livros de poesia lançados em seu país. As obras foram publicadas pela Quasi, editora que comanda desde 1999 e cujo catálogo inclui vários autores brasileiros, como Ferreira Gullar, Antônio Cícero, Manoel de Barros, Arnaldo Antunes, Fabrício Carpinejar e Eucanaã Ferraz. O escritor português também mantém um site (www.jorgereis-sa.com), que disponibiliza poemas, contos, crônicas e críticas.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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