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Por trás dos vidros

Por trás dos vidros

Uma estranheza plácida

A correlação entre Modesto Carone e Franz Kafka é tentadora – e quase inevitável. Primeiro, porque se trata do principal tradutor brasileiro do autor de clássicos como “O processo” e “A metamorfose”. Se não bastasse, os 49 contos reunidos em “Por trás dos vidros”, seu novo livro, caracterizam-se pelo registro realista e pelo matiz insólito que sempre foram caros ao escritor tcheco. Engana-se, no entanto, quem pensa em pastiche. Além de apresentar um estilo próprio – e mesmo singular dentro de nosso atual panorama literário -, Carone abdica de perscrutar sentidos no absurdo. A angústia da pergunta nunca respondida, que atormenta os personagens kafkianos, dá lugar a uma melancólica e passiva adaptação ao estado das coisas.
Recém-lançado pela Companhia das Letras, “Por trás dos vidros” oferece um plano geral da produção de Carone no campo da ficção. Aos contos retirados de três trabalhos anteriores – “As marcas do real” (1979), “Aos pés de Matilda” (1980) e “Dias melhores” (1984), todos fora de catálogo -, foram acrescidos textos publicados nos últimos anos de forma esparsa em jornais e revistas. O agrupamento de narrativas escritas em diferentes épocas não chega a tornar o livro inorgânico, sobretudo porque há uma marca que atravessa suas 208 páginas e justifica a feliz escolha do título: o olhar oblíquo, “por trás dos vidros” que a tudo filtram (ou deformam).
Nos breves contos de Carone, os movimentos são introspectivos. Seus personagens detêm-se no detalhe, na avassaladora tensão interna que precede cada ato, nas potências misteriosas que regem os acontecimentos. Quase sempre é uma imagem externa que aciona o gatilho. Ao visitar o local em que passou a infância, o protagonista de “Passagem de ano entre dois jardins” sente os tempos do presente e da memória acasalarem-se e, numa epifania, infere que “é inaceitável se aprender a morrer”. O jovem apaixonado de “À margem do rio” experimenta a dor do primeiro luto quando vê a bailarina do circo, dona de seus afetos, partir. Em “Bens familiares”, o homem não agüenta o desacerto das batidas do carrilhão que costuma lhe fazer companhia nas horas mortas – “um engasgo passou a substituir o intervalo entre as badaladas” – e o destrói. O viés simbólico é evidente.
Em vários textos, como “Subúrbio”, “Dias melhores”, “Rito sumário” e “Fim de caso”, Carone vale-se também do recurso da numeração. Ao promover o ordenamento formal de enredos essencialmente insólitos, o autor ajuda a cristalizar o conflito que assalta seus personagens, cindidos entre a ‘normalidade’ externa e a ‘subversão’ interna. Esse duplo aparece ainda mais nítido em “O cúmplice”. O conto relata a agonia do indivíduo que evita o seu ‘outro’ por uma razão prosaica: o dente podre e dolorido. Quando enfim consegue livrar-se daquele que o persegue, ele nota que sumiu também o incômodo dentro da boca. Mas logo reitera a desconfiança de um rápido retorno, como se o soubesse inevitável: “Quem convive com os seres da sombra sabe muito bem que eles se apegam à vida assim que nós os tornamos necessários”.
É uma pena que, em alguns textos, Carone não resista a explicitar uma ‘moral da história’ e abdique da penumbra que paira sobre a maior parte da obra. O caso de “As faces do inimigo” é exemplar. O protagonista passa as tardes vigiando de forma minuciosa os pêlos que crescem, à revelia, ao longo de seu corpo. A tarefa é árdua, já que a multiplicação ocorre rapidamente, “os espécimes rebeldes proliferam, a conta de luz, por causa dos refletores, sobe sem parar” e, além de tudo, é preciso repor as pinças. De lúdica, a empreitada torna-se exasperadora. Mas a promissora trama desmancha-se no artifício de uma frase ‘conclusiva’: “Ocorreu-me então, daquele rosto abismado, que muito pouco se pode fazer contra as manifestações espontâneas”.
Embora destoem, esses pequenos desvios não chegam a fazer malograr o livro, que culmina no belíssimo “Utopia do jardim-de-inverno”. No conto, o narrador contempla a extrema morosidade com que a natureza se transforma, tentando esquadrinhar “o mundo complicado” de uma estufa. “Todas as vezes que eu entro no jardim-de-inverno alguma novidade me espera. Não que lá aconteçam coisas excepcionais – a não ser para os olhos habituados ao trato maleável com as nuances”, anota ele. De certo modo, essa espera sem pressa por “sinais aparentemente insignificantes, como trocas discretas de posições e arranjos que a vista destreinada não distingue”, reencena a busca de Carone em “Por trás dos vidros”: enxergar as luzes mais inusitadas, flagrar os meneios mais perturbadores – ainda que sem decifrá-los.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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