A saga do cavalo indomado

Sede indomada de liberdade

A romancista Maria Alice Barroso, refletindo sobre os motivos que levam um escritor à prática de seu ofício, localizou-os no cumprimento do binômio livro/leitor. Embora admitisse que alguns, “mais puristas”, pudessem fazê-lo para seu próprio prazer, analisava outras possibilidades. Em um hipotético primeiro grupo, estariam aqueles que escrevem de forma confessional. Outros o fariam como exercício da própria inteligência, com o permanente risco do puro exibicionismo. Maria Alice, contudo, certamente não deve ser enquadrada em qualquer dos dois casos. Talvez em uma terceira vertente, a dos autores que desejam simplesmente contar histórias, repassando-as de geração a geração, na linhagem da secular narrativa oral. Isso emerge de A saga do cavalo indomado, obra com a qual conquistou o Prêmio Jabuti (1989), relançada agora pela Editora Expressão e Cultura.
O livro integra o Ciclo Parada de Deus, que reúne cinco romances escritos ao longo de quase três décadas – completam a série Um nome para matar (1967), O globo da morte (1973), Quem matou Pacífico? (1986) e A morte do presidente ou A amiga de mamãe (1994). A coleção, que será relançada na totalidade, esmiúça a trajetória dos Moura Alves, fundadores de uma cidade fictícia na divisa do interior do Rio com Minas Gerais, região onde a autora nasceu e passou parte da infância. Da primeira à quinta obra, o leitor acompanha no microcosmo da família um período que se inicia nos anos imediatamente posteriores à independência do país e se encerra com o suicídio de Getúlio Vargas.
Originariamente, o quarto romance publicado, A saga do cavalo indomado, foi escolhido pela editora para dar partida nos relançamentos do Ciclo porque reporta aos passos primevos do clã, organizando de modo cronológico o percurso da família. O livro apresenta a curiosa figura de Francisco de Moura Alves, o Chico das Lavras, ex-tropeiro que ao descobrir ouro e ocupar as terras onde serão plantadas as sementes de Parada de Deus termina também por firmar as bases sobre as quais será desenvolvida toda a história.
Confronto – Chico das Lavras se crê ungido pelo divino, predestinado por “Cristo Rei” a ter uma autoridade suprema sobre tudo. Como símbolo desta aliança mística, amarra o destino dos oito filhos a uma promessa: as meninas seguiriam para o convento, e o varão se dedicaria aos estudos no seminário para assumir futuramente a paróquia local. Do confronto entre a determinação paterna e a rebeldia da caçula, Maria Olegária, incontornável em sua decisão de não aceitar o destino imposto, é que se construirá o foco narrativo da obra.
Maria Olegária surge como a protagonista oponente a Chico das Lavras. Sua independência transparece não só na relutância em se curvar ao poder do patriarca, mas também pela destreza em montar Nego, o cavalo indomado que funciona como extensão da menina, e ao qual faz referência o título do romance. A caçula e o pai cultivam um recíproco e inconfesso fascínio, como o que em geral move os contrários. Os jogos de oposição, porém, não se limitam aos dois personagens. Tornando a composição mais interessante e paradoxal, Maria Alice Barroso investe na dicotomia. À paixão da inquieta e questionadora Maria Olegária pela liberdade corresponde uma irresistível atração pelo “sagrado”, metaforizada no amor que nutre por Cesário, o padre que assiste os moradores na capela do vilarejo. Por outro lado, a tão decantada dedicação de Chico das Lavras à religião confronta-se com a diária infidelidade conjugal que pratica, dentro da própria casa.
A articulação de diversos fios discursivos não significa, no entanto, um todo confuso. A trajetória dos Moura Alves, seus conflitos, suas tensões, são saboreados sem maiores dificuldades num mosaico de passado e futuro que se entrelaçam, inclusive através de constantes referências a fatos cuja descrição ocorrerá nos outros romances da série. Tais alusões ficam prejudicadas somente na parte final do livro, quando no afã de conectar as sementes da família ao ciclo que se fecha na presença de Maria Isabel, sobrinha bisneta de Maria Olegária, a autora acelera um tom acima do ideal o ritmo da narrativa.
Sem dúvida, era fundamental unir os dois extremos geracionais. E há um componente fantástico que ajuda a sedimentar essa união, quando se revela a crendice que os habitantes da cidadezinha viriam a cultivar, a respeito do “surdo rumor” de um galope de cavalo ouvido nas noites de lua cheia.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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