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Pessoas do século passado / Cassino Hotel / Cerco

Pessoas do século passado / Cassino Hotel / Cerco

‘Safra 21’ mostra a cara

A argamassa que dá liga ao conceito de Geração 0 distingue-se mais pelo recorte meramente temporal do que por uma identificação precisa de traços estilísticos comuns entre os jovens autores que seriam seus agentes. Pelo contrário, o pluralismo e a multifaceta é que dão o tom de suas narrativas, que se agrupam tão-somente na evidente influência do cinema, da TV, da música e da explosão da tecnologia, cuja ponta mais visível é a internet. A rede, aliás, possibilita uma intensa troca de experiências entre os novos escritores, cujos trabalhos variam do lirismo mais derramado a uma crueza extremada que por vezes paradoxalmente desqualifica o ansiado sotaque realista. De qualquer modo, são eles que representam ”as flores do bem e do mal do florilégio de uma época”, atualizando a assertiva de Nelson de Oliveira sobre os autores que despontaram na década de 90.
Tal florilégio começa felizmente a despontar para além dos guetos virtuais. No próximo mês, chegará às livrarias pela editora Agir a primeira edição da revista Paralelos, materializando parte da produção publicada no site (www.paralelos.org), ao contemplar jovens promissores como João Paulo Cuenca, Flávio Izhaki, Mara Coradello e Antonia Pellegrino. Em trincheira semelhante, a Editora Rocco acaba de lançar a coleção Safra 21, cuja proposta é ”estabelecer uma conexão entre talentosos autores, quase todos inéditos” e não se limitará a nomes nacionais.
O selo é inaugurado com três livros: Pessoas do século passado, de Dodô Azevedo; Cassino Hotel, de André Takeda; e Cerco, de Daniel Frazão. A uni-los, uma feição coalhada de referências pop, que não chega a uniformizar dmasiadamente a coleção, mas arrisca-se a oferecer ao leitor uma perspectiva um tanto fechada do que venha a configurar a tal ”Safra 21”. Até porque, embora variem as denominações, mais uma vez sob o aspecto geracional, trata-se de um grupo afim: escritores iniciantes no ofício que vêm, com suor e inspiração, levando adiante o bastão da literatura brasileira.
Feito o reparo, vamos aos livros propriamente ditos e a seus autores. Pessoas do século passado é um trabalho irremediavelmente ligado à festa (onde Dodô atua como DJ) e ao site homônimos (www.pessoasdoseculopassado.com.br). Fragmentário e diagramado com base em colagens, o livro compõe-se de mensagens trocadas via internet por personagens ficcionais, que procuram dar conta do que representou, em suas visões particulares, o século 20, e dos desafios que ora se apresentam – da macronarrativa da política ao microcosmo do amor.
Personagens como a dentista Cristiana Gernalt, que relata: ”Aí é sábado de chuva, vocês dois têm a tarde livre e resolvem passá-la namorando debaixo do edredom. Ele diz, Olha, preciso deixar o telefone ligado porque estou esperando uma ligação de uns importantes suecos. Ela conclui, com razão, que ele está ali (no edredom) e lá (no escritório) ao mesmo tempo – uma transcendência borra-botas, uma necessidade otária de transcendência”. A leve amargura convive harmoniosamente com o otimismo cândido que no geral o livro suscita, sugerindo que o fim do século mira para um futuro melhor.
Inspirado pelo Jogo da amarelinha, de Cortázar, Dodô aposta na não-linearidade, e relega ao leitor a montagem de seu próprio livro, de acordo com a seqüência desejada. Ao centrar-se no hipertextual, Pessoas do século passado revela um esforço formal para refletir o tema que o autor explora sob ótica acadêmica no curso de Mestrado em Lingüística na PUC-Rio. ”Investigo a hipertextualidade antes do advento da internet, em obras como o Dom Quixote, de Cervantes, e a Bíblia Glosada, de São Tomás de Aquino”, explica ele.
Por isso, o livro estende seus tentáculos para além do volume impresso. No site, foi aberto um espaço onde os leitores podem contribuir com suas observações sobre o século que se foi. E ainda este ano chegará às lojas um CD com canções compostas especialmente para complementar a obra, num diálogo lítero-musical. ”Transformamos o livro em música, gravada por uma banda também chamada Pessoas do século passado. E através do site aumentaremos o número de personagens e de ‘autores’, pois cada leitor, ao registrar seu depoimento, estará escrevendo uma nova página”, afirma o autor.
Assim como Dodô, Daniel Frazão estréia com o título publicado pela Rocco. Cerco centra seu enredo num grupo de adolescentes de uma cidade interiorana que, sem maiores razões, decidem matar os que os circulam. A história, em si cinematográfica, remete a fatos como o massacre de Columbine, procurando expor a falta de horizontes da juventude pós-utópica. Frazão pondera que ”não se inspirou em nenhuma notícia particularmente”, mas admite que sua investida literária alimenta-se de um sentimento de vazio, de secura, compartilhado por boa parte de sua geração. ”Nossa cultura está banalizada, nossa sociedade está banalizada. Com a violência, não poderia ser diferente. Creio que a violência no livro não está nas cenas de assassinato, mas na total falta de esperança e de qualquer plano para o futuro. Por parte tanto dos jovens, quanto dos adultos”, salienta ele.
André Takeda é o único não-estreante da trinca. Já havia obtido alguma repercussão com o romance Clube dos corações solitários (Conrad, 2002), escrito despretensiosamente via internet. Em Cassino Hotel, Takeda apura sua narrativa, não raro comparada à do inglês Nick Hornby. O livro conta a história de um guitarrista de rock às voltas com a fama e uma imensa crise existencial. ”A areia úmida da praia, envolvendo os meus pés com pequenos e gelados grãos, transporta meu corpo para os meus vinte e poucos anos, quando o sentimento de ficar mais velho não trazia consigo a tristeza do que deixara de fazer”, anota em certo momento o narrador imaginado por Takeda, em um dos tantos parágrafos nos quais fica patente que, se manteve o foco na linguagem jovial e pouco empolada, o autor dourou com tonalidades ainda mais líricas, confessionais e subjetivas o seu texto.
Takeda editou, até pouco mais de um ano, a revista virtual TXT Magazine, onde foram publicados contos de mais de cem escritores da nova geração, entre eles Daniel Pelizzari, Clarah Averbuck e Ronaldo Bressane. A experiência com o site concedeu-lhe um olhar privilegiado sobre a produção contemporânea, que resiste em chamar de ”geração”. ”Não entro em discussões sobre ‘geração’. Sempre existiram novas gerações. Ocorre que hoje a publicação tornou-se mais fácil”, argumenta, apontando aquele que será o xis da questão a partir de agora, com o interesse das editoras e a conseqüente chegada ao mercado de dezenas e dezenas de novos autores: ”Precisamos saber se há leitores”.
A resposta, então, está com vocês.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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