Não falei

O amanhecer pós-64

A quase-crise em torno das fotos que supostamente flagrariam a tortura oficial nos porões da ditadura militar reacendeu, no ano passado, ressentimentos aparentemente adormecidos. Tudo porque, apesar da radical mudança de eixo — da utopia para o pragmatismo, das macronarrativas para a multiplicidade pós-moderna —, o tempo das décadas de 60 e 70 ainda é, ao menos sob perspectiva histórica, o nosso tempo.
Iniciado logo após o retorno dos exilados, o balanço sobre o que significou aquela turbulenta época segue firme. Rendeu obras exemplares, como a trilogia escrita por Fernando Gabeira, o já clássico “1968, o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, e hoje viceja sob a lente perspicaz de Elio Gaspari. Nos últimos anos, porém, a esses importantes relatos jornalísticos vêm somar-se experiências de caráter ficcional, que permitem um outro — e interessante — olhar sobre o que se passou.
É um olhar de ressaca e soçobro que distingue, por exemplo, obras como “A suavidade do vento”, de Cristovão Tezza (1991), e “As cinco estações do amor”, de João Almino (2001), nas quais os personagens refletem, a partir de seus microcosmos, o estado geral exterior. Tal abordagem está presente também em “Não falei”, segundo livro de Beatriz Bracher, lançado pela Editora 34. O romance é narrado por Gustavo, professor apaixonado por seu ofício, que se prepara para a aposentadoria e a mudança de cidade. A morte da mulher, as relações com a filha, irmãos e pais, e, principalmente, a acusação velada de ter dedurado o cunhado, colaborando assim para seu assassinato, tudo isso é inventariado na égide de um ciclo que se encerra: “Encontro-me nessa fase de aquisição de uma nova linguagem uma vez que a antiga, a que sabia e usei, suas palavras parecem ter se tornado estéreis, foram discutidas, aceitas e transformadas em algo que não reconheço mais”. E que linguagem “antiga”, “estéril”, seria essa a que o professor faz alusão?
Ele se refere ao sistema de pensamento que vicejou em sua juventude, atravessada pelo Golpe de 64. Um sistema fundado primordialmente na mobilização, seja através da educação ou da cultura, que germinava em filmes, peças, livros, cujo objetivo era um só: “mudar o mundo”. Gustavo vê-se alijado dos novos tempos, quando há um “vazio agressivo” e tais imperativos parecem não mais fazer sentido: “Demorei a perceber quais fluxos haviam sido interrompidos. Não se tratou de uma perda de memória, embora isso também tenha acontecido mas em menor escala. Foi antes uma perda de percepção da realidade, ou de interesse por, resulta no mesmo”. A essência do livro de Beatriz está nesse imenso vácuo criado quando esfareladas algumas das bases da vida do protagonista e, mais, destruído o “grande antagonista” que animava sua luta.
Outras vozes irrompem na narrativa do professor: recortes do romance que o irmão José está escrevendo, anotações de Jussara, velhos rabiscos dele próprio, trechos de aulas e palestras, enxertos de livros de Pedro Nava, Primo Levy, Edgard Morin, canções de Candeia e Nelson Cavaquinho. “A nossa imagem no mundo é a soma de rumores, dos passos que damos e dos que não andamos, passaram por nós. Não há álibi nem conserto para a história que fica sendo nossa, José, com seu livro, expande minha infância para lados que não conhecia. Porque minha casa e minha família são eu, de alguma forma”, observa ele, numa síntese dos cacos disformes com que Beatriz forma o mosaico da memória, esse coquetel de reminiscências, saltos, supressões e ambigüidades. Tantas digressões por vezes fazem o leitor ressentir-se de alguma “gordura” nas 152 páginas de “Não falei”, embora isto não chegue a prejudicar demais a fluência.
É evidente o carinho que a autora dispensa ao protagonista, expondo a crise que o atravessa com alguma dor e muito lirismo. A autora impressiona quando utiliza descrições físicas para metaforizar sentimentos e lembranças, como na belíssima passagem em que José recorda-se das manhãs em família: “A casa não era de muitas palavras, falava-se de outras formas. A escada dizia quem chegava ou saía, o cheiro de cada cliente dizia o tipo de trabalho da mãe, o jeito de a porta abrir à noite para o meu pai determinava a hora em que iríamos para o quarto. No escuro a casa cresce e é tomada por seus verdadeiros donos, o chão, as paredes, as panelas e pratos, a poltrona, a porta, o teto, as rachaduras”. G., no caso, é o professor Gustavo.
O físico e matemático Hernam Minkowky afirmou certa vez que “não há quem tenha visto um lugar a não ser em um certo tempo, nem um tempo a não ser num certo lugar”. Gustavo é personagem de um lugar e de um tempo, que estende seus fios até hoje. Ele se sabe no “entreato da vida”, quando o verbo insiste no pretérito. E o leitor acompanha esse sofrimento de rua sem saída até receber, com a desconstrução do delicado “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, um aceno esperançoso. Tomado pela melancolia, o professor relê o poema sob prisma particularíssimo — e consegue então vislumbrar a passagem de bastão geracional: “Ele (o galo) ter feito importa, mesmo que não mais ecoe o canto, (…) o canto da geração que Marta agora ouve e tece outras manhãs”.
Manhãs de outro tempo que começa.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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