Leu o livro do Chico?

Problemas pessoais, não sociai

Inadequação e não-pertencimento são argamassa de alguns dos mais célebres personagens da literatura universal. Embora sob véus distintos, tanto a angústia do Gregor Samsa concebido por Kafka, quanto a melancolia trágica do Marcher imaginado por Henry James no primoroso “A fera na selva”, ou ainda o silêncio obsequioso de Mersault, protagonista de “O estrangeiro”, de Camus, alimentam-se e relacionam-se com o mundo a partir de um estranhamento. Seu ponto de contato precípuo — e sua riqueza — é o desconforto diante do incompreensível e a crise que se amalgama daí. Mesmo que possam se encontrar acuados por entraves de caráter social — capazes de agravar quadros em si caóticos — e malgrado sua solidão ter assumido paradoxais traços epidêmicos, os dramas de tais personagens são eminentemente individuais. Reduzi-los a categorias sociais seria, portanto, um equívoco.
A menção ao cânone em resenha de um livro de estréia poderia ensejar injustiças. Mas a lembrança quer marcar a idéia de que, nem mesmo quando calcados na crítica social de um Dostoievski, Zola ou Graciliano, extraímos ouro literário de minas somente ideológicas. E, infelizmente, é esta conexão que tanto prejudica “Leu o livro do Chico?”, de Márcio Moraes Valença.
A trama básica se dá em torno de um homem por volta dos 40 anos, em desconforto com o que o cerca, de um país socialmente injusto à mulher que, de repente, virou-lhe desconhecida. Ele tem dúvidas quanto ao casamento, à labuta e aos que o rodeiam. Questiona-se sobre a felicidade. Valença trabalha com frases curtíssimas para narrar em ritmo vertiginoso tergiversações do protagonista.
Falamos de um indivíduo “perdidamente ocupado com trabalho e casa; perdidamente necessitado de tempo”, acostumado a “conciliar suas duas vidas: a de dentro e a de fora do pensamento”. A confusão do personagem é sublinhada na forma do texto, entremeado por “interferências” — uma piada, os gestos do vizinho, a música do rádio, uma carta — e sua angústia também parece cindida, entre o individual e o social. Valença tenta espelhar tal quadro atrelando o conflito interno à insatisfação com as agruras do país, mas a ligação não funciona, principalmente porque torna-se patente que o mundo verdadeiramente em destroços é o de dentro.
Quando o narrador refere-se a essa espécie de “falta” o livro cresce. Surgem, então, bons achados; caso da passagem em que o sujeito indeciso e inseguro ilumina-se e consegue vislumbrar alguma nitidez no que se passa. “É difícil imaginar-se sozinho sem estar só”, constata. Isto, apesar da recorrência ao clichê, exemplificado na eleição do oceano como elemento de evasão e contraponto à desestrutura do personagem.
Os clichês fazem-se presentes também quando o narrador cede o verbo ao personagem. A frágil e rarefeita relação entre o drama pessoal e o panorama social sustenta-se em desgastadas expressões. “A corrupção permeia a sociedade”, “Está indignado com a situação dos transportes públicos” são algumas das frases. Afeitas ao discurso político, nem por isso transformam a novela de Valença em literatura política. Soam, sim, panfletárias. E desnecessárias, porque, como o personagem percebe ao final da história, inspirado numa canção do Chico, ainda que difícil, a dissolução da crise que o domina é um amanhecer essencialmente seu, e não do país inteiro.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *