O livro de Zenóbia

Romance? Diário? Ou bela colcha de retalhos?

Zenóbia gosta de flores e plantas de raízes drásticas, de peixes perplexos, receitas criativas, cidades raras, palavras inventadas. Zenóbia tem filhos e se lembra dos que nem nasceram. Adora suas tias, amigas, ex-namorados – um deles, Belmiro, “queria todas as dores que não sentia para sobre elas escrever poemas tristes” Em companhia da mãe, Zenóbia plana em vôos implícitos, dividindo duas “quase-solidões”. Mas a fascinante personagem criada pela poeta e ensaísta Maria Esther Maciel não se dá a conhecer no todo; apenas por meio de anotações, aforismos, pequenos comentários, listas pessoais. Como definir O livro de Zenóbia? Diário? Caderno de registros? Álbum de família? Conjunto de recortes? Tarefa vã. Melhor sorvê-lo.
A narrativa elaborada por Maria Esther Maciel não se inscreve no convencional dispositivo da representação, não anseia por verossimilhança, como destaca Lúcia Castello Branco no posfácio. Insere-se, sim, na perspectiva do romance pós-moderno, com suas ramificações, sua não-linearidade, suas micro-abordagens, sua fluidez permanente, seus jogos de montar, expedientes que vêm sendo trabalhados com maior ou menor talento por relevante parcela do que se pode denominar hoje de “nova literatura brasileira”.
“Oblíqua”, como quis Clarice Lispector, é a vida de Zenóbia, esta filha de Zeus e da memória, cujos rabiscos marcam o “desencontro leve entre as coisas (…) e entre seres que se perdem uns aos outros, entre palavras que quase não dizem mais nada”. Assim como em Água viva, romance citado na epígrafe, esse “leve desencontro” é, para ela, “a única forma de suportar a vida em cheio”.
A escritura de Clarice, aliás, permeia toda a obra, que contém ecos também de autores como Manoel de Barros e Italo Calvino – este, principalmente se lembramos da estrutura de As cidades invisíveis. Pois O livro de Zenóbia (novela? romance? coletânea de contos?) assemelha-se a uma colcha de retalhos urdida por partos e mortes sucessivas, aromas e súbitas iluminações, flores e pessoas, a quem observa e com quem convive no decorrer de toda a existência, e que no livro ganham uma segunda voz, a da narradora. É esta quem, por vezes, confessa que a obsessiva busca pela “palavra” capaz de exprimir torna-se infrutífera: “Era para ter aprendido que a imperfeição é nossa porção de paraíso possível e que há sempre um poema que não chega à palavra, por mais que delire”, sublinha em certa passagem. A “palavra” que aqui falta é capaz, contudo, de ajudar a purgar o horror da imagem do corpo já decomposto do pai. “Não, ela não deseja dizer que aquele que ora foi um corpo agora é um cadáver que já não se dá a ver senão com palavra”, e então escreve metáforas “para velar a realidade das larvas, os reveses das vísceras e das cartilagens. Falsas paisagens da alma, do nada inumerável”.
A paixão pela “palavra” não se refere meramente ao aspecto poético que esta possa encerrar. Longe disso. Zenóbia interessa-se por plantas de “climas ríspidos” e nomes científicos – Alpinia sesilis, Ascanea sativa, Rosa canina -, as quais cultiva. As belas ilustrações de Elvira Vigna, baseadas em desenhos de plantas americanas feitos por botânicos ingleses do século XVII, captam bem o traço exótico que o olhar deles lhes dispensou. E espelham um estranhamento que é também de Zenóbia. Ela se vê atraída pelo “esquisito”, pelo difícil”, assinala a narradora. Seu gato, por exemplo, chamava-se Finnicius. Os (inusuais?) apreços da personagem aparecem listados no fim do livro, ao lado de seus contos, de suas cidades preferidas e de seus livros de cabeceira – entre eles, não por acaso, três de Clarice: A paixão segundo G.H., Laços de família e o já citado Água viva. Também estão no romance suas receitas culinárias – salada de melancia com hortelã e queijo de cabra, sopa de cenoura com maçã ao açafrão, pamonha com erva-doce -, listas de temperos, ervas de cheiro e aves raras, notas biográficas sobre a protagonista e até mesmo uma breve fortuna crítica a respeito do próprio livro.
Foi com as aves migratórias, aliás, que Zenóbia aprendeu a “inventar seu espaço” particular. Se espaço não há, ela o imagina; assim como se não há palavra, ela a cria, sempre liricamente. Pois “é a lírica, e não a crônica, que define seu pacto com a vida e o sonho” – substantivos cuja fronteiras no livro mostram-se quase invisíveis -, embora o “trágico constitua seu pathos, seu idioma subterrâneo”. “Não é na dor que reluz o mundano?”, indaga a narradora. Talvez, sim. E possivelmente dela Zenóbia retire sua delicadeza tão pouco óbvia, crendo firme e serenamente, como intuiu no funeral de um amigo, que “toda perda oculta uma controversa beleza”.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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