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Balzac e a costureirinha chinesa

Balzac e a costureirinha chinesa

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Em “A insustentável leveza do ser”, o escritor Milan Kundera revela, com certa amargura, a existência de laços estreitos entre o nosso “inelutável peso de viver” e as formas de opressão em geral. O peso da vida, sublinha Calvino ao comentar o livro do theco em suas “Seis propostas para o próximo milênio”, habita “a intrincada rede de constrições públicas e privadas que acaba por aprisionar cada existência em suas malhas cada vez mais cerradas”. Um romance sobre as aventuras de dois estudantes às voltas com o processo de ‘reeducação’ proposto pela Revolução Cultural na China dos anos 60 poderia espelhar este “peso”. Não é o que ocorre, contudo, com “Balzac e a costureirinha chinesa”, de Daí Sijie, autor alçado de mero desconhecido a best-seller na França em apenas duas semanas. A história das dificuldades de dois jovens sob a égide do projeto maoísta, contada no livro, em nenhum momento soa como libelo panfletário contra o totalitarismo. Ao contrário, é narrada com sabor, delicadeza e algum humor.
A obra, que sai no Brasil pela Editora Objetiva, foi lançada de maneira discreta, mas se transformou em um verdadeiro fenômeno literário, e não só em termos comerciais: a indicação ao Goncourt, mais importante prêmio da literatura francesa, comprova a aprovação da crítica. Acompanhando a trajetória dos rapazes da cidade – o narrador (18 anos) e o amigo Luo (17) – em seu exílio nas montanhas distantes, o texto de Sijie espelha, no microcosmo da aldeia, as conseqüências da política que fechou as universidades e atingiu diretamente a burguesia intelectual chinesa, cujos filhos foram enviados aos campos para aprender a ‘exemplar’ vida do proletariado. A diretriz seguia um dos ditados prediletos de Mao, destacado por Jung Chang em “Cisnes selvagens”, livro que acompanha a saga de três gerações durante a história do país. Dizia o Grande Timoneiro que “os camponeses têm mãos sujas e pés sujos de bosta de vaca, mas são muito mais limpos que os intelectuais”. A exemplo da escritora, Sijie, que mora na Europa há 15 anos e atua também como diretor de cinema, viveu ele próprio os dissabores da ‘reeducação’. A experiência com a Sétima Arte, aliás, transparece em sua narrativa, repleta de imagens fortes, que em breve chegarão às telas: o autor já anunciou que pretende transformar em longa-metragem as agruras dos garotos chineses.
“Balzac e a costureirinha chinesa” centra foco no choque que o “cheiro de civilização” dos jovens urbanos provocou nos camponeses. Explicita também os preconceitos que, gerados no ventre da ignorância, colocam em alguns momentos os rapazes em situações difíceis, sempre resolvidas graças a muita sagacidade. A seqüência da chegada no campo, por exemplo, é emblemática. Desconfiados quanto ao violino que um dos dois carrega, os aldeões anunciam que irão queimar o instrumento, classificado pelo chefe local como um “brinquedo burguês”. Luo propõe então que o narrador toque uma sonata de Mozart, cuja execução evidentemente era proibida pela Revolução. A esperteza do narrador o livra da aflição. Indagado sobre o título da música, ele de imediato responde: “Mozart pensa no presidente Mao”. É o suficiente para que a censura dê lugar a aplausos, e antecipe o tanto de astúcia necessário para garantir a sobrevivência nas montanhas.
Luo e o narrador têm colado em si o estigma de filhos de pais burgueses. São obrigados a realizar pesadas tarefas, como carregar nas costas baldes cheios de adubo, inclusive humano, ou enfrentar os pesados cestos de antracito em uma mina de carvão. Mas os rapazes por vezes conseguem escapar do trabalho, devido ao talento de Luo para reproduzir aos aldeões as histórias de filmes que conhecia. Enfeitiçado pelo poder narrativo do jovem, o chefe dos camponeses determina que ele estará presente às eventuais sessões do cinema da cidade mais próxima, a fim de assistir às produções oficiais e repassá-las à aldeia. Trata-se do indício primevo da grande questão proposta pelo romance de Sijie.
Uma questão que se explicitará com o giro radical na vida dos jovens, representado pela descoberta de uma valise que contém inestimável tesouro: livros de Flaubert, Baudelaire, Dostoievski, Dickens, Dumas; em resumo, boa parte dos cânones literários do Ocidente. De início, eles envolvem-se com “Úrsula Mirouët”, de Balzac, que abrirá seus horizontes para além da fogueira inquisitória de Mao – onde, como a música, ardeu também toda a literatura ocidental, expurgada do país sob a pecha de decadente, apesar da sobrevida no mercado negro. No esteio do fascínio com as tramas de mistério, amor e desejo dos autores recém-descobertos, brota uma formidável sensação de autonomia, que os jovens comungam com os montanheses, principalmente com a Costureirinha, a filha de um alfaiate que atende aos habitantes de todas as aldeias da região e imediatamente capta as atenções dos rapazes por sua beleza. Desenha-se então uma marca indelével: o olhar em direção ao mundo se modifica, alterando também o comportamento de todos os que, de alguma forma, se vêem tocados pela literatura emanada da valise. Serão irremediavelmente diferentes as futuras páginas de suas vidas. De algum modo, a literatura os protege, forma um cerco a preservar a consciência individual, metaforizado pelo casaco do jovem narrador, no qual ele, temeroso em perder o contato com o romance, reproduz, linha por linha, o “Úrsula Mirouët” sobre o forro de pele de carneiro.
Ao embarcar nessa nova viagem do imaginário, os garotos encontram a “vivacidade” que, citando mais uma vez Calvino, pode nos fazer escapar à condenação do “peso” da vida. Curioso constatar que a grande Revolução comportou em seus escaninhos também pequeninas revoluções individuais, como estas que o livro de Sijie menciona, com a mesma leveza das histórias que fascinaram os jovens, funcionando como um escape possível para que, embora condenados inexoravelmente à opressão, lhes fosse possível vislumbrar alguma forma de liberdade.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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