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25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira

Literatura de saias

O conceito de “literatura feminina” é aceito e repudiado talvez em iguais partes por suas agentes naturais: as escritoras. Durante a recente Festa Literária Internacional de Parati (Flip), por exemplo, as componentes da mesa Vozes femininas – Rosa Montero, Isabel Fonseca e Adriana Lisboa – foram unânimes em rejeitar o rótulo. Em contrapartida, há autoras e, principalmente, ensaístas, como Helena Parente Cunha, que sustentam na identificação de elementos compartilhados a defesa da qualificação, indicando como principal traço comum a “busca de uma personalidade autônoma”. Organizador da coletânea “25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira”, (Editora Record), Luiz Ruffato sabiamente preferiu driblar a polêmica, privilegiando de forma pura e simples o mapeamento sobre nomes que começaram a conquistar algum destaque no país nos últimos 20 anos.
Já na orelha do livro, a professora Regina Dalcastagnè observa que a seleta de Ruffato mira para além da questão de gênero. Partindo do pressuposto de que não há uma “literatura masculina”, Dalcastagnè argumenta que relegar a obra das autoras a qualquer escaninho conceitual seria marcá-las com uma “posição subalterna, menos legítima”. Portanto, a relevância do trabalho de Ruffato está em fazer um recorte preciso sobre os novos nomes de nossa cena literária, expondo suas escrituras, independentemente de mérito. Isto, quem decide é o leitor.
Antes de se iniciarem os contos propriamente ditos, o organizador do livro assina uma bem fundamentada apresentação, em que analisa sob perspectiva histórica o surgimento de escritoras no país, insinuando-se pouco a pouco num reino eminentemente masculino. No estudo, Ruffato ressalta o papel de Júlia Lopes de Almeida, precursora ao conquistar espaço na primeira antologia brasileira de contos, que circulou em 1922. Júlia despontava entre 35 homens.
Em seguida, acompanha progressivamente uma tradição que viria a se fundamentar, fulgurando em plenitude a partir da década de 30, com o sucesso de Rachel de Queiroz e, posteriormente, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Zélia Gattai e Lya Luft, entre tantas outras que pavimentaram a estrada na qual caminham hoje as 25 autoras do volume que chega às livrarias.
Como sói acontecer em compilações de múltiplos escritores, o livro aduz grande diversidade estilística e certa irregularidade, embora sob o aspecto temático os textos apresentem alguma proximidade. Aí, sim, com a presença de tópicos afeitos ao gênero feminino – a gravidez, a perda do filho -, ao lado de outros, mais universais – relações amorosas, de amizade, idiossincrasias familiares…
Com acento pop, fragmentado e evidente influência da internet, despontam Clarah Averbuck (“Psycho”, cuja prosa insípida confirma o equívoco de ter extrapolado os limites do blog), Luci Coll (“No céu, com diamantes”, com hipertextos, referências à publicidade e ao cinema), Simone Campos (“Bondade”) e Ana Paula Maia – em “Nós, os excêntricos idiotas”, a narradora imaginada por ela chega a subscrever outro ponto característico dessa novíssima geração, ao admitir: “Só escrevo em primeira pessoa. Não sai nada se eu imaginar um personagem; ele não me diz coisa alguma”.
Optam por uma dicção, digamos, mais clássica, Fernanda Benevides de Carvalho (“Pão físico”), Cecília Costa (“O sétimo mês”, belo conto algo prejudicado pelo excesso de referências), Livia Garcia-Roza (“Minha flor”), Guiomar de Grammont (“Glória”, que estabelece interessante reflexão sobre o processo literário), Claudia Laje (“Uma alegria”), Tércia Montenegro (“D.T.”, o único a tocar em questões sociais), Adriana Lisboa (“Caligrafias”), Cíntia Moscovich (“Um oco e um vazio), Nilza Resende (“Por acaso”), Heloísa Seixas (“Madrugada”), Rosa Amanda Strausz (“A um passo”), Ivana Arruda Leite (“Mãe, o cacete”), Claudia Tajes (“Flor roxa”), Paloma Vidal (“Mundos paralelos”) e Leticia Wierzchowski (“O morro da chuva e da bruma”).
Infelizmente, nem mesmo os textos das autoras já referendadas por público e crítica estão à altura de suas obras. Distinguem-se as experimentações de Mara Coradello em “Silver tape”, as poderosas imagens de Augusta Faro em “Gertrudes e seu homem”, e a inventividade de Índigo ao reviver o pacto de Fausto em “Drinque com uma azeitona dentro”, criando um demônio beberrão que tenta a narradora durante prosaico exame colegial. Também o conto “Um elefante”, de Állex Leila, que explora a fixação platônica de um rapaz por jovem praticamente desconhecida e dialoga com verso da canção “Congênito”, de Luís Melodia: “O tudo que se vê não representa tudo”.
Em meio aos 25 textos, dois merecem especial atenção. “Considerações sobre o tempo”, de Adriana Lunardi, cuja qualidade se anuncia já no impactante parágrafo de abertura, em que a escritora reflete sobre o drama de só podermos avaliar a real importância das coisas a posteriori, nos desvãos da memória, quando “já instaladas no campo linear de nossas biografias”. A premissa, no decorrer da narrativa, permeia a lógica interna do conto, que se ampara no sentimento de solidão mais absoluto que o homem pode conhecer.
Uma história de perda também dispensa vigor a “Desalento”, da jovem Tatiana Salem Levy. Trata-se do lancinante relato da dor inexpugnável de uma mãe diante da morte do filho ainda pequeno. É nada menos do que brilhante o enfoque sobre as reações da protagonista quando o caixão do menino desce à terra, pontuado por seguidas expressões “Não!”, sempre entre parênteses, como se soluços fossem. Tatiana nos faculta um daqueles momentos em que literatura alcança seus pontos ótimos; rara ocasião na qual podemos chamá-la, sim, na essência, de “feminina”. Porque apesar de criarmos metáforas intensas – e o “revés de um parto” de Chico Buarque decerto é uma delas -, nós, homens, nunca teremos como experimentar tal desespero.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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