Contos de Pedro

Pedros que não mais esperam: sobrevivem

Pedro pedreiro penseiro fica esperando, esperando, esperando e o tempo passa. Na célebre aliteração dos versos de Chico Buarque, apesar do sol que não vem, do trem que não chega, do aumento sempre adiado, ele ainda acredita. Há também um Pedro pedreiro entre os muitos imaginados por Rubens Figueiredo no livro Contos de Pedro. Mas este, a exemplo dos protagonistas de oito das nove narrativas que compõem o volume recém-lançado pela Companhia das Letras, não tem mais expectativas. Simplesmente toca adiante, à margem das utopias, cobrindo as próprias feridas com a resignação dos que se sabem vencidos desde o berço.
Além de pedreiros, os Pedros de Rubens são porteiros, ajudantes de cozinha, entregadores de empada, garimpeiros que equilibram seus dias entre o emprego e o claustrofóbico confinamento em casebres cercados de mangue, lixo, puxadinhos, rebocos, esgoto, cortumes, fossas e balas perdidas. Mesmo quando incorporados à classe média – há um Pedro professor e outro que goza de boa aposentadoria – vêem-se cercados por indivíduos sem eira, nem beira, em geral migrantes solitários e desamparados, cujos contornos remetem aos “merdunchos” sobre os quais falava João Antônio.
A exclusão, contudo, não ganha de Rubens o tratamento naturalista que é marca do estilo de boa parte dos escritores de sua geração. No novo livro, o autor confirma a virada que se esboça em sua obra a partir da seleta de contos As palavras secretas (1999) e que foi sedimentada no excepcional romance Barco a seco (2001), ambos laureados com o Prêmio Jabuti. O flerte com o humor – traço de trabalhos anteriores como O mistério da samambaia bailarina (1986) e Essa maldita farinha (1987) – deu lugar a um lirismo cuja seiva escorre da secura, da precisão. Matriz emocional de seus textos, a metáfora irrompe na aridez da narrativa com a força de uma miragem no deserto.
Na maioria das vezes, as imagens poéticas surgem “dentro” dos personagens, configurando um contraste entre o cotidiano exterior cinzento e a cores quentes que jazem, ao menos em potencial, no interior de cada um deles. Desta forma, a aparente pasmaceira do ato do zelador que protagoniza O dente de ouro, abrindo e fechando portas, pode levá-lo à presunção de ser “uma alavanca, um eixo em que o mundo se apoiava para girar, a mola para o incessante ir e vir das pessoas”. De igual modo, o Pedro de O nome que falta enxerga nos objetos catados no lixo – o caco de um cinzeiro, o pedaço da bola de natal – brilhos e luzes inusitados, que engendram um universo particular em meio ao “inferno dos vivos”. Dentro do inferno, o que não é inferno, como queria Calvino.
São “faíscas de ouro” que trincam a reta horizontal do dia-a-dia, ainda que só por um instante. Quase sempre é preciso em seguida voltar à “normalidade”, conforme sugere o narrador desse mesmo conto, ao lançar um olhar lânguido sobre a crescente banalização da violência: “Por mais que a palavra ‘baleado, baleado’ tropeçasse entre os soluços enquanto a mulher subia, às vezes descalça, os três degraus da porta da frente do ônibus, e ainda que só uns quinhentos metros adiante o gemido ‘covardia’ conseguisse romper dos olhos vermelhos, (…) Pedro achava que as outras pessoas, as pessoas em geral, mal tinham tempo de provar o peso de um crime. Mal conseguiam deter a atenção e, bem ou mal, educar-se com aquilo. Eram logo empurradas de roldão na correria desarvorada para os ônibus, para o trabalho, para o sono, para o fogão, para o baralho, para um lugar na fila, para os copos de cerveja, na correria para segurar as crianças (…), as pessoas eram logo empurradas no atropelo para o que houvesse, para o que chamasse por elas, antes do baleado seguinte”.
Esse “empurrão” é similar ao que move um promissor escritor, no corrosivo A última palavra, a optar pela estabilidade do emprego público em detrimento da literatura, e o homem de meia-idade de Céu negro a abortar qualquer laço afetivo, mantendo-se alheio inclusive ao “acidente” de ter feito um filho. Leva ainda o adolescente Pedro, em De forno a forno, a encarar as feridas e a conseqüente morte dos mendigos que pedem esmola nas ruas por onde trafega como “algo que já estava latente desde sempre na ordem alfabética e na classificação numérica dos arquivos e das estantes”.
É entre tantos Pedros, tão iguais e tão distintos, que Rubens faz resplandecer o Pedro de nossa época. Aquele que, se não pode dar conta do mundo, constrói mundos próprios, estilhaçados e velados, dentro de si; aquele que, desde o nome, é pedra dura de quebrar. Pedro que já não espera: sobrevive.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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