A invenção de Morel

As peripécias de Bioy Casares

Fantasmagórica e opressiva, a sombra de Jorge Luis Borges projeta-se invariavelmente sobre a obra de seu conterrâneo Adolfo Bioy Casares. Apesar das patentes diferenças estilísticas, o fato de ambos enveredarem pelos labirintos da narrativa policial, a parceria em insuspeitos anúncios publicitários e seis livros e, sobretudo, a amizade que os uniu durante 54 anos acabaram suscitando comparações e carimbando no trabalho de Casares uma suposta “inferioridade” com relação ao do mais famoso escritor portenho. Tal impressão infelizmente ajudou a eclipsar, pelo menos fora das fronteiras argentinas, pequenas delícias literárias como Histórias de amor e Plano de evasão, e uma obra-prima inequívoca: a novela A invenção de Morel, que acaba de ser relançada no Brasil pela Cosac Naify.
Embalado com o costumaz capricho gráfico da Cosac, o novo volume acresce uma cuidadosa análise de Otto Maria Carpeaux (veiculada originalmente em 1966) ao célebre prólogo de Borges para a primeira edição, de 1940. Borges, a quem o livro é dedicado, salienta que o texto escrito por Casares na flor de seus 26 anos representa um contraponto prático às teorias que advogavam, na época, a supremacia dos chamados “romances sem argumento” (ou psicológicos) sobre os “romances de peripécias”. Sim, porque é neste escaninho conceitual que se inscreve A invenção de Morel.
Essencialmente fantástica, a novela tem uma estrutura simples. É a trama o elemento precípuo e, assim como em outros livros de Casares, a narrativa não se presta a afetações ou malabarismos formais: serve apenas à história do fugitivo da Justiça que se esconde numa ilha deserta do Pacífico onde há suspeitas de uma epidemia letal. Sob a forma de um diário, coalhado pelas notas de um presumido editor, o protagonista sustenta seu relato em parcas alusões ao passado e no registro da luta por sobrevivência na ilha, pasmaceira que é quebrada quando encontra um improvável grupo de veranistas. Entre eles, Faustine, a jovem que ao final de cada tarde contempla o crepúsculo e por quem se apaixonará profundamente.
Na ânsia de se aproximar dela e ao mesmo tempo manter-se invisível aos olhos dos outros – já que no fundo era um fugitivo -, ele sofre com paranóias persecutórias e com o alheamento ante a visão da misteriosa mulher. No entanto, consegue com a devida cautela imiscuir-se progressivamente no grupo, até enfim reparar que eles não podem enxergá-lo. A perturbação se intensifica e é destilada em especulações: estaria sofrendo alucinações decorrentes da peste que amaldiçoou a ilha? Seriam os turistas entes de outra essência, para além do homem? Ou simplesmente teriam todos morrido?
O enigma se desfaz à medida que percebe – de início através de sinais sutis e mais tarde flagrando um importante diálogo – a aterradora verdade. Faustine e todos os veranistas que a cercam são apenas projeções, imagens gravadas num aparelho concebido por Morel, o líder do grupo. Também tomado de paixão pela moça, que o desprezava, ele conseguira apreender ainda que no campo esfera virtual a eternidade de sua companhia, de resto impossível na esfera da realidade sensível.
A máquina é o pacto de Morel – corruptela do Moreau da ilha fictícia de H.G. Wells – com esse Fausto encenado por Faustine, que lhe deu o sortilégio do amor mas lhe tomou a vida, pois aqueles que foram filmados pelo inventor arcaram com o preço dos efeitos radioativos de seu notável porém precário equipamento. O protagonista então compreende que desde a chegada à ilha encontrara-se diante de um espelho que amalgama real e simulacro, como demonstra a passagem na qual reencontra um livro anteriormente folheado: “Ao passar pela sala, vi o fantasma do tratado de Berlidor que levara comigo quinze dias antes; estava no mesmo suporte de mármore verde, no mesmo lugar do suporte de mármore verde. Apalpei os bolsos: puxei o livro; comparei-os: não eram dois exemplares do mesmo livro, mas duas vezes o mesmo exemplar, com a tinta azul-celeste borrada, envolvendo como uma nuvem a palavra Perse; com o rasgo oblíquo no canto de baixo do lado de fora.” Um “duplo”, portanto, que se manifesta também na convivência entre um tempo absoluto (o da máquina de Morel) e um tempo relativo (o da natureza), permanentemente tensionados, ou na simultaneidade revelada nos dois sóis e nas duas luas que resplandecem em certos momentos no céu da ilha.
A descoberta do aparato e, conseqüentemente, da origem daquelas coisas e pessoas que o rodeiam, leva o fugitivo a imaginar os efeitos revolucionários do projeto de Morel: “Quando intelectos menos toscos se ocuparem de sua invenção, o homem escolherá um lugar apartado, agradável, reunirá as pessoas mais caras e pendurará num íntimo paraíso. Um mesmo jardim, caso as cenas a perdurar sejam gravadas em momentos distintos, alojará inumeráveis paraísos, cujas sociedades, ignorando-se entre si, funcionarão simultaneamente, sem colisões, quase nos mesmos lugares.”
Esse paraíso, que pode parecer “atroz ao espectador”, é satisfatório para seus protagonistas, ele pondera. Está convicto de que não tem para onde escapar, que seu futuro é a acachapante solidão na infinita e terrível contemplação de Faustine, por quem o fascínio perdura. Encurralado pela falta de perspectivas, decide então se submeter à máquina. Durante alguns poucos dias capta a si mesmo, encaixa-se nas cenas já gravadas, ajustando suas frases às da moça, e opera a troca dos discos responsáveis pela projeção. Transforma-se, como os demais, em imagem pura, condenando-se a viver o mais do mesmo de uma trajetória circular. E assim, no eterno retorno que aniquila o futuro em nome de uma existência previamente filtrada, mergulhado na inconsciência que exclui a chaga da dor mas também a efusão do gozo, perde a condição humana.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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