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Logo tu repousarás também / Quem faz gemer a terra...

Logo tu repousarás também / Quem faz gemer a terra

Literatura que brilha mas subumbe às grades invisíveis do panfletarismo

O gaúcho Charles Kiefer é exemplo clássico de um fenômeno literário típico dos pampas. Autor de 27 livros, que chegaram a respeitáveis 300 mil exemplares vendidos, e laureado com dois Jabutis, entre outros prêmios importantes, ele permanece praticamente desconhecido no resto do país. Tal quadro decerto começará a mudar a partir de agora. De contrato recém-assinado com a Record, Kiefer terá relançada toda a sua obra em plano nacional, incluindo incursões pelas searas da prosa, da poesia e do ensaio. “Logo tu repousarás também” e “Quem faz gemer a terra”, os dois títulos inaugurais da fornada, acabam de chegar às livrarias.
O primeiro trabalho é uma seleta com 14 contos inéditos, que confirmam a opção do escritor por uma narrativa realista e de cunho social. Em alguns momentos, como nos ótimos “Medo” e “O boneco de neve”, Kiefer consegue penetrar com sutileza naqueles misteriosos sulcos dramáticos que se escondem por detrás dos fatos cotidianos. Uma prosaica corrida de táxi pode, então, conduzir aos traumas mais agudos de um torturador, e uma brincadeira aparentemente inocente entre garotos, resultar em morte.
Quando flerta com o fantástico, caso de “O terceiro cão”, o resultado é igualmente satisfatório, embora as referências à própria literatura — através de personagens emblemáticos como o flanêur ou de poetas como Drummond — sejam, além de demasiadas, desnecessárias. Essas alusões, que evidenciam um incômodo conflito entre seus ofícios de professor de letras e autor, aparecem também no pretensamente borgiano “Rosa rosarum”. Estruturada sob a forma de um ensaio, inclusive com as tradicionais notas de rodapé, a trama centra-se na investigação do próprio Kiefer sobre as origens de “A biblioteca de Babel”, célebre conto do escritor argentino.
O grande senão do livro, contudo, é a luz desconfortável — porque exageradamente intensa — que o autor acende naquela zona de penumbra que deve pairar sobre a narrativa ficcional. Mesmo o realismo necessita desse espaço negociável entre o texto e o leitor, sob pena de sucumbir ao meramente discursivo — como ocorre, só para citarmos um exemplo, no engajado “Insônia”.
Já evidente na seleta de contos, tal traço se explicita ainda mais em “Quem faz gemer a terra”, novela publicada originalmente em 1991 e baseada no episódio verídico de um soldado morto em conflito com os sem-terra em Porto Alegre. A história é narrada sob o ponto de vista de Mateus, o camponês que assassinou o policial. Como se prestasse um depoimento, o protagonista faz uma retrospectiva da própria vida, desde a infância até o ingresso no assentamento e o posterior crime. É que “contar clareia”, como observa ele.
Kiefer brilha ao desenhar, com criativas metáforas, as recordações mais remotas de Mateus, referentes ao tempo em que ainda defrontava-se com as dúvidas e descobertas de criança. Coalhadas por imagens poéticas, as reminiscências abarcam a companhia da deliciosa figura do avô, que dormia num caixão a fim de aguardar pela morte devidamente preparado. São personagens que remetem ao lirismo do moçambicano Mia Couto, configurando uma espécie de poética da infância, povoada por cheiros, cores e sensações que, uma vez experimentados, a memória preserva para sempre.
Assim como nos contos, Kiefer imprime ritmo perfeito à narrativa, que flui sem solavancos. Mas à medida que avança, a novela vai perdendo matizes, até chegar ao puramente maniqueísta quando a questão social enfim se exacerba. Então o ideológico — ainda que supostamente meritório — se sobrepõe ao literário, e o viés político torna-se direto, como demonstra a passagem em que o protagonista, indignado com a repercussão dos atos dos sem-terra, indaga: “Agora, querem fazer da foice o símbolo da nossa violência. Me diga, não é violência o que passam os velhos doentes, as crianças e as mulheres nos acampamentos?”.
Persuasivo em essência, esse jogo sem meio-termos que define mocinhos e bandidos espreme a ficção em sentenças categóricas, parecendo esquecer que mesmo a narrativa realista é uma “reescritura” do real. Como se fosse necessário oferecer ao leitor um prato-feito repleto de respostas, achata o campo da dúvida e confunde a perspectiva humanista — que viceja na obra de escritores como Albert Camus e Graciliano Ramos — com dicotomias redutoras. Nessa operação, a literatura de Kiefer acaba refém de sua própria ânsia: ao se querer livre e crítica, sucumbe no fim das contas às grades invisíveis do panfletarismo.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


  1. Charles Kiefer

    30 abril

    Caro Moutinho,
    a primeira edição de meu livro saiu em 1991, no RS. Por esta época, eu não conhecia a obra de Mia Couto. Nem sei se ela já era editada no Brasil.
    Abraço,
    CK

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