Longe da água

Angústias e desejos que flutuam sobre a àgua

Três temas dominantes – fonte de vitalidade, meio de purificação e centro de regenerescência – encerram as clássicas significações simbólicas da água. Quando se trata especificamente do “mar”, seu constante movimento confere à metáfora contornos mais ambíguos, que apontam para a flutuação de sentimentos e desejos de nossa existência. Neste estado transitório entre possibilidades e realidades configuradas movem-se os três principais personagens de Longe da água, recém-lançado romance de Michel Laub.
Conduzido por um protagonista anônimo, o enredo concentra-se na lembrança de sua convivência com Jaime e Laura quando os três, ainda adolescentes, seguiam de Porto Alegre para o litoral nas férias de verão. O envolvimento do desinibido e conquistador Jaime com a garota, sob os olhares dúbios e tímidos do amigo, anuncia o triângulo amoroso que será tragicamente interrompido, e cujas conseqüências ao longo do romance moverão as idas e vindas (geográficas e temporais) do narrador, hoje um bem-sucedido e balzaquiano editor de livros em São Paulo.
Resumida assim, a trama poderia denotar um simplismo capaz de afastar leitores mais exigentes. Porém, como o autor nos adverte logo na primeira frase, “nada pode ser tão banal” e “não é bem disso que estamos falando”. Pois embora concentre-se em tão (aparentemente) frágil argumento, Laub demonstra tamanho domínio da tessitura literária que, além de revesti-la de uma delicadeza que exprime o estado interior do narrador, consegue espelhar a abissal culpa que carregará a partir daquela temporada de verão na praia. A cada retorno ao episódio que demarcou para sempre as trajetórias dos três, novas luzes são acrescidas. Tal mecanismo realça a tentativa de esmiuçar o passado atrás de um sentido moral, e torna o leitor solidário dessa busca, o que é sugerido num desabafo do personagem: “O que as pessoas não entendem é que você não pode revelar o que elas realmente gostariam de saber”.
As quatro partes em que Laub divide o romance – “Longe”, “Água”, “Mais longe” e “Mais água” – refletem as sucessivas aproximações e distanciamentos entre o protagonista e aquela que constitui a alegoria central da história, e que tanto ele quanto Jaime tentaram na juventude dominar: como surfistas, o desafio de ambos era manter-se de pé, logrando algum “controle” sobre as ondas. Era um tempo de “estréias”: “Não há ninguém que escape disso, sempre há uma primeira vez, o dia em que a sua vida toma rumos inesperados por causa de outra pessoa, (…) em que se toma um caminho sem volta, mesmo que seja o caminho torto, no qual a amizade se transforma em desconforto, e a admiração se transforma em inveja, e o resto do que esta dentro de você se transforma em rancor e em ódio e em vingança”.
Ainda que encare com algum ceticismo o presente – eivado de uma “estabilidade” claudicante -, ao debruçar-se sobre a adolescência o narrador não chega a resvalar na nostalgia. Mostra-se, ao contrário, pleno de tormento. Até porque naquele cenário deram-se duas referências essenciais – o beijo fundado numa traição e a morte -, que viriam a perdurar pelos anos subseqüentes. Ele mesmo o ressalta: “Sempre me causaram espécie os marcos idílicos que se imiscuem nas lembranças, o parâmetro a ser homenageado pelo resto dos dias, o metro de pureza em comparação com qualquer cenário posterior. Comigo nunca seria assim: a angústia que eu sentia por continuar pensando em Laura e em Jaime, por continuar remontando ao dia em que ele morreu e o dia em que a beijei, porque esses foram os verdadeiros dias, (…) não apontava para nenhuma forma de homenagem”. Afinal, o passado continua dentre dele, “não há como se livrar”, e malgrado a conquista da serenidade, nem mesmo quando é “homem pronto e completo” e a vida, como vaticinou Paulo Henriques Brito, tão-só um “caldo morno”, parece suscetível de se dissipar.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


  1. Suzy

    11 outubro

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