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Jota Efegê (quatro livros)

Jota Efegê (quatro livros)

O Rio vivido e escrito com amor por Jota Efegê

Mulato, carioca e torcedor do Madureira – “talvez o único”, provocava o amigo Drummond -, João Ferreira Gomes cumpriu durante quase seis décadas um ritual rígido. Toda manhã saía de casa rumo à Biblioteca Nacional, onde, debruçado sobre antigos periódicos, buscava notícias que fizessem por merecer uma segunda chance em suas crônicas. A Jota Efegê interessavam as informações de canto de página, não as manchetes. E foi com esse lastro aparentemente ordinário que ele resenhou os modos e costumes da cidade onde viveu e que amou de forma intensa: o Rio de Janeiro. Ou, em sua carinhosa alcunha, a “Sebastianópolis”.
Embora pesquisador rigoroso, Efegê nunca se limitou ao papel acomodado do memorialista de gabinete. Pelo contrário: aprazia-lhe a alma encantadora das ruas, que começou a conhecer ainda pequeno por influência da avó, responsável por sua criação. Tia Leandra levou-o aos candomblés da Saúde e da Gamboa, à festa da Penha, aos pequenos ranchos do subúrbio. Quando se tornou jornalista, as andanças pelo centro, por morros, terreiros, bordéis, gafieiras, teatros e botecos já haviam sido irremediavelmente inscritas no rol de seus afetos mais particulares.
A força dos textos de Efegê parece nascer justamente dessa articulação entre a investigação teórica e a experiência prática, como o leitor poderá notar nos livros que a Funarte reedita em celebração aos 30 anos do projeto Pixinguinha. “Meninos, eu vi”, “Figuras e coisas do carnaval” e os dois volumes de “Figuras e coisas da música popular brasileira” reúnem 525 crônicas veiculadas entre 1920 e 1980 em órgãos como O Globo, O Jornal, Correio da Manhã e Revista da Música Popular. O material foi preservado graças ao trabalho de sua viúva, Felisberta Pinto Correia, que fez a catalogação de tudo o que o autor publicou na imprensa ao longo de seus 85 anos.
“Meninos, eu vi” é uma compilação de pequenas (e deliciosas) histórias de um Rio que começava a ficar para trás. Uma das crônicas registra, por exemplo, o conflito ocorrido em 1907 entre duas bandas de música na “cidadezinha pacata” de Cabo Frio. Com os ânimos exaltados na disputa pela primazia local, os componentes da Sociedade Musical Lira Luso-Brasileira e da Euterpe Cabo-Friense partiram para a briga. “O instrumental serviu como armas de ataque e defesa”, observa Efegê no texto publicado quase 65 anos após a confusão.
O autor vale-se dessas prosaicas descobertas, garimpadas em velhos jornais, para radiografar as transformações sofridas pela cidade. Em crônica de 1973, veiculada neste mesmo O Globo, ele nos apresenta o harpista Paschoal, que se exibia na Leiteria Palmira. Fica claro, porém, que, mais do que desvelar o inusitado feito de o músico ter ministrado aulas de harpa à Princesa Isabel, Efegê quer comentar é o desaparecimento das “leiterias clássicas” e, por conseqüência, da “serenidade que reinava em seu ambiente, sem falatório atordoante, sem risadas estridentes”.
Nessas micro-abordagens à margem da grande História, o cronista nos traz personagens singularíssimos. Gente como Altamira Machado, jogador do Bonsucesso e do Botafogo, que mesmo num meio machista como o futebol era conhecido por um nome feminino: ‘Dona Júlia’. Ou Carlos Charlot, o vigarista que ganhou dinheiro passando-se por Carlitos nos teatros do Centro.
Essas figuras despontam ao lado de Careca, o folião que, abandonado pela mulher, purgou a mágoa fundando um bloco chamado “Foi ela que me deixou”, e Canarinho, primeiro repórter esportivo a efetivamente se aproximar do campo onde a bola corre. “Vendo de perto o que acontecia, ele veiculava pelo microfone, rápida e exatamente, a notícia: ‘Não, Ary. Não houve nada! O goleiro está fazendo cinema. Não houve contusão”, descreve Efegê. Ary, no caso, era o Barroso, que tinha duplo ofício: compositor e narrador.
Os livros revelam fatos curiosos. Descobrimos que Chico Anísio, na flor de seus 14 anos e muito antes da fama, foi notícia de jornal graças à conquista de um torneio de futebol de botão. Ou que, em 1937, o já célebre Cartola venceu um concurso entre sambistas. “Passada a euforia, ainda com o ruído dos aplausos nos ouvidos, ele se dirigiu à agência de penhores da Caixa Econômica, na Praça da Bandeira, e botou a bonita medalha no ‘prego’”, relata Efegê. Essa fina ironia insinua-se nas entrelinhas de boa parte dos textos, ainda que o tom geral seja de sobriedade, sem grandes vôos estilísticos.
No inventário do cronista, o olhar sobre a cidade privilegia duas de suas marcas: o samba e o carnaval. Os três livros dedicados à folia e à música brasileira figuram como referência obrigatória para estudiosos que se debruçaram sobre o assunto, Sérgio Cabral e Nei Lopes entre eles. Embora posterior a nomes como Luís Nunes da Silva (Enfiado) e Francisco Guimarães (Vagalume), Efegê fez parte do grupo de cronistas carnavalescos que praticamente inaugurou o gênero, servindo de ponte entre a sociedade letrada e os protagonistas dos festejos populares no processo de sedimentação do carnaval como símbolo de nossa nacionalidade.
Nas obras, ele relembra episódios emblemáticos, como o surgimento do tradicional Cordão da Bola Preta (1918) e a ação do Clube dos Tenentes do Diabo num evento posteriormente questionado por historiadores: em 1864, a entidade teria abdicado de desfilar e canalizado a verba dos carros alegóricos à compra de cartas de alforria de escravos negros. O autor conta também a origem do Rei Momo e sua ‘importação’ pelo carnaval do Rio, quando, por iniciativa do jornal A Noite, o personagem passou de boneco de papelão a “carne, gordura e alguns ossos”. Primeiro a encarnar o nobre balofo, o cronista de turfe Moraes Cardoso saiu pelas ruas com uma roupa emprestada pela produção da ópera O Rigoleto, em cartaz no Theatro Municipal naquele 1933.
As crônicas de Efegê deixam patente sua decepção com os rumos do carnaval. Ao tratar da chegada do confete “como o chique da festa” carioca, ele lamenta que 70 anos depois “os arremessos que antes se faziam fartos” sejam parcos e caiam sobre os alvejados “como chuvinha miúda”. Com relação às escolas de samba, a crítica é ainda mais dura. Algumas das ponderações parecem ter sido escritas hoje. “Buscando cenógrafos eruditos, coreógrafos cultos, músicos e executantes que lêem nas cinco linhas de pauta, [as agremiações] truncam a essência folclórica própria e tornam-se esplendorosos ‘shows’ bem dirigidos”, observa o cronista. O texto é de 1964.
Essa defesa da ‘pureza’ e da fidelidade do samba às suas origens ecoa nos ataques à “jazzficação” da música brasileira e na saudação, em contraponto, àqueles que definia como “sambistas na exatidão do termo”, casos de Donga e Pixinguinha. A saudade de Efegê evocava um Rio fiel à tradição das pastorinhas e das canções de Natal, que não queria tudo “em linha reta, rápida e decisiva, apontando do presente para o futuro”. Uma cidade que hoje, embora ainda mais desfigurada, continua a servir de inspiração para os cronistas, como se alimentasse perenemente uma certeza: apesar das flechas em seu peito, algo da “Sebastianópolis” de Efegê resiste.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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