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Uma pausa de mil compassos

Uma pausa de mil compassos

por De Almeida 2

Quando o portão da garagem se abre, a sinaleira emite o sinal agudo, repetitivo. O uso de emissões sonoras nas sinaleiras está proibido, ao menos no Rio de Janeiro, desde 2014, mas nosso forte é exigir que só os outros cumpram a lei. Pouco importa, também, se a preferência na calçada é do pedestre, não do carro. Que em tese cabe ao motorista prestar atenção em seu trajeto. Ou se aquele irritante “pi pi pi” invadirá os ouvidos do porteiro, dos moradores, dos vizinhos, durante todo o dia, às vezes ao longo da noite. Uma refinada espécie de tortura.

Passa o caminhão do lixo. A marcha-a-ré se dá ao ritmo de outro ruído. Silvos mais longos, não raro em volume ainda maior do que o das sinaleiras, para “notificar” os passantes sobre a movimentação. Sai da frente, ou de trás, que lá vamos nós.

Se a rua está em obras, a pavimentação do asfalto merece o aviso igualmente barulhento de tratores e outros tantos veículos envolvidos. Ainda que seja madrugada. O que é o prosaico sono do indivíduo ante a régia comprovação do trabalho do poder público?

Assim nos acostumamos. Passamos a encarar como algo normal o fato de ter nossos ouvidos violentados pela barulheira. Como se fosse necessária, ou parte inevitável da marcha civilizatória.

Não é.

Uma cidade se define, também, em seus sons. O bordão que escapa do camelô, a freada do ônibus, o burburinho das conversas, a música que um grupo toca, em busca de trocados, na saída do metrô. A harmonia dissonante da rua revela tanto sobre o espaço urbano quanto os polaroides. No discurso das cidades, a cacofonia esboça uma escrita sob forma acústica.

Mas se tudo é ruído, nada é ruído. Temos apenas o som compacto que não cessa, não significa.

Rio de Janeiro e São Paulo, apontam estudos, são as metrópoles mais barulhentas do mundo (falemos baixo, antes que alguém cogite soltar rojões por conta disso). E o rugido constante deriva em surdez.

Para que se possa escutar a cidade, paradoxalmente, é preciso que ela se cale em alguns momentos. No intervalo que consente o descanso, informações são processadas, abre-se espaço para o novo. É então que recortamos, na pedra bruta, nosso próprio traçado.

“Silêncio, por favor”, pede Paulinho da Viola em sua canção mais bonita. Na quietude do texto, faço coro.


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