A casa e o passarinho


O Conde Matarazzo, “homem de muitas fábricas e muitas honras”, passeava pelo parque orgulhoso da condecoração que trazia, sob a forma de delicada medalha em ouro, presa por uma fita à lapela do paletó. Então apareceu o passarinho. O bicho deu um rasante, bicou de leve a fita, o suficiente para arrancá-la, e voou, levando embora a medalha do Conde.

“Devo confessar preliminarmente que, entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho”, escreveu Rubem Braga na célebre crônica em que comenta a notícia veiculada – corriam os anos 30 – pelo Diário de São Paulo. Tive a alegria de reler o texto na semana passada, enquanto viajava para participar da bienal em homenagem ao autor. O evento acontece há uma década em Cachoeiro de Itapemirim (ES), sua cidade natal.

Ao fazer a escolha do passarinho, Rubem distingue um traço peculiar no olhar do cronista. Talvez possamos dizer que o cronista é quem, entre um Conde e um passarinho, torce pelo pequenino bicho de asas e penas.

Em Cachoeiro, tive a oportunidade de visitar a casa em que Rubem morou na infância. Está lá, ainda hoje, a árvore de fruta-pão mencionada em tantas de suas crônicas, embora não mais o jardim que ladeava a construção principal. Na obra de restauração do hoje centro cultural, cimentaram a vegetação. Uma pena.

Foi quando me vi em frente à casa da Rua 25 de Março que Cachoeiro fez sentido. A cidade de construções banais, feias até, tornava-se literária. Subitamente. Imaginei Rubem, os pés descalços ganhando casca no futebol diário em plena rua, aquela mesma onde agora eu pisava. Depois o descanso do menino, os olhos voltados para o Rio Itapemirim, sem a vazante lúgubre de hoje, as tristezas de outra ordem ainda por vir. A água barrenta haveria de chegar, porque sempre chega.

Rubem era cioso de seu universo, e tentou reproduzir Cachoeiro na lendária cobertura de Ipanema. O apartamento tinha horta, pomar, uma profusão de plantas e árvores, o que fez com que ganhasse do amigo Paulo Mendes Campos a alcunha de “fazendeiro do ar”.

A área onde fora cultivada a fazenda na verdade não lhe pertencia, era propriedade comum do condomínio, mas o escritor pouco se importava. Na ocasião em que um novo síndico o procurou para reivindicar o espaço, indagando como ele receberia os vizinhos caso quisessem ir até lá, Rubem foi sucinto: “À bala”.

“Uma cidade muda mais rápido, ai, que um coração mortal”, versejou Baudelaire sobre a Paris que se transformava. Nesse descompasso entre cartografia e memória, o cronista cata suas pedras. Segue borboletas e passarinhos. Percebe a chegada do outono na solitária folha seca que, trazida pelo vento, toca seu rosto.

Ao revisitar o sobrado de Cachoeiro, muitos anos depois de ter se mudado para o Rio, Rubem debruçou-se à janela e concluiu que toda a vida fora dali fora apenas uma excursão confusa e longa. “Moro aqui”, disse. “Onde posso morar senão em minha casa?”.

A casa de Rubem, a nossa casa. Que a gente sempre leva no bico, voe para onde voar.


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