Um abraço


Quando cheguei, Anabella já conversava com as crianças. Meu atraso, que se devia a um capotamento na avenida Presidente Vargas, era de uns quinze ou vinte minutos. Anabella parecia à vontade, apesar de não dominar totalmente o Português. Lia trechos do livro, em revezamento com uma das meninas, e comentava a história que criamos juntos – eu, o texto; ela, as ilustrações.
A plateia era composta de alunos de uma escola pública, que naquela quinta-feira foram levados pelos professores ao Salão da Feira Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Eu nunca havia conversado com crianças em um evento literário. Confesso que estava algo sem jeito, mas subi ao pequeno palco e, ao lado de Anabella, terminei de fazer a leitura. Então vieram as perguntas.
Por que a menina tem uma gata?
Por que o médico diz para ela dormir?
Por que ela para de ver as cores?
O que você desenhou primeiro?
É muito difícil desenhar?
Não, todo mundo pode desenhar, respondeu Anabella. É igual a dançar. Todo mundo pode dançar.
E, aos poucos, o gelo espesso que se costuma se erguer entre palco e plateia desfazia-se. Os meninos guardavam seus celulares, paravam de tirar fotos e passavam a falar diretamente com nós dois.
Lembrei da feira literária que acontecia todo ano na minha escola. De mim mesmo, garoto, tomado de fascínio pelos autores; um tipo de arrebatamento que é exclusivo da juventude mais tenra. Era bom ver aquelas pessoas para além do nome grafado nas capas dos livros. Tê-los conosco, falando com a turma, nos dando atenção.
Estudei num colégio particular, no subúrbio do Rio. Escritores não costumavam ir ao subúrbio. Ainda hoje não costumam ir. Na quinta passada, eu era o escritor. Não sei onde fica a escola daqueles meninos, mas é uma instituição pública, o que me permite imaginar que falávamos com crianças sem direito a muitos luxos na vida.
Terminada a apresentação, nos vimos rodeados por eles. Queriam autógrafos em seus cadernos, registrar aquele encontro em fotos, talvez para publicar em suas redes sociais, talvez apenas para guardar uma recordação.
Ficamos alguns minutos ali, eu e Anabella, entre o contentamento de notar que nossa história agradou e a estranheza que é se ver, de súbito, na condição de estrela. Ainda que tivessem acabado de nos conhecer.
O local já estava quase vazio quando um menino magrelo, os olhos miúdos de timidez, aproximou-se de mim:
Tio, você pode me dar um abraço?
Ele não ouviu falar de meus outros livros, desconhece que sou jornalista, que tenho quatro irmãos e perdi uma irmã num acidente estúpido. Ignora onde moro, para onde já viajei, se jogo futebol, quem são meus amigos. Se já me feri ou machuquei os outros. Tampouco sabe que escrevo crônicas num site e que ele acabaria virando personagem de uma delas.
O menino queria um abraço. Às vezes, é só o que se quer.


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