Em uma de suas crônicas, Rubem Braga conta a história de um repórter que precisava falar com o delegado e se irrita porque o homem tinha ido tomar um cafezinho e não voltava por nada. “A vida é triste e complicada”, comenta Rubem, para então defender o direito de todos nós, vez por outra – quando vier o credor, o parente, o banzo ou mesmo a morte -, escaparmos para tomar um cafezinho.
Conheci essa crônica por meio do Joaquim Ferreira dos Santos, num papo que tivemos sábado passado na Cidade da Música. E pensei que, de alguma forma, foi isso o que fiz nessas quatro semanas nas quais estive ausente do Vida Breve, substituído pela competente pena do Henrique “Buddy” Rodrigues. Fui tomar um cafezinho.
Café dos bons: uma viagem que começou por Paris, passou pela Provence e terminou em Praga. E que redundou em uma série de constatações, a mais flagrante delas sobre os preços de lá e de cá. Se há alguns anos a gente ficava espantado quando chegava à Europa, muitas vezes tendo que trocar uma das refeições por sanduíche, agora está patente: o Brasil ficou caro, muito caro. Só não barateou a qualidade de seus serviços.
Nas pequenas anotações de viagem, está um bar em Paris que serve as bebidas – seja refrigerante, suco ou cerveja – em mamadeiras. Lotado, como Freud poderia prever. A paranoia dos aeroportos e suas revistas cada vez mais invasivas. O caos nesses aeroportos, mostrando que não se trata de peculiaridade brasileira.
Também os campos da Provence, ainda não totalmente floridos, mas já pintados de amarelo como num quadro de Van Gogh onde Juliana nunca parece uma intrusa. Terrines, corredeiras, baguetes, muradas de pedra, vielas, um tempo quase estanque, fora do tempo. E os dois moradores da pequena vila perguntando, ansiosos, se o Neymar iria jogar no Paris Saint Germain – eles torcem para o Olympique de Marseille, estavam apavorados com a possibilidade e acabaram me pagando uma cerveja.
Em Praga, as ruas estão tomadas por turistas – e turistas detestam encontrar turistas, embora o sejam. O Museu do Comunismo fica entre um cassino e uma loja do Mc Donalds. Marx é chamado de poeta romântico, aventureiro intelectual e Kafka virou estampa de camisa. Mas está lá, na capital tcheca, a primeira página manuscrita de sua “Carta ao pai”, e é impossível não se comover ao pousar os olhos naquelas letras miúdas que irão, em poucas páginas, estilhaçar o déspota que regia o mundo da poltrona do lar.
O que resta de uma viagem, além das fotos, são esses breves apontamentos. A lembrança do cafezinho que saímos para tomar, mergulhados de corpo e alma. E saber, no fim, que tão bom quanto viajar é voltar para casa.
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