Não vou comparar a um Fla x Flu, porque a grandeza do clássico não cabe nos argumentos rasteiros que vêm sendo apresentados. Mas a discussão em torno da reforma do Maracanã infelizmente ficou reduzida a dois pólos fechados em si mesmos. De um lado, os que defendem que nada poderia ter sido modificado, clamam até pelo banho de xixi. Do outro, os apologistas exaltados do bota-abaixo.
Volto ao assunto, que já foi tema de crônica aqui mesmo no Vida Breve, sob o espanto dessa dicotomia de muito alarido e pouca complexidade. Não vou sentir falta de banheiros mal limpos, de cadeiras com pouca visibilidade. É ótima a instalação de telões – que, diga-se, já estavam lá há algum tempo. E concordo que o estádio precisava de modernização em vários aspectos, que o dotassem de mais tecnologia e conforto.
Mas modernização implica necessariamente a radical descaracterização visual? A resposta é não. Por isso, minha perplexidade com aqueles que, sentindo-se o último grito da vanguarda, apressam-se em tachar de “saudosista” quem se atreve a fazer qualquer crítica à reforma. São apenas deslumbrados.
A afirmação de que a modernização só poderia se dar com a redução do campo a dimensões ridículas e o apagamento de qualquer mínimo traço do estádio anterior é puro sofisma. Aliás, melhor dizendo: $ofi$ma.
Era possível, com bom senso, encontrar um ponto médio entre modernidade e tradição, adequando o Maracanã às exigências do tempo de hoje, mas preservando suas feições mais marcantes. Bem observou o jornalista Eduardo Souza Lima, nosso Zé José: o Brasil é um país jovem e insiste em destruir seus símbolos antes mesmo de se sedimentarem na história. “Tudo é construção e já é ruína”, como diz a canção de Caetano Veloso.
Lembro o caso do Palácio Monroe, pérola arquitetônica do Rio de Janeiro, que foi ao chão em 1974 porque “atrapalhava o trânsito”. A mesma visão utilitarista que ressoa da fala dos entusiastas a qualquer preço (e que preço!) da drástica reforma. Uma tese unilateral e que desconsidera valores outros, como memória, patrimônio, cultura.
Não me espanta, porém, esse olhar colonizado e típico do fascínio noveau riche. Daqui a pouco vão defender também os animadores de auditório que, no recente amistoso entre Brasil e Inglaterra, “ensinavam” a plateia a torcer, indicando as palavras de ordem que deveriam ser ditas e comandando as olas. Se é assim lá fora, é bom.
E, no entanto, quando esse brasileiro “moderno” viaja para a Europa, derrete-se todo diante de construções, estátuas, monumentos. Ora, por que não cromar a Torre Eiffell? Fazer uma pintura nova no Coliseu? Desentortar a Torre de Pisa? Um choque de contemporaneidade em Praga ou na velha Grécia, por favor.
Embora mais remoto, o Maracanã é um emblema tão forte do Rio de Janeiro, e do Brasil, quanto esses marcos. Ou melhor, era. Porque, com aniquilamento total de suas linhas, o que temos hoje é um estádio rigorosamente igual a centenas de outros ao redor do mundo. Desenhado conforme os critérios do malfadado padrão Fifa, que esfarela singularidades, empastela a riqueza da diferença, faz de tudo uma coisa só. Arenas Mc Donalds.
Bom hambúrguer pra você.
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