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Serra da Boa Esperança

Serra da Boa Esperança


Fora os hinos dos principais clubes cariocas, só há um Lamartine Babo no cancioneiro da minha infância. Refiro-me a “Serra da Boa Esperança”, música que meus pais escutavam sempre, em gravações diversas – a do co-autor Silvio Caldas, a mais recorrente.
Gostava, quando pequeno, de ficar especulando como seria esse punhado de terra no coração do Brasil chamado Boa Esperança que Lamartine tanto saudava. Se teria algo a ver com a serra pela qual costumávamos passar, de carro, nas longas viagens a São Lourenço. Se haveria vacas em seu entorno, ou paradas cheias de caminhões e promessas de lanche. Se seria bonita como as serras costumam ser.
Já adolescente, minha atenção se desviou da serra para os versos que dizem: “Nós os poetas erramos / Porque rimamos também / Os nossos olhos nos olhos / De alguém que não vem”. Fazia todo o sentido. Nessa estação da vida em que a gente se imagina integralmente jogado às baratas, a errância parece tão natural quanto inspirar oxigênio e expirar gás carbônico. O sentimento de rejeição, ainda mais.
Reencontrei a música de Lamartine e Silvio Caldas, depois de muito tempo sem ouvi-la, na voz de Maria Bethânia. A cantora incluiu “Serra da Boa Esperança” no show “Amor, festa e devoção”, que rodou o Brasil em 2010 e hoje está disponível em DVD. Em interpretação distinta da costumeira, Bethânia optou por um registro minimalista, sem grandes malabarismos vocais. O canto é quase fala. Um sussurro de despedida.
Foi nessa época que descobri a história escondida por trás dessa canção tão linda quanto triste – e já dizia Vinicius de Moraes que para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, se não, não se faz um samba, não.
Lamartine escreveu a letra na década de 1930, após trocar cartas durante um ano com Nair Oliveira Pimenta, mineira da cidade de Dores da Boa Esperança. As missivas de lado a lado eram redigidas em tom arrebatado, às vezes sob a forma de versos. Empolgado com a inteligência e a verve da moça, o compositor chegou a lhe enviar fotos. A relação se adivinhava promissora.
Mas Nair em certo momento interrompeu a correspondência. Alegou que iria se casar com um primo e que “tudo não se passava de um sonho impossível”. Lamartine então decidiu ir à cidade a fim de conhecê-la e tentar, pessoalmente, reverter a situação. Lá, apresentaram-lhe a única Nair do lugar: uma menina de seis anos.
A musa inspiradora do compositor era, na verdade, o dentista Carlos Alves Netto, um fã que iniciou a troca de cartas e adotou pseudônimo feminino para tentar ficar mais próximo de seu ídolo.
A decepção de Lalá, expressa em versos que falam de uma “esperança que encerra” e da ingenuidade dos poetas errantes, não impediu que se tornasse amigo de Netto. E acabou gerando uma pérola da música brasileira.
Dores da Boa Esperança prestou a devida referência ao compositor que a destacou no mapa: ele hoje é monumento em uma das principais vias públicas da cidade.


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