Cenas de um casamento


A histórica Rua do Ouvidor, que já foi dos logradouros mais chiques da cidade, transformou-se nos últimos anos num pólo etílico-cultural. Muito contribuiu para isso a Livraria Folha Seca, especializada em obras sobre música, futebol e Rio de Janeiro. Uma livraria tão genuinamente carioca que promove uma pelada semanal, com direito a resenha regada a cerveja pós-jogo.
Em parceria com os bares locais, a Folha Seca organizou em 2007 uma roda de samba em plena rua. Sucesso completo. Hoje, o furdunço é quinzenal e acontece no fim da Ouvidor, já esquina com Rua do Mercado. O que não muda é a presença de centenas de pessoas ávidas em ouvir os sambas cantados pelo Gabriel da Muda. Pérolas extraídas dos terreiros de escolas tradicionais, como Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano.
Tem gente que fica no entorno da roda, para ouvir e cantar junto, e aqueles que preferem se sentar nos bares próximos, tendo uma perspectiva em plano geral do coro. Há os que pulam, de bar em bar. E os que, depois de devidamente abastecidos de álcool, decidem testar o cartão de crédito na Folha Seca. Impossível sair de lá sem pelo menos um novo título para a biblioteca.
Nesse recanto do Rio, entre livros, samba e cerveja, viceja uma cidade que costuma escapar à vista. Uma cidade que se faz de conversas e encontros espontâneos, à margem do cartão postal. E que serve de palco para histórias como a que presenciei ali mesmo não faz muito tempo.
Eu conto, eu conto.
Naquela tarde de sábado, o samba tinha razão especial: os lançamentos do livro “Noites de sábado”, de Luís Pimentel, e do disco “Malandros maneiros”, de Zé Luis do Império. A música comia solta e, nas mesinhas espalhadas pela Ouvidor, as pessoas batiam papo e tomavam seus tragos.
Foi quando quatro rapazes entraram no boteco no qual bebíamos. Não despertariam nossa atenção não fosse a roupa que vestiam: estavam de fraque.
Na sequência, chegaram duas moças, ambas enfiadas em vestidos bolo de noiva. Em poucos minutos, seis ou sete engravatados se juntaram ao grupo, que entornava garrafas de cerveja com uma sede de anteontem. Soubemos, então, que eram convidados de um casamento que se daria, em menos de uma hora, na Igreja de Santa Cruz dos Militares, localizada na vizinha Rua Primeiro de Março.
Alimentados pela cerveja e pelo atraso da cerimônia, a turma optou pelo quase inevitável: convocar o noivo. Fomos informados de que se chamava Horácio. Não demorou até que nos somássemos a eles, e o bar inteiro começasse a gritar:
– Horácio, cadê você? eEu vim aqui só pra te ver!
Passados alguns minutos, Horácio despontou na esquina. O brado mudou:
“Ih, fodeu, o Horácio apareceu, ô!”
Convocado por quase toda a rua e um tanto sem graça, o noivo se aproximou e, seguido de perto pelo fotógrafo oficial da cerimônia, juntou-se aos padrinhos (que ainda bebiam). Horácio e os amigos foram efusivamente saudados pelo povo. Garrafas e copos à mão, ouviram um pouco do samba que, sem entender bulhufas, o Zé Luiz cantava. E ainda tomaram a saideira antes de seguir para a igreja.
A noiva, Renata, não foi vista na Ouvidor.


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