Existe uma hora imprecisa no dia. Em todos os dias. Impossível definir se está claro ou escuro, se ainda é tarde ou a noite já chegou, cobrindo tudo com sua manta pesada.
Da janela de minha sala, vejo a copa das árvores do Aterro do Flamengo, os barcos estacionados na Marina, o Museu de Arte Moderna. Os carros e ônibus correm pelo minhocão próximo ao aeroporto marcando seu trajeto com faróis de vaga-lume. Passam, mais ligeiros que o tempo, na ânsia de simplesmente chegar em casa, ou num ponto qualquer onde alguém espera. Uma esquina ou mesa de bar, e serão bebidas as horas que acabaram de morrer embora ainda respirem na memória, ofegantes.
Ao fundo, em meio a um tapete verde, o Outeiro da Glória acena com sua imponência tímida. A cidade que permanece. Minha mãe sempre se benze quando avista uma igreja, eu não. Minha mãe não vai à missa, eu tampouco.
Passam-se alguns minutos e a noite é por um triz. Ainda não. Posso enxergar em lusco-fusco a fileira de prédios da Glória e do Catete formando uma parede compacta e feia. As luzes acesas dos apartamentos, fagulhas numa boca banguela. E as favelas de Santa Teresa, uma, duas, três, tantas
Olhando daqui, o Cristo é uma miniatura, souvenir. Os braços estendem sobre a paisagem seu zelo de pedra.
Aos poucos, o azul se mescla ao laranja num céu de poucas cores, muitas matizes. Não há chuva à vista.
Um tom a mais, e basta um tom: a cidade perde contornos, ganha contraste, fica mais bonita. Mais bonita do que sob o sol estourado do meio-dia. Mais bonita do que sob a lua redonda da meia-noite. Na dobra do dia, quando é melancolia e alarido, fadiga e promessa de descanso. Quando a cidade é borda.
Na bifurcação da pista da Avenida Marechal Câmara, a estátua de Manuel Buarque de Macedo parece orientar o trânsito. Um guarda de bronze, em fraque imponente.
A redação começa a se esvaziar e os vidros grossos da janela me garantem silêncio. Adivinho o olor da maresia que volta e meia sopra do Aterro. Adivinho o mau cheiro da baía. E escurece ainda mais.
“Não é ainda, mas é quase”, como escreveu Paulo Mendes Campos, aquele mesmo que nos ensinou o que sempre soubemos: que o amor acaba. Assim como acabam os dias, para então recomeçar.
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