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Quintal maior que o mundo

Quintal maior que o mundo


Começam a ganhar contornos definitivos, a menos de uma semana da inscrição, os sambas concorrentes à honraria de conduzir o desfile do GRES Império Serrano em 2017. No ano em que completará sete décadas de história, a escola abdicou da auto-homenagem e elegeu o poeta Manoel de Barros como enredo.

“Meu quintal é maior do que o mundo”, diz o verso colhido no poema O apanhador de desperdícios para nomear o tributo ao escritor. Um acerto. Não só pela potência da frase como síntese possível da obra do poeta, mas por sua bem-vinda ambiguidade. Maior que o mundo, para o povo dos morros da Serrinha, Congonha e Tamarineira, é o quintal do Império Serrano. A evocação do aniversário de 70 anos então se dá – no âmbito da metáfora, como convém a um enredo que respira poesia.

Quando o tema foi anunciado, cheguei a ouvir comentários sugerindo que os componentes não abraçariam a homenagem, por desconhecerem o trabalho de Manoel de Barros. É relativamente comum, embora equivocada, essa impressão. Como se, pela falta de acesso à literatura ou a outras esferas da arte, a comunidade de uma escola de samba não pudesse compreendê-las, ou lhes dedicar afeto.

A tese resvala no preconceito. Mas acaba por aproximar, mais uma vez, Manoel de Barros e Império Serrano. Muitas vezes esnobado pelos sisudos doutores dos estudos literários, o poeta mato-grossense teceu sua escritura justamente com o espanto da descoberta. “Só conheço as ciências que analfabetam”, revela em um de seus versos.

Manoel queria a palavra “que sirva na boca dos passarinhos”. Preferia o que é oblíquo, sinuoso. Aquilo a que chamava “inutensílios”. A partir do voo de uma ave, da mudez da pedra, de gravetos, asas de mosca, vaga-lumes, desmontava a rigidez dos significados pré-concebidos. Sua poesia “não se propõe a ensinar nada a ninguém, senão que à vida”, como bem observou o filólogo Antônio Houaiss. Talvez por isso mesmo tenha conseguido, de forma tão espontânea, arrebatar as pessoas.

Ao reverenciar Manoel de Barros, o Império Serrano mantém a tradição de levar a literatura brasileira para a Avenida. A agremiação já exaltou, entre outros, Jorge Amado, Ariano Suassuna, João do Rio, Vinicius de Moraes. Aliás, quem dera a literatura retribuísse, ao menos em parte, a generosidade com que é tratada pelos cortejos e desfiles de carnaval. Assuntos costumeiramente estranhos aos livros de ficção.

Para além disso, a escola aproxima universos que poderiam de início se trombar e, no entanto, estão repletos de interseções. O gorjeio de um pássaro, o canto do agogô. O movimento das folhas, o giro gracioso da porta-bandeira. Semelhantes quintais. Na bagatela que acende a transcendência. Na coisa ordinária bulida em poesia, ou samba.


  1. Belo texto, justa homenagem. Manoel de Barros merece rodopiar sua poesia neste quintalzão da Marquês de Sapucaí! Vou aplaudir muito na arquibancada.
    Adorei a crônica, não sabia desta notícia. Obrigada por divulgar!
    Abs,
    Monica

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