Falta de assunto


O papo corria solto em um dos painéis da Casa Rocco durante a Flip quando o mediador se virou para mim e mandou:

“A maioria dos cronistas escreveu, algum dia, uma crônica sobre nada. Em vez de fazer pergunta, peço que você fale um pouco sobre isso. Ou seja, sobre nada”.

O clássico mote da falta de assunto justificava a falta de pergunta. O que, no fundo, tornava a questão muito mais espinhosa. Sobretudo porque a proposta vinha de supetão. E sob forma verbal. Sem intervalo para a organização do pensamento ou o apuro do texto.

Venci o desafio com um típico drible da vaca. O pedido era que discorresse a respeito de coisa nenhuma – embora nada simples, estava claro. Então decidi lembrar, com detalhes de bastidor, a ocasião em que queimei o cartucho da tradicional crônica sobre a carência de inspiração. Bola lançada de um lado, corrida ligeira pelo outro. E vamos ao próximo tópico.

Antonio Prata, colega de ofício, certa vez evocou em sua coluna na Folha um precioso conselho do pai. Também cronista, Mário Prata recomendara que ele tivesse sempre um texto “de gaveta”. De fundo de gaveta, eu diria. Algo que, sem conexão nem mesmo tênue com o correr dos fatos, ou da vida, pudesse ser publicado a qualquer tempo.

Pratinha acatou, em parte, a sugestão. Deixou a crônica guardada por quase dez anos. Até que numa semana corrida, daquelas que engolem os temas e a disposição, mandou-a para o jornal. O efeito foi hilário. Ao contrário de evitar a conjuntura, como lhe receitara o pai, o texto mergulhava fundo nela. E aí estava sua graça. A discrepância entre o relato do cronista e o noticiário das demais páginas, separados por hiato histórico relativamente breve, espelhava uma face do Brasil. Onde tudo ainda é construção e já ruína, como diz a canção do Caetano.

Mas nem sempre há escritos de gaveta para nos salvar. E às vezes o prazo de entrega se aproxima sem que o assunto tenha dado o ar da graça. É quando nos transformamos em pedintes. Mendigos de histórias. Passamos a sondar os amigos mais próximos, sem pudor. A esmola: situações que tenham vivido, testemunhado. E possam, gentilmente, emprestar ao pobre escriba.

Para os cronistas de outrora, em geral imersos no sistema da coluna diária, o aperto era ainda maior. A ponto de, muitas vezes, requentarem textos já utilizados. Mexe numa frase aqui, acrescenta duas palavras ali, muda o título. Pronto. Sabor de prato novo, ou quase.

Clarice Lispector foi uma que, volta e meia, recorreu a esse expediente. Outros, como os parceiros Fernando Sabino, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, chegaram ao ponto de trocar crônicas entre si. Um delicado trabalho de reciclagem, como revela Sabino no livro A falta que ela me faz.

Questionado por Rubem se teria “uma crônica pequenininha para emprestar”, ele sacou de seu arquivo o antigo escrito sobre o menino que lhe rogara dinheiro para tomar sopa numa casa de pastos na Lapa. O texto fora publicado em O Jornal, com o título “O preço da sopa”. Rubem deu uma guaribada no relato, substituiu “casa de pastos” por “restaurante”, corrigiu o preço do caldo conforme a inflação e rebatizou-o simplesmente de “A sopa”. Na sequência, enviou para o Diário de Notícias.

Passados alguns anos, foi Sabino quem recorreu ao amigo, pedindo “uma crônica usada”. Rubem devolveu-lhe a da sopa. Sabino de início protestou, mas diante do argumento do parceiro – “as outras estão muito gastas” ­–, resolveu aceitar de bom grado. Improvisou pequenos remendos no texto, fez a devida correção monetária e encaminhou à diagramação. No novo título, o aviso velado: “Essa sopa vai acabar”.

Como o caro leitor já pôde perceber, também esta crônica nasceu da falta de assunto. Virou conversa fiada. Mas lá se foram três mil caracteres. Missão cumprida, portanto. Ao menos até semana que vem.


  1. Cesar Cardoso

    9 julho

    Conversa fiada tambem e informaçao.

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