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As canções dos livros

As canções dos livros


Na crônica O Botafogo e eu, Paulo Mendes Campos vale-se da paixão pelo time alvinegro para arriscar analogias entre outros escritores e os clubes de futebol do Rio. “Dostoiévski é Botafogo, Tolstói é Flamengo – na literatura russa não há Fluminense”, observa. Baudelaire, sim, seria tricolor. Assim como Machado de Assis (“um bairrista, morava onde? Laranjeiras!”). Na torcida rubro-negra, formariam Balzac, Verlaine e Camões. Um trio de respeito. O Vasco, curiosamente, não é mencionado no texto.

Ando embrenhado nas páginas do romanceNorwegian wood, de Haruki Murakami. À moda do cronista, poderia afirmar que Murakami é Botafogo. Ao menos a tirar por esse livro. A história dos jovens Toru e Naoko na Tóquio dos anos 60 renova a impressão de que por trás de todo horizonte aparentemente estável há uma queda, ainda que não enxerguemos. É plena de tragicidade, lirismo, angústia. Características – ontológicas ­– do botafoguense.

A exemplo do que Mendes Campos fez com escritores e times, gosto de combinar livros e canções. No caso de Norwegian wood, a primeira tentativa foi também a mais óbvia: a conhecida música dos Beatles que empresta título ao romance. Tiro n’água. Apostei, então, nos choros delicados de K-Ximbinho. Tampouco funcionou. Acabei chegando a Bill Evans por influência da própria trama – Toru tem um LP do pianista americano. E, assim, o disco Chet Baker e Bill Evans – The complete legendary sessions tornou-se a trilha sonora da leitura.

K-Ximbinho talvez servisse a Quase memória, do Cony. Uma canção como Ternura a acompanhar, na sinuosidade do solo de sax, o inventário do protagonista sobre o pai morto. Sutis afinidades.

Penso em Flicts, de Ziraldo, dançando com Egberto Gismonti. Na alegria da cor que descobre seu lugar na paleta. Ao fundo, crianças em algazarra. Berram, gargalham, divertem-se com as piruetas melódicas de Palhaço.

“Tá viajando, hein?”, diria o amigo dos tempos de adolescência.

Mera elucubração de leitor. Isso embora a evocação por vezes parta – e de forma direta – daquele que escreveu a história. No livro Keith Jarret no Blue Note, Silviano Santiago inspira-se em apresentação do pianista no clube nova-iorquino para criar textos ficcionais que dialogam com cada canção do show. Logo abaixo do título de Os sobreviventes, conto que integra a seleta Morangos mofados, Caio Fernando Abreu avisa: “Para ler ao som de Angela Ro Ro”. De fato, Ro Ro casa bem com a literatura do autor gaúcho. Fogo médio entre a paixão e a porra-louquice. Que, às vezes, dão as mãos. Incendeiam-se.

Caio faz dupla afinada também com Cazuza, não à toa citado em outro conto – Linda, uma história horrível, do livro Os dragões não conhecem o paraíso.

Abrindo a guarda da imaginação, matuto outras dobradinhas: Guimarães Rosa e Hermeto Pascoal, Drummond e Chico Buarque, Hilda Hilst e Rita Lee, Manuel Bandeira e Pixinguinha, Adélia Prado e Milton Nascimento, Érico Veríssimo e Villa-Lobos.

A lista é interminável, pródiga em combinações. Mas agora, como um bom meio-campista, passo a bola para você, caro leitor. E peço licença. Murakami e Bill Evans estão me chamando.


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