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O valor da saideira

O valor da saideira


A boêmia do Rio de Janeiro festeja a reabertura do boteco A Paulistinha. Depois de quatro anos de portas cerradas, o tradicional bar da Lapa voltou sem grandes inovações – e isso é um elogio. Está lá, por exemplo, a chopeira do início do século passado, que tem cem metros de serpentina e já motivou inspiradas odes feitas por gente que entende do riscado, como o rei da noite carioca Álvaro Marechal. Também continuam no cardápio a sardinha frita, o bolinho de bacalhau e a sacanagem. Para quem só começou a ler crônicas após a chegada da internet, sacanagem é um petisco composto de quatro ou cinco salgados espetados num palito – no caso do Paulistinha, provolone, salaminho, pimentão, tomate e cebola.

Estive no boteco há algumas semanas, conferindo o serviço (mentira: fui tomar um chope mesmo). Pedi alguns copos, sempre na pressão, e o bolinho de bacalhau, que a atendente fez questão de fritar na hora, embora houvesse alguns já prontos na vitrine. Quando solicitei que fechassem a despesa, a conta chegou com um chope cortesia de saideira.

Nem lembrava mais desse expediente, antes tão comum nos bares do Rio. Um pouco por simpatia, outro tanto por gentileza, os garçons costumavam brindar os resistentes com a caldereta por conta da casa.

Ao reverenciar essa tradição que vai sendo deixada para trás, o Paulistinha deu o sinal: quer continuar como sempre foi. Não é pouco em tempos nos quais as palavras modernidade e impessoalidade passaram a se confundir. O que encerra uma rima, não uma solução (brinde, poeta).

Explico: a nova “roupagem” de boa parte dos bares cariocas não se limitou a mudanças no visual e na qualidade dos banheiros (esta, muito bem-vinda). Incluiu também o abandono de procedimentos que, ano após ano, foram constituindo uma espécie de código de ética da boêmia. Como a franqueza sobre o estado da carne assada. Ou a rodada de cortesia.

Em paralelo, a proliferação das franquias – que um amigo mais radical chama de “mcdonaldização dos botecos” – padronizou o atendimento e estreitou o espaço da sociabilidade. O gerente conhecido, o garçom versado nos gostos mais inusitados dos fregueses, tudo isso foi se tornando raro.

Lembro da época em que morava na Barra e batia ponto no Maracujina. Era um boteco da melhor qualidade, mas considerado precário para o gosto médio local. Lá, eu e a turma chamávamos os garçons pelo nome. Eles já sabiam que, quando eu pedisse o frango à moda, deveriam trocar a farofa à brasileira por salada de maionese. Sabiam também como eu gostava que viesse o chope. O ambiente era tão caseiro que certo dia, ante a vontade de um amigo de comer carpaccio – o que soava inusitado ali -, simplesmente pegamos uma caneta e incluímos o item no cardápio. Imaginem o desconcerto do garçom, depois de dizer que não tinha, deparando-se com o menu “atualizado”.

No Maracujina, conhecíamos cada cliente ou funcionário. O coroa com a namorada mais nova, os dois sempre sentados à mesma mesa. A turma mais jovem, que preferia beber do lado de fora, em pé, aquecendo para a noitada. O bêbado chato do balcão. O garçom mal humorado, que pouco falava. Nosso universo particular.

Sim, porque há bares que encerram universos inteiros, intransferíveis. Bom saber que o Paulistinha continua sendo um deles.


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