O final de 2012 foi um tempo de arrumações. Troquei de carro, doei roupas e livros, joguei fora três sacos cheios de papel, mudei a posições dos móveis lá em casa. Certa vez me disseram que os cancerianos precisam arrumar o mundo de fora para que o mundo de dentro se arrume também, numa espécie de sincronia. Talvez os astrólogos estejam certos.
Mas cancerianos costumam igualmente ser apegados às suas coisas. Uma afeição quase obsessiva. Os especialistas em arrumação – sim, eles existem – juram que, se você não usou algo nos últimos cinco anos, deve jogar fora, pois as chances de fazê-lo são mínimas. A tirar por esse critério, eu teria que me livrar de metade da casa.
No entanto, volta e meia me bate essa sanha arrumadeira. E tome de abrir gavetas e armários. E tome de rasgar extratos bancários e contas já pagas, descartar calças e camisas e toalhas. De uma hora para outra, a organização daquilo que não foi mexido por muitos meses torna-se imperiosa, urgente mesmo. E isso significa, também, reordenamento.
Para que servia o recibo de pagamento de um hotel em Lisboa? O mouse pad com a imagem de Charles Chaplin? O bloco com anotações para uma matéria?
Por que guardar tantos cadernos Mais, recortes de jornais antigos, programas de peças de teatro?
Curiosa como todos os gatos, Mila passeava entre os amontoados de objetos, explorando o território que lhe soava novo. E que em alguns momentos soava estranhamente novo também para mim.
O apinhado de coisas chegava a afligir, de modo que lançá-las ao saco de lixo constituía uma pequena vitória. Mas as derrotas foram mais numerosas.
Livros sobre Cuba, sobre a formação do PT. Estudos sobre assuntos que possivelmente nunca mais me interessarão. A calculadora do Mickey que ganhei ainda bem menino. O boletim da sétima série, com nota vermelha em Moral e Cívica. Cadernetas do Colégio Nossa Senhora da Piedade, trabalhos da faculdade, mágicas da época em que fazia truques para impressionar. Tudo isso ficou.
(Sobre livros, uma digressão curta. Sempre comprei mais títulos do que seria capaz de ler. O motivo é simples: o temor de, em determinado capítulo da vida, não ter como comprá-los. Mecanismo semelhante ao que move as pessoas, na iminência de uma guerra, a estocar remédios e alimentos).
O fato é que mesmo sabendo aqueles badulaques não teriam serventia, resisti. E à medida que os depositava de volta em seus lugares, ia repassando histórias, relembrando cenas capitais ou simplesmente ridículas – quem nunca se viu ridículo, desconfio, é um pouco menos humano.
Talvez a gente conserve de propósito esses objetos nos mais recônditos escaninhos da casa. Para poder esquecê-los por algum período. E depois ter a surpresa de encontrá-los, impassíveis, em sua deliciosa inutilidade.
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