Cidade lagoa


Em 1959, Moreira da Silva era sucesso com o breque que dizia: “Essa cidade que ainda é maravilhosa / Tão cantada em verso e prosa / Desde o tempo da vovó / Tem um problema vitalício e renitente / Qualquer chuva causa enchente / Não precisa ser toró”. Consagrados pelo saudoso Kid Morengueira, os versos de Sebastião Fonseca e Cícero Nunes vieram à mente mais uma vez na terça passada, enquanto eu tentava atravessar a Zona Sul em direção à minha casa, na Lapa.

Troncos de árvores pelo chão, carros enguiçados, verdadeiras ondas descendo pelas ruas. Era o Rio de Janeiro depois do temporal de apenas meia hora, a mesma meia hora cantada no samba-de-breque de 54 anos atrás. Tão longe, tão perto.

Quando a chuva começou, eu chegava ao clube onde jogo uma de minhas peladas semanais. Resolvi esperar dentro do carro. Quarenta e cinco minutos depois, desisti e dei a partida no motor. Foram quase três horas ao volante, com o carro acelerado para não enguiçar, tentando adivinhar onde, sob o aguaceiro, não estaria um ardiloso buraco. Havia muito de lamentável, mas algo de poético nos sacos de lixo que deslizavam pelas corredeiras. Uma impressão de liberdade, ainda que maculada pela sujeira.

Vencida a Zona Sul, alcancei ao Aterro do Flamengo, onde me vi obrigado a retornar. Uma árvore desabara, e a pista se transformou em imensa poça. Tudo parado. As pessoas desciam dos ônibus e, com a água pelas canelas, buscavam algum porto seguro. E seco.

Tive que usar o canteiro como atalho e andar na contramão por alguns metros até a Rua Augusto Severo, pequenas ilegalidades legitimadas pelo caos. Ao aportar na Glória, aliviado por estar no bairro vizinho, o revés: apenas ônibus podiam entrar na Lapa, tal a cheia.

Ao chope, pois. Estacionei o carro e segui para o bar Vila Rica. Já que a água não baixava, pelo menos eu garantiria o jantar. Promoção do dia: truta à belle meunière com purê e arroz de brócolis – R$ 25,00. Mais um, na pressão. Pode fechar a conta.

Era quase meia noite, conferi no relógio. Hora de uma nova tentativa. Em vão, já que a Lapa continuava fechada para carros, como sinalizavam os agentes de trânsito.

Acabei num motel de segunda. Ao lado de outros resistentes, fui impelido a esperar os casais terminarem seu justo trabalho para conseguir um quarto. Toalhas razoavelmente limpas, seis ou sete canais, um deles “privê”, e uma infinidade de ácaros – que, convenhamos, não são a melhor companhia em um motel.

À medida que eu trocava os canais, a voz do Morengueira ressoava: “Quem tiver pressa seja velho ou seja moço / Entre n’água até o pescoço / E peça a Deus pra ser girafa”.  Sem perceber, peguei no sono.

Pela manhã, um sol tímido iluminava os vestígios da chuva e ajudava a enxugar a cidade. Que acordou meio de ressaca, desconfiada de que nem todo banho é reparador.


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