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As fotos morrem jovens

As fotos morrem jovens


“Conseguimos salvar o laptop, mas o HD já era”, disse o funcionário da assistência técnica. Na véspera, a gata calculara mal o salto sobre a mesinha de cabeceira, derramando o resto da água que dormia no interior de um copo. O computador ficou completamente ensopado.

A notícia sobre a perda do HD não chegou a me abalar. Tinha a quase certeza de que todos os arquivos importantes estavam copiados em outros dispositivos. Mas a palavra “quase”, ao que parece, resolveu mostrar toda sua potência na querela semântica com o indubitável. Abri o primeiro pen drive. Nada. O segundo. Nada. Esvaziei três gavetas de velharias em busca daquele esquecido Kingston 2 GB. Encontrei. No entusiasmo de um pênalti aos 45 do segundo tempo, corri para plugá-lo ao laptop. A memória guardava textos inacabados, arquivos em pdf, uma cópia da declaração do Imposto de Renda 2008. As fotos não estavam lá.

Dezenas de instantâneos de uma solitária viagem por Lisboa, Porto, Ilha da Madeira, Barcelona. Irremediavelmente perdidas.

Senti a pontada de angústia ao constatar que nunca mais poderia ver aquelas imagens. Sorrisos perdidos entre construções de Gaudí, o começo do livro nunca levado a cabo, recortes de uma Ilha da Madeira em reconstrução, após o aluvião que a castigou.

A desaparição acionou a urgência em fazer o backup das fotografias de outras viagens. Festas de aniversários, passeios. Ao repassar as imagens, me toquei de que talvez tenha sido a primeira vez que voltei a contemplá-las. Se a caixa de retratos volta e meia é reaberta, como uma muleta para a memória, as fotos virtuais se mantêm intocadas. Eclipsadas na miríade de diretórios e chips.

Nunca fotografamos tanto.

“A fotografia é uma arte elegíaca, uma arte do crepúsculo”, escreveu Susan Sontag nos anos 70. Referia-se à nostalgia que as fotos evocam, em duplo e paradoxal movimento. São um registro, a cristalização do instante. Ao mesmo tempo, atestado de finitude. Da nossa própria, inexorável, mortalidade.

No mesmo ensaio, Sontag fala sobre álbuns, porta-retratos. E sobre fotografias que envelhecem, infestadas “pelas doenças comuns aos objetos feitos de papel”. Já não precisamos revelar negativos, raramente transformamos em papel as imagens. Basta editar, compartilhar, esquecer.

As fotos, hoje, morrem jovens. Antes mesmo que um HD defeituoso as liquide de vez.


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