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Dentro dos livros

Dentro dos livros


A crônica de hoje seria sobre a infeliz afirmação da coordenadora do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, Vanessa Damasco, a respeito da edição 2013 do prêmio. Segundo Vanessa, o festival ficou “mais divertido”, com menos “música lenta e marcha-rancho entre as finalistas”.
Mas o Tiago Prata, virtuoso violonista e amigo querido, escreveu um artigo sobre isso, que o jornal O Globo publicou na terça passada. E disse tudo o que eu iria dizer. Que algumas das mais lindas marchinhas de carnaval têm andamento dolente, trazendo um registro lírico da própria folia (Oh, abre alas, de Chiquinza Gonzaga), da paixão tão avassaladora quanto fugaz (Máscara negra, de Zé Ketti e Pereira Mattos), do amor que não sai da lembrança (As pastorinhas, de Noel Rosa e Braguinha). Que tais marchas são tão carnavalescas quanto as de ritmo mais acelerado e letra crítica/ sarcástica.
Além de tudo, acrescentaria eu ao texto do Pratinha, lembram que o carnaval é uma festa de paradoxos. A alegria do quadro geral é a ilusão necessária para turvar por alguns dias os pequenos dramas individuais, que ali se somam – pequenas palhetas de cores frias a formar, ao olhar levemente distanciado, uma pintura acesa, candente. O folião, no fundo, é um triste.
Como a intenção era que essa análise fosse além do mero impressionismo, peguei na minha estante o clássico Carnavais, malandros e heróis, de Roberto da Matta. E foi então que a crônica mudou de assunto. Ao abrir o livro, a surpresa: havia entre suas páginas algumas coisas, que foram ao chão.
Um postal com a foto O beijo do hotel De Ville, do francês Robert Doisneau. O recibo da compra de uma armação de óculos. Um cartão da Tok Stok. Um pequeno pedaço de papel com anotações.
Encontrá-los foi uma implosão silenciosa. A foto de Doisneau, que eu tanto amava e que, saberia depois, não nasceu de um flagrante, e sim de muita produção. O curso de mestrado escondido nos rabiscos de datas e horários, de prazos documentos necessários. Mestrado que nunca fiz. O cartão da loja de móveis acenando para o desejo de me mudar da casa dos pais.
Lá em casa, sempre tivemos a mania de colocar coisas dentro dos livros. Minhas irmãs guardavam folhas de árvores, que, com o passar dos anos, ficavam secas e ainda mais bonitas. A beleza que a morte pode ter.
Eu preferia guardar papéis. Pela função de simples de marcador de página, e não de armadilha para uma surpresa no futuro. Como a que aconteceu agora, nesse súbito contraponto de perspectivas e resultados, o molde novo sobre o antigo acusando sobras e faltas.
Na folha de rosto de Carnavais, malandros e heróis, há uma anotação feita à caneta: outubro de 1994. É costume meu registrar a data de compra dos livros. Os papéis com que me deparei, portanto, devem ser dessa época.  E fizeram recordar: aos 22 anos de idade, eu gostava das fotos do Doisneau, queria estudar Antropologia e morar sozinho.
Sentimentos e vontades e sonhos que foram podados, aos poucos, na lâmina do cotidiano. No girar do moto-contínuo que mói, sem dó, aquilo que fomos um dia.
Não há nostalgia nessa observação. A andança pelo tempo pressupõe mesmo pequenas traições ao passado. Esquecimento. O espaço da lembrança não suporta a soma de todas as coisas. Como dizia o poeta Wally Salomão, “a memória é uma ilha de edição” – e a rima, neste caso, inevitável como o correr da ampulheta.

 


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