Sonhos extraviados


Sempre odiei sonhar. Desde pequeno. Quando bem criança, chegava a rezar antes de dormir, pedindo que não aparecesse nenhum sonho durante a noite. Se fosse inevitável, rogava aos santos que ao menos não lembrasse, ao acordar, do sonho que ocupou a madrugada.

Talvez essa aversão a sonhar tenha nascido de algum pesadelo daqueles capazes de encharcar o lençol de suor. Não sei ao certo. O espaço da infância é sempre uma alegria inventada no futuro, autoficção. Sei é que, com o tempo, procurei racionalizar a repulsa.

Firmei uma tese: se o sonho foi ruim, sofremos à toa, por algo que a rigor não aconteceu. Se foi bom, tanto pior: o prazer experimentado durante o sono se estilhaça pela manhã, deixando apenas os pequenos e pontiagudos cacos da ilusão desfeita. Frustração.

Com o passar do tempo, o engenho interno se sofisticou e passei a simplesmente não sonhar. Quer dizer: sonhar, eu sonho, porque as pessoas sonham todos os dias. Mas não resta, depois do sono, nenhuma reminiscência.

Freud mostrou que os sonhos configuram um caldo simbólico no qual se misturam lembranças marcantes dos dias anteriores e experiências mais pretéritas, em geral devidamente travestidas pelos mecanismos do inconsciente. Como em meu caso não costuma sobrar nada ao despertar, nem para interpretação o sonho serve.

Na segunda-feira passada, conversava sobre isso com uma amiga e acabei lembrando de um conto do Gabriel García Márquez, chamado Me alugo para sonhar. O escritor colombiano narra a história de Frau Frida, mulher que detinha o poder de profetizar acontecimentos a partir de seus sonhos e decidiu ganhar dinheiro com esse estranho ofício. Frida gostava de contar os sonhos ainda em jejum, pois acreditava ser a hora em que conservam “as mais puras virtudes premonitórias”. Não adivinhou, porém, a própria morte. Um golpe de mar atingiu seu carro enquanto ela dirigia por uma estrada de Havana. Faltou-lhe o principal presságio.

Chico Buarque, em canção feita com Edu Lobo, imaginou um confuso casarão onde seriam reais os sonhos, não a vida. Lá, reinaria a moça que certo dia invadiu, tão deslumbrante quanto fugaz, o sono do compositor. “Um lugar deve existir / Uma espécie de bazar / Onde os sonhos extraviados / Vão parar”, descreve a letra.

Todos os meus sonhos foram extraviados por encomenda. Gosto de pensar que possam estar, hoje, exilados nessa paragem idílica que o Chico desenhou e que não tem vaga para pesadelos. À espera sei lá de quê. De uma visita, um resgate heróico, ou só esquecimento. Mas duvido. No fundo, sonhos são como a vida fora dos sonhos. Um dia brisa, outro ventania. Até que não há mais sopro algum.


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