O braço do pai


No dia em que o Renaro Russo morreu, eu estava no Maracujina, meu bar de estimação dos tempos de Barra. Ao receber a notícia, imediatamente comprei uma ficha, coloquei na jukebox que havia por lá e fiquei ouvindo Teatro dos vampiros. Foi uma tristeza quase transparente de tão triste.
A música, ao lado de Andrea Doria e Vento no litoral, forma minha trinca preferida no repertório da Legião. E nunca liguei tanto para Pais e filhos, talvez um dos maiores sucessos da banda. Mas dia desses, perdido no dial, ouvi a canção novamente e a imagem do meu velho veio inteira, límpida.
Não o do fim dos dias, emagrecido pelo câncer que começou a corroê-lo pelo estômago e acabou por levá-lo, mas o coroa careca e com barriga de chope que trazia sempre um Holywood no bolso da camisa de mangas curtas e piadas infames na boca.
Eu e o pai tínhamos tantas diferenças que, numa determinada época, parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre coisa alguma. Ele, um lacerdista inveterado. Eu, o jovem que queria a Revolução. Ele, machista a ponto de festejar com charutos o nascimento do primeiro filho homem. Eu, desde cedo completamente liberal quanto a costumes, drogas e sexualidade.
É curioso, no entanto, como por detrás dessa capa pesada de querelas radicais percebíamos haver algo que nos vinculava. Não o simples fato de sermos pai e filho, embora evidentemente também isso. Mas uma conexão singular, fortíssima – e silenciosa, como tudo o que vem dos fundos mais fundos da terra.
O velho era retraído. Tinha tanto amor represado dentro dele que não sabia o caminho do desafogo. Quando fiz dezoito anos, ele andava numa fase péssima. Já separado da mãe, mas ainda morando na mesma casa, tocava os dias burocraticamente, quase como um pária.

Naquela tarde, ele chegou no quarto onde eu via um filme esticado na cama. Visivelmente, havia bebido um pouco. Pediu então que eu levantasse, abraçou-me e entregou-me um envelope, com um cartão de crédito dentro. Às lágrimas, sussurou no meu ouvido um lamento daqueles que mais dilaceram, porque nascem da impotência: “Queria te dar um carro”.
O carro que nunca esperei e possivelmente acreditava ser meu presente dos sonhos quando – e nem eu mesmo sabia – ele já me transmitira herança mais valiosa. O gosto por um bom samba do João Nogueira ou uma canção do Herivelto. A reverência sagrada ao Império Serrano. E, sobretudo, a lição de que amor não foi feito pra ser guardado, lição que aprendi porque ele nunca soube – e sofreu por isso.
Sempre que viajava no carro com ele, gostava de me sentar no banco da frente. Nunca soube explicar a razão – talvez seja um comportamento comum aos garotos, uma espécie de rito de passagem da infância, pois já ouvi de amigos relatos semelhantes.
Por ser o mais velho dos homens, em geral tinha lugar garantido, embora o pai demonstrasse preocupação pela vulnerabilidade de quem viaja ali, no caso de um acidente. Toda as vezes em que ele se via obrigado a dar uma freada brusca, ato-contínuo esticava o braço para o lado direito, tentando (ou imaginando tentar) proteger uma possível topada minha contra o pára-brisa. Não estou certo se algum dia chegou a evitar. Em geral eu mesmo me segurava. Mas era bom ter a certeza que ele invariavelmente se mantinha presente para qualquer coisa. Porque hoje dói saber que o braço do pai não está mais por aqui. Nem que seja para me proteger das freadas que dá a vida.


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