Ai de ti, Copacabana, porque passada a véspera do teu dia não te abalaste com os sinais claros ou a voz do cronista e mantiveste intactas as tuas entranhas.
Ai de ti, Copacabana, que no seio da noite continuas a dar risadas ébrias, enquanto os bêbados moribundos do amor te pisam distraidamente, dançando pelos contornos das pedras portuguesas como se surfassem no concreto.
A ti ainda chamam princesa, princesinha, de um mar de palavras e poemas cuja riqueza se oculta nos versos pobres que rimam miss e meretriz.
Segues perdida em meio a iniqüidades, mais vagabunda e soberana sob a luz da gargantilha de refletores que te enfeita o pescoço e ilumina os brilhos fugazes das criaturas que só vivem nas brumas da madrugada; fora dela, são espectros sem susto.
Putas, michês, travestis, com perfumes baratos e curvas ruidosas, vendendo sexo e cafuné a quem passa enquanto o mar respira ofegante, como se também gozasse, soprando um alento ao pecado que grassa em tuas ruas e galerias.
Ai de ti, Copacabana, se forem ao chão os grandes edifícios de cimento onde teus filhos parecem dormir de pé, amontoados uns sobre os outros, nas quitinetes que zombam das coberturas da Atlântica, juntando famílias, consultórios, cabeleireiros e sex shops, e escondendo a tua vaidade no fundo das próprias mazelas, no hall dos elevadores, nos quartos dos Severinos e Franciscos e Joões e Antônios que zelam pelas tuas entradas mais secretas.
Já cantaste tua última canção e no entanto ela não foi a derradeira, porque nem a rapina de teus mercadores, nem a ostentação dos novos-ricos, ou a especulação sobre o metro quadrado do teu terreno foram capazes de turvar tua graça rampeira e soberana. Tudo passará, porém nada passa.
Porque és eterna, assim como os botecos de tuas esquinas, e os inferninhos da Prado Júnior, e as senhorinhas no calçadão, e os pescadores do Posto Seis, e os aposentados no carteado, e as moças besuntadas de óleo sob o sol, e as barracas na Praça dos Paraíbas, e os trovadores com violões na busca de um trocado, e os cocôs dos cachorros na Barata Ribeiro, e os casais se amando sob a lua cheia, e os jogos de peteca, e os turistas dizendo beautiful, beautiful diante da bunda da mulata.
Ai de ti, Copacabana, se não continuarem a serem estas as tuas jóias, este o verniz de tuas unhas, esta a libação de teus perdidos, este o teu corpo maculado, onde pobres-diabos se imiscuem à procura de colo, onde poetas perdem com os óculos a nitidez da areia, onde o homem-rã toca piano para mulheres silenciosas, enquanto Iemanjá bebe uma cerveja, duas, três, à espera de barcos e flores.
NO COMMENT