Leda

O eterno movimento

Mestre da arte gráfica, o holandês Maurits Cornelius Escher é autor de uma conhecida gravura na qual duas mãos desenham a si próprias em traços de lápis. Na imagem, torna-se impossível ao observador precisar qual das mãos efetivamente iniciou o esboço, sugerindo-se um movimento contínuo, circular e infinito entre os dois entes que aparecem embaralhados na figura: criador e criação.
Neste sentido, a gravura de Escher representa também uma metáfora possível da história encenada no romance Leda, estréia do jornalista Roberto Pompeu de Toledo na ficção. O livro configura um delicioso inventário sobre as tensões entre realidade e fantasia, delineado a partir das relações de um escritor celebrado com seu biógrafo. Autor do belo A capital da solidão e titular de uma coluna semanal na revista Veja, Pompeu de Toledo não se ressente dos cacoetes de ensaísta, que poderiam turvar a narrativa, e consegue construir uma trama cheia de reviravoltas, na qual sobram farpas irônicas na direção dos críticos, especialmente quanto ao uso de jargões e aos mecanismos de produção de “auras” literárias.
O escritor em questão no enredo é Bernardo Dopolobo, “aclamado pela crítica e querido pelo público, autor de obra extensa e original”, que se encontra no auge da carreira quando procurado por Adolfo Lemoleme. Admirador confesso de Dopolobo, o professor de literatura da Universidade Luiza B. lhe propõe erigir “a mais abrangente e profunda biografia já feita em nosso idioma, em qualquer tempo” com base em sua vida.
Durante a empreitada, Lemoleme não se limita a vasculhar documentos e entrevistar o autor e aqueles que o rodeiam ou rodearam. A investigação se expande para terrenos inusitados: o biógrafo refaz as viagens de Dopolobo utilizando os mesmos meios de transporte e hospedagem e, à medida que a pesquisa avança, começa a incorporar também as sensações experimentadas pelo biografado. Nos fundões do Rio Negro, na Amazônica, sente febre; no Reino da Espadócia, participa de uma batalha; na Chapada do Simples, é vítima de um acidente – assim como acontecera com Dopolobo.
No decorrer do trabalho, Lemoleme convive com dilemas internos, personificados em duas figuras absolutamente imaginárias que concebeu “para melhor encaminhar os argumentos e contra-argumentos em que se debatia sua pobre dialética”. Com Carlos Nochebuena, seu “analista”, conversa sobre questões afetivas, ao passo que Albert Spielverderber, seu “orientador”, serve-lhe de interlocutor para discutir tópicos ligados ao ofício a que resolveu se dedicar. “Tão importante quanto a obra, para conhecimento pleno de um artista, é entender-lhe a vida. A vida preenche as lacunas deixadas nos interstícios da obra”, pondera-lhe Lemoleme. “Como reproduzir, na letra fria dos parágrafos, os impulsos, as emoções, as retensões, as esperanças e os medos que constituem o estofo de uma existência?”, retruca Spielverderber, antes de vaticinar: “Toda biografia é uma fraude”.
Tais diálogos funcionam como “comentários” a respeito do tema que se desenvolve no romance, no qual as fronteiras entre biógrafo e biografado vão se esfumaçando cada vez mais. O sucesso do livro sobre Dopolobo lega a Lemoleme grande reconhecimento, suscitando especulações “se doravante o biografado será mais lembrado como autor ou como personagem”. Repentinamente alçado à fama intelectual, Lemoleme é também visto pela cidade na companhia da fotógrafa Felícia Faca, ex-mulher do protagonista de sua obra.
Vem, então, o contra-ataque: Dopolobo lança A catedral invertida, uma biografia de seu biógrafo. E, a exemplo dele, toma-lhe de empréstimo alguns fatos de sua vida. Da mesma maneira que Lemoleme lamentara, em entrevistas, a morte terrível do pai, apropriando-se de um drama originalmente inscrito na trajetória de Dopolobo, este inclui em seu currículo uma passagem profissional pelos Correios, em verdade vivenciada pelo primeiro.
No esteio de todos esses intrincados vínculos, embaralhados com engenho pelo narrador, Lemoleme finaliza o segundo volume da biografia de Dopolobo, do qual passa a fazer parte também como personagem. A catedral invertida “convertera-o num biógrafo enganchado na vida do biografado, assim como o peixe se engancha no anzol” e, nesse jogo de espelhos, o dois vêem-se investidos no duplo papel de autor e protagonista. Perde-se então – e irremediavelmente – a frágil nitidez que ainda havia entre esses dois pólos. Lemoleme e Dopolobo desenham e são desenhados, tecem e são tecidos, como as mãos compostas por Escher e – por que não? – como vida e arte, afinal.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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