Bartleby, o escrivão

Novas e sinuosas rotas de Bartleby

No plástico que envolve a embalagem, a advertência: ”melhor não ler”. Vencida a primeira etapa – removê-lo -, o curioso leitor precisará ainda descosturar a capa e refilar cada uma das 48 páginas da caprichada edição da Cosac & Naify para enfim ser apresentado a Bartleby, o escrivão. Revolucionário, autista, gênio, imbecil, niilista ou simplesmente inocente, Bartleby vem colecionando adjetivos e desafiando as certezas dos críticos desde 1853, quando foi publicada originalmente sua história, gerada na imaginação de Herman Melville. O feliz projeto gráfico de Elaine Ramos com que a novela chega às livrarias antecipa, entre tantas e tão plausíveis chaves de compreensão, a única evidência inquestionável a respeito do personagem: Bartleby é, sobretudo, duro na queda.
Além, evidentemente, de um enigma. Mesmo seu chefe, o advogado que narra as desventuras ”do mais estranho de todos os escrivães que jamais encontrou ou ouviu falar”, confessa a incapacidade de precisar uma definição que dê conta do funcionário: ”Creio que não existe material suficiente para uma biografia integral e satisfatória desse homem”. Apesar da ponderação, é com base no esboço construído por sua narração que o leitor poderá tentar vislumbrar um perfil possível do amuado escrivão que a partir de certo dia decide não mais cumprir as tarefas a ele solicitadas, retrucando-as passivamente com a frase que viraria bordão: ”Acho melhor não”.
Suas recusas não têm estridência. Não há raiva, impertinência ou grosseria nas respostas negativas. ”Parecia que analisava com cuidado cada palavra que eu proferia, compreendia o que eu queria dizer, não conseguia se opor à conclusão irresistível, mas, ao mesmo tempo, uma razão superior o levava a responder daquela forma”, observa o perplexo narrador, cuja indulgência cada vez maior permite que a situação perdure. Bartleby passa a morar no escritório, de onde não sai sequer para comer, e o advogado, sem encontrar uma solução exeqüível para o problema, resolve pedir demissão. A anti-ação do copista, além de desconcertar o chefe, provoca tremores internos no escritório, irritando seus colegas de ofício, Turkey, Nippers e Ginger Nut. O trio é o alvo preferencial do sarcasmo de Melville, que, como habitualmente, desenha os personagens com impressionante apuro, descrevendo minúcias físicas e psicológicas que chegam a suscitar imagens.
Em Bartleby, porém, o filtro do narrador vale-se da imprecisão para provocar vertigem. Ao informar ao leitor ”tudo o que sabe” com relação ao protagonista, o que seu chefe tenta veladamente é erigir um tratado sobre as próprias virtudes. ”Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor”, concede ele, auto-indulgente, numa das muitas passagens em que busca expor seus atos generosos. Mas o olhar condescendente diante das recusas do escrivão enfumaça uma falsa neutralidade, configurando um caso típico do ”narrador não confiável”, definição de Henry James bem lembrada por Modesto Carone no posfácio.
Bartleby já foi tomado como precursor do absurdo beckettiano, símbolo da luta anticapitalista e modelo de transtorno psíquico. Fascinou desde filósofos, caso de Gilles Deleuze, para quem o copista simbolizava a ”encarnação da fraternidade”, a escritores, como Jorge Luis Borges, que no célebre prólogo de edição anterior (lamentavelmente não republicado) aponta uma afinidade secreta entre as ficções de Melville e Franz Kafka, sustentando que a obra do escritor tcheco joga sobre Bartleby ”uma luz posterior”.
Curiosamente, também sobre Melville foi lançada uma luz posterior. Nascido em 1819, em Nova Iorque, o escritor apaixonou-se cedo pela navegação e passou parte da juventude viajando pelos mares do Pacífico. A experiência inspiraria seus primeiros livros, como Typee, a peep at Polynesian life or four months residence in a valle of the Marquesas, que relata os quatro anos de cativeiro sob o domínio de canibais, e serviria de alicerce para a composição da obra-prima Moby Dick. O autor, contudo, era considerado um mero cronista da vida marítima. Assim o classificava, já passados 20 anos de sua morte, a respeitada Enciclopédia Britânica, num nítido retrato do desdém que a crítica lhe dispensava. Hoje, quando o nome de Melville resplandece no olimpo do cânone literário, seu legado sofre com o opressivo vínculo ao romance mais célebre, que acaba embotando a apreciação das demais obras – pequeninas pérolas da literatura, como Benito Cereno e Billy Budd, que em boa hora voltam a circular no Brasil. Assim como em Moby Dick, os relatos que dão vida a esses livros encenam de forma alegórica e microscópica algumas de nossas dialéticas mais essenciais. Natureza e cultura, culpa e inocência, Deus e homem e, principalmente, Bem e Mal: eis a argamassa com que trabalhava Melville. É nesse labirinto simbólico que Bartleby abre novas (e sinuosas) rotas.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *