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Olaria x Madureira em Berlim

Olaria x Madureira em Berlim

Sobrou o Ricardinho, faltou o Alex. Juninho na reserva é inconcebível. Roberto Carlos não vai à linha de fundo desde a época em que usava relógio de camelô e chamar o Arouca não teria sido má idéia. Mas agora, com o leite já fervido, vale é que enfim a pasmaceira pré-Copa – maquiada pela efusão dos treinos lotados, a discussão sobre o melhor esquema (vamos de quarteto ou não vamos?) e a insuspeita troca da limonada pela caipirinha como bebida oficial dos suíços – dará lugar à peleja propriamente dita. Bola pro mato, portanto.
Engrosso a partir de hoje o coro da minoria – 130 milhões contra o resto – na torcida pelo hexacampeonato, com a disposição de trocar o melhor livro por um memorável Irã x Angola. Sim, porque há vida além da Seleção Brasileira, e nem sempre o embate mais interessante do campeonato acontece entre gigantes como Argentina e Holanda. Quem já assistiu a um Madureira x Olaria na Rua Bariri bem sabe quão tocante é ver aquele atacante trombador, com quem a bola não quis papo durante toda a partida, deslizar de carrinho pelo barro, esticar a rede adversária e correr, com o joelho esfolado e sem pensar em departamento médico, em direção à torcida que comemora como se fosse o título do Brasileirão. Nesses jogos, à margem da exuberância óbvia que exalam os gigantes das quatro linhas, a beleza nasce justamente do precário – do uniforme mal desenhado, da bizarra furada do zagueiro, da magreza sub-nutrida do lateral, do esforço comovente do camisa dez em honrar o número ao qual legou o rei Pelé uma mística inequívoca.
Guardadas as devidas proporções, na Alemanha também teremos esses anticlássicos por (falta de) excelência. Que venham, então, Inglaterra x Suécia, Alemanha x Polônia, Portugal x México, mas ainda Gana x Estados Unidos, Arábia Saudita x Tunísia, Togo x Coréia do Sul. Que venham Ronaldinho e Akwá, Zidane e Sterjovski, Crespo e Martinez, craques absolutos e pernas-de-pau de pelada no Aterro, que, com a compreensão previamente rogada aos nossos amores, povoarão nas próximas semanas as telas das TVs e de nossa imaginação. É tempo de Copa do Mundo, meus caros. E duro – duro mesmo – será apenas ficar um mês sem ver o Fluminense jogar.

 

* Crônica publicada no Jornal do Brasil


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