Almoço com patente imperial

Aos quarenta quilos de feijão com lombo, pé e orelha de porco, carne seca, bucho, rabo e paio, acompanhados de arroz, couve à mineira, laranja e caipirinha, Dulcinéia do Nascimento (foto), a responsável pela cozinha do Império Serrano, acrescenta um ingrediente especialíssimo.
– É o amor, meu filho. Nosso diferencial é que aqui nessa escola fazemos tudo com amor, do samba à feijoada – entrega ela, que está à frente das 12 cozinheiras auxiliares que abastecem os estômagos famintos da verde-e-branco de Madureira a cada terceiro sábado do mês.
O lugar comum que a declaração de Dona Déia poderia sugerir desfaz-se quando ela se põe a falar dos 10 anos em que freqüenta a agremiação e seus olhos, antes centrados no interlocutor, começam a passear pela quadra. As mãos afagam uma à outra, a voz ameaça fraquejar diante da simples menção à escola. O Império de hoje é mesmo um desafio à banalidade de certas expressões; talvez mais: um vigoroso exemplo de que muitas vezes o clichê exprime verdades genuínas. Porque se há um conceito abstrato que parece tomar forma em cada folião presente à feijoada é justamente este: um desmedido amor.
Amor que, como ressaltou Dona Déia, está no preparo do feijão, servido a R$ 7 a partir das 13h, numa comprida mesa onde cada um faz seu próprio prato. Que está também na maneira caprichosa com que Jorginho do Império – 40 anos de escola – organiza o evento, compondo um repertório que mescla clássicos sambas-de-enredo de Silas de Oliveira e Beto Sem Braço a canções de mestres como Nelson Cavaquinho, passando pelo suingue do Rei dos Bailes Bebeto e chegando ao sotaque rítmico à la Fundo de Quintal de Arlindo Cruz e Jorge Aragão. Amor que está sobretudo no clima familiar da quadra.
A feijoada integra um movimento que parece ter tomado a escola de modo definitivo. Ciente do enfraquecimento que a desarmonia interna provocava e de que acabara sendo umas das principais vítimas da auto profecia – quando denunciou que o luxo e o gigantismo das ”Superescolas de Samba S.A.” esconderia gente bamba -, o Império decidiu tirar energias de sua própria tradição. A contratação de um novo carnavalesco (Paulo Menezes) e de um casal de mestre-sala e porta-bandeira (Robson e Ana Paula), a renovação do contrato do puxador Nêgo e a escolha do promissor enredo sobre as festas religiosas brasileiras – léguas distantes de aventuras tresloucadas como a homenagem a Beto Carrero – alimentam a esperança de um bom desfile em 2006. Mas tais iniciativas pouco efeito teriam se, paralelamente, a escola não se reaproximasse de seu berço.
E isto de fato vem acontecendo, como evidenciam o projeto de um Centro de Memória, capitaneado pela vice-presidente cultural, Rachel Valença, e a retomada do Grito de Carnaval. Realizado há pouco menos de um mês, o evento reuniu o Jongo, a Velha Guarda, a harmônica bateria e uma multidão de convictos imperianos, que esbanjaram felicidade ao encontrar a quadra limpíssima e reformada e doaram 700 quilos de alimentos não-perecíveis, posteriormente entregues à comunidade da Serrinha. Jorginho do Império salienta que a idéia é manter o espaço movimentado de segunda a sábado e, para aqueles que torcem ou simpatizam com as históricas patentes imperiais, acena com uma programação que inclui roda de samba, shows, bailes dançantes e aulas de percussão, além dos ensaios normais. E, claro, a feijoada, cuja próxima edição acontecerá dia 16, tendo como atração a Velha Guarda. É preparar o apetite – e o coração.

 
* Artigo publicado no Jornal do Brasil


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