Pelo fundo da agulha

Dor e delírio em tempo e espaços condensados

Sempre que passa pela Travessa do Ouvidor, Antônio Torres pára por alguns segundos em frente à estátua de Pixinguinha para uma singela reverência. Mais do que simplesmente um pedido de benção ao mestre do choro, o gesto de Torres encerra uma poderosa metáfora sobre a própria obra. Desde “Um cão uivando para a lua” (1972), sua estréia na ficção, o escritor baiano radicado no Rio tenta jogar luz sobre um país que parece fora de foco. Através de personagens singularíssimos e desterritorializados, ele se detém sobre o que é peculiar, no específico, na cor local. Cor que, de uma forma ou de outra, em geral se dissipa.
Vida e obra se amalgamam quase que indissoluvelmente na trajetória de Torres, cimentada em 10 romances que a Record vem reeditando e agora ganham a companhia de “Pelo fundo da agulha”, com noite de autógrafos marcada para a próxima terça (19), na Livraria da Travessa. O novo título marca o realinhamento do autor com os elementos estéticos e temáticos dos trabalhos anteriores a seu recente passeio pela narrativa histórica, que rendeu “O Centro das nossas desatenções”, “Meu querido canibal” e “O nobre seqüestrador”. Paralelamente, o livro fecha a trilogia iniciada há 30 anos com “Essa terra” e que se seguiu com “O cachorro e o lobo”, lançado em 1997.
A trilogia centra-se sobre o êxodo nordestino sob o ponto de vista do protagonista Totonhim, originário do pequeno município de Junco, no sertão da Bahia, e cujo irmão, Nelo, emigrou para São Paulo, em percurso que espelha o do próprio autor. Em “Essa terra”, Totonhim relata a volta trágica do irmão ao torrão natal, que sob a pena de Torres ganha a dimensão mítica de uma Macondo, embora seja real e, tendo trocado de nome, esteja hoje inscrita no mapa como Sátiro Dias. No retorno cercado de expectativa após duas décadas vividas no “Sul Maravilha”, Nelo procura tatear a identidade que fora esgarçada ao limite na megalópole – e tropeça no impasse. Se a migração não lhe reembolsara o milagre prometido, Junco agora ficara inevitavelmente para trás. Sem lugar, resta-lhe o suicídio.
Em “O cachorro e o lobo”, é Totonhim, já radicado em São Paulo, quem pega a estrada rumo ao passado a fim de tentar desfazer, a partir do reencontro com o pai e com a topografia do lugar que virou lembrança, o nó da morte do irmão. A viagem a Junco contempla uma outra viagem, interior, e o narrador turva sua saudade em choros e sambas-canção que parecem fora de época, reminiscências ainda latejantes de um tempo que vai, apressado. “Em quatro semanas, acabara descobrindo que o lugar em que nascera já não lhe pertencia. Sequer lhe oferecia um galho em que se segurar”, lamenta o narrador. A aparente imobilidade das coisas escondia mudanças profundas. A exemplo de Nelo, Totonhim também perdera a cidade que um dia fora sua.
Situado mais de dez anos depois, “Pelo fundo da agulha” traz Totonhim recolhido a uma cama, entre o sono e a vigília, na companhia espaçosa da solidão. Recém-aposentado e envelhecido, longe da mulher e dos filhos, ele embarca em novo périplo, agora inteiramente introspectivo, no qual se reencontrará com a mãe. São Paulo, Junco, o pai, o primeiro amor, o irmão suicida, tudo virou apenas matéria de memória, que remexe, movediça e fantasmagórica, em seu delírio.
“Era outra a cidade, e outro o país, o continente, o mundo deste outro personagem, um homem que já não sabia se ainda tinha sonhos próprios”, anota o narrador, que atua como uma espécie de ‘consciência crítica’ do protagonista, chegando a intervir no enredo. Quanto Totonhim pretende carregar na dramaticidade para justificar a ausência da esposa, por exemplo, ele o repreende: “Vamos combinar que esta história da morte brutal da sua mulher é má literatura ou, no mínimo, uma solução fácil, senhor”.
Torres mais uma vez comprova sua destreza na construção de mundos complexos em tempo e espaços condensados. Como já havia acontecido em “Balada da infância perdida” (1986), cuja trama decorre durante uma única madrugada e limita-se ao apartamento do protagonista, o desvario de Totonhim dura apenas algumas horas e se dá no exílio de seu quarto. O isolamento que a aposentadoria agravou é “uma dor que puxa os restos das outras” e o leva a concluir que numa cidade como São Paulo “é possível você suportar tudo, quase tudo, menos a falta do que fazer”.
Um regresso a Junco não faz mais sentido – ele já o experimentara. Tampouco lhe apraz a dura poesia concreta das esquinas paulistanas. Na cidade natal, havia o sonho de partir. Na metrópole, o de voltar. “Agora era janeiro. De um ano qualquer, já numa década avançada do século XX, que ia inflando, inflando, como um balão de gás solto no ar, levando sua juventude dentro dele”. E Totonhim esvaziou-se.
Estrangeiro onde quer que esteja, ele não vislumbra a perspectiva de reatar os fios que se romperam e flerta com a possibilidade do suicídio, personificada numa bela (porém demasiado longa) citação de “O mito de Sísifo”, de Camus. Junco, e mesmo São Paulo, são agora cidades imaginárias, passíveis de existência tão-só na remontagem quase fictícia que as recordações engendram. Na tentativa de impedir sua extinção, ele se apega em desespero a tais imagens.
Torres pinta o crepúsculo de seu personagem em tons sombrios, matizando um Brasil que enjeita a padronização e, sob o silêncio opaco de milhões de testemunhas, também começa a desaparecer. Ao registrar em papel a história de Totonhim, o autor acaba por salvá-la do esquecimento e esculpindo a memória em pedra bruta – como aquela que, já lapidada, tomou a forma de Pixinguinha e parece tocar sax em plena Travessa do Ouvidor.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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