Os filmes da minha vida

As memôrias “pop” de Fuguet

Em “A câmara clara”, Roland Barthes mapeou dois elementos que agiriam sobre o observador de uma fotografia: o studium , compreendido como o aspecto “óbvio” da imagem, aquilo que se apresenta ao intelecto de forma direta; e o punctum , mecanismo que aciona, no extracampo, afetos particularíssimos, capazes de machucar, emocionar, fascinar, pungir. É justamente essa substância caudalosa e obtusa que, deslocada para o campo da sétima arte, atravessa os 50 títulos que compõem “Os filmes da minha vida”. O segundo romance do chileno Alberto Fuguet expõe o dolorido balanço que seu protagonista, o sismólogo Beltrán Soler, traça sobre a própria existência a partir da notícia da morte do avô, que lhe inspirou a carreira.

As reminiscências da infância nos EUA e da adolescência no Chile, com tudo que as envolve — idiossincrasias familiares, dilemas ontológicos, dores e alegrias do amor — são despertas pela lembrança de produções a que assistiu. De clássicos como “A felicidade não se compra” a bobagens como “Os dobermans atacam”, os filmes desfiam seu novelo de recordações; eles são as madeleines de Beltrán.
Importam menos, portanto, o enredo ou a qualidade das produções, e mais o seu entorno, as situações que bordejaram o contato com as películas, rigorosamente fixado em local e data. Em alguns casos, os relatos são esboçados a partir do testemunho alheio, como acontece com “A história de Elza”, o primeiro filme da lista. Beltrán tinha apenas 2 anos quando o viu, num drive in . Ele então se imagina no carro, junto com os pais e a irmã Manuela, que, saberemos depois, sequer havia nascido. É uma pena que Fuguet não explore com mais profundidade esses lapsos, que poderiam enriquecer a narrativa ao inventariar o caráter transversal da memória, a fusão que ela arregimenta entre o presente e um passado meio real, meio construído.
A trama enredada através dos filmes é enriquecida com a reprodução de e-mails, a descrição de diálogos telefônicos, anotações esparsas e até um currículo do protagonista. Apesar dessa fragmentação, há certa linearidade na história narrada por Beltrán, sob a qual paira por todo o tempo uma analogia simbólica entre a explosão telúrica do protagonista e o ofício que exerce: o estudo dos abalos sísmicos. “Os terremotos são a maneira que a terra tem de se livrar de seus fantasmas”, costumava dizer seu avô. A assertiva sintetiza a condição do próprio Beltrán, que aparentemente falhou naquela que acreditava ser paralelamente a missão e o pior defeito de um sismólogo: ver além, procurar fendas, detectar falhas e resistências para prever e evitar tragédias.
A escolha dos filmes — a maioria bastante conhecida — e o sotaque pop do livro refletem uma das principais facetas da literatura de Fuguet. O autor lidera o movimento McOndo, germinado numa revista publicada na Espanha em 1996, e cujo nome remete, com ironia, à mítica cidade imaginada por Gabriel García Márquez. O McOndo proclama o fim do realismo mágico e a luta contra o clichê de uma América Latina folclorizada. Tal crítica ecoa em “Os filmes da minha vida” fundamentalmente quando o escritor explora o choque cultural que atinge Beltrán ao retornar a Santiago depois dos anos vividos na Califórnia. O olhar de estranhamento que lança em direção à cidade, o desejo de não “ser parte daquilo”, a dificuldade inicial com o idioma, tudo isto ressoa no romance, chegando às raias do satírico no episódio em que o protagonista registra o embevecimento dos compatriotas ao se sentirem “parte do mundinho de Hollywood” só porque o astro Yul Brynner casara-se com uma chilena.
Ao expor a trajetória e os dilemas de Beltrán através de produções exibidas em todo o mundo, o autor efetiva sua crença numa “nova sensibilidade artística”, característica de “almas globais” que partilham produtos culturais comuns, como músicas e programas de TV. Estende-se a essas esferas a máxima, constante do livro, de que “todos os filmes foram importantes ao menos para alguém em determinado momento, por algum motivo” — e aí voltamos ao punctum identificado por Barthes.
Assim, uma produção-catástrofe como “Terremoto” pode remeter Beltrán, além das impressionantes seqüências de destruição, para o instante em que, ao enxergar a tez transparente do avô, compreendeu que ele estava velho. Os tesouros magníficos e a enormidade do oceano em “O fundo do mar” tornam-se pouco diante do plano em detalhe de Jacqueline Bisset nadando com os mamilos endurecidos sob a camiseta molhada. A frase “Não estamos sozinhos”, perdida no cartaz de “Contatos imediatos do terceiro grau”, pode lembrá-lo de que o pai partira e, sim, ele está sozinho. E a vida banal de um jogador de tênis, em “Amor em jogo”, fazê-lo enfim perceber que os filmes — e decerto também os livros — emocionam as pessoas sobretudo quando falam sobre elas mesmas.
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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