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Estrela de Madureira

Estrela de Madureira

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  • Editora Record
  • 2024
  • ISBN 9786555878882
  • Português
  • Capa Tipo Brochura
  • 182 páginas de miolo + 32 páginas de encarte com imagens

Não, não foi só Madureira que chorou de dor a morte de Zaquia Jorge em 1957. Copacabana e a praça Tiradentes, os outros mundos que ela dominou, também sentiram sua perda — e, logo onde, numa praia da distante e quase lunar Barra da Tijuca. Na verdade, o mundo de Zaquia — mulher, atriz, empresária de teatro, personalidade pública — foi o teatro de revista, o Carnaval, as primeiras páginas dos jornais, as revistas de escândalos e todo o Rio dos anos 40 e 50.

Marcelo Moutinho traz de volta esse mundo em Estrela de Madureira, uma biografia que, finalmente, nos remete à Zona Norte, território quase esquecido no mapeamento que se tem feito da vida artística e cultural carioca. E ninguém mais equipado do que Marcelo para fazê-lo.

A terra queria Zaquia. O mar, também. Todos queriam Zaquia. Mas adivinhe quem ganhou: trazida de volta à areia, “A voz do destino/ Obedecendo ao Divino/ A sua estrela chamou”.

RUY CASTRO

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Tentar definir a cidade do Rio de Janeiro a partir de uma singularidade confortável, capaz de encapsulá-la em um lugar de fixidez identitária coerente, é tarefa impossível. As cidades são múltiplas e produzem incessantemente cultura — um conjunto de práticas e elaborações simbólicas dinamizadoras de modos de existência: maneiras de falar, vestir, comer, rezar, nascer, morrer, chorar, festejar, envelhecer, dançar, cantar, silenciar, gritar. Além de feitas de memórias, cidades também se caracterizam pelos seus lugares de esquecimento, territórios do efêmero. Os lugares de memória são, ao contrário, territórios de permanência; espaços inventados pelas pessoas em suas geografias de ritos. No fim das contas, cidades parecem escolher recordar algumas coisas e esquecer outras. Investigar as razões do jogo encruzilhado entre lembranças e rasuras talvez seja a chave para entendê-las melhor. Todas essas questões me ocorrem quando percorro as páginas da biografia de Zaquia Jorge escrita por Marcelo Moutinho. Até que ponto — para me valer de uma expressão cara a historiadores — a trajetória exemplar de Zaquia oferece chaves para abrir as portas de um Rio de Janeiro que parece ainda trancafiado no mito da cidade maravilhosa? Quando simplesmente não apaga ou ignora as memórias dos subúrbios, a tal cidade maravilhosa parece admitir se aproximar delas com repúdio, alguma condescendência espantada ou, o que talvez seja pior, simpatia pitoresca.

Ao reconstruir a trajetória de Zaquia, Moutinho acaba formando um mosaico em que aparecem Madureira, o teatro de revista brasileiro, as sociabilidades suburbanas, a música, o cinema, a cidade e o protagonismo da mulher em uma sociedade e um ambiente em que a misoginia nadava de braçada. Não bastasse isso, o livro retira — é importante frisar — do esquecimento a personagem que, apesar da vida curta, entranhou- se nas memórias do lugar, unindo o rigor histórico, o domínio crítico da bibliografia e a escrita fluente do escritor premiado. Do ponto de vista pessoal, confesso que o livro me remeteu a uma infância, na década de 1970, em que Zaquia Jorge aparecia de duas formas distintas. A primeira, como assombração capaz de assustar o menino. Era recorrente como um ritual que, na eventualidade de ir à praia da Barra da Tijuca com a família, eu escutasse a sentença de minha tia: a Zaquia se afogou aqui. Tempos depois, percebi que essa era a maneira encontrada pela tia para exercer uma espécie de pedagogia preventiva do medo que disciplinasse as crianças. Para pedir que tivéssemos cuidado na praia, ela invariavelmente evocava a tragédia da vedete. A segunda remissão se refere ao refrão do polêmico samba do Império Serrano que homenageou Zaquia Jorge no Carnaval de 1975. Como um detetive, Moutinho revela no livro o que aconteceu naquela ocasião. Eu me limito a indicar a leitura e dizer que o verso “baleiro, bala, grita o menino assim” — para o menino que fui e vez por outra dá as caras — ocupa um lugar afetivo bem maior que o “trem de luxo parte”, do samba derrotado na disputa do Império e consagrado depois na sublime interpretação de Roberto Ribeiro. Eu sou do time do baleiro, Moutinho escreveu um livro fundamental e estamos conversados!

LUIZ ANTÔNIO SIMAS

(…) Ao longo dos breves 33 anos de existência, Zaquia trabalhou no centro, emCopacabana, Ipanema e Madureira, onde encontrou a si mesma. Apesar da relativa invisibilidade, mantém entre a população mais idosa, sobretudo a que morou ou mora no subúrbio, a dimensão de mito. Sua imagem, fixada no rosto jovem e altivo pela morte precoce, parece ter sobrevivido ao tempo. Mas as músicas que a homenageiam, e continuam a ser cantadas ao longo do país, já não costumam ser a ela relacionadas. Talvez porque não haja, nas letras, menção ao seu nome. A própria família tem poucas reminiscências: não há fotos de Zaquia na infância ou na adolescência, e as informações que guardam se limitam ao perfil público.

Em curto obituário publicado no Correio da Manhã dois dias após o falecimento da atriz, o crítico Paschoal Carlos Magno conta que ao sair do velório passou a ruminar certa passagem do livro Itinerário de Pasárgada. Trata-se do trecho em que Manuel Bandeira cita seu colega Mário de Andrade. Diz o poeta que, não acreditando ser um grande criador, “desses que permanecem vivos depois da morte”, Mário se sacrificara para aspirar ao papel de suscitar inquietações, agenciar movimentos. Magno então lembra Zaquia: “Era bonita. Tinha talento. E o companheiro lhe dera fortuna. Mas não acreditou que tivesse real talento. Fora melhor amparar o dos outros. Fora melhor criar seu teatro para que servisse, além de celeiro de vocações, de alegria para o povo mais esquecido, o povo dos subúrbios.” A esse propósito, ela destinou toda a energia e o dinheiro que tinha. Devotou sua vida.(…)

Há algum tempo, quando tudo isso começou, Marcelo Moutinho me perguntou de quem havia sido a ideia de homenagear Zaquia Jorge no enredo do Império Serrano em 1975. Não hesitei em responder que o enredo fora sugerido pelo carnavalesco Fernando Pinto e apenas aceito pela diretoria da escola.

Fernando era um homem ligado às artes da dramaturgia e, como tal, queria reverenciar a vedete que acreditou que a população do subúrbio merecia ter um teatro para frequentar. Mais ainda: precisava disso. O tempo mostrou que não estava errada: o Teatro Madureira, aberto na década de 1950, deu certo e entrou para a história como a primeira casa de espetáculos fora do circuito da elite carioca.

A leitura do trabalho de Marcelo, agora concluído, me revelou algo que eu não sabia: o quanto o Teatro Madureira a tornou conhecida e querida pela gente do lugar. Não houve exagero no samba “Madureira chorou”, lançado para o Carnaval de 1958, logo após sua morte trágica.

Menos de vinte anos separam seu desaparecimento e a homenagem do Império Serrano. Não é muito tempo. É possível que os dirigentes da escola na década de 1970 tivessem conhecido e admirado aquela que “fez tanta gente sonhar”, como cantou nosso samba-enredo. Por isso, peço licença para retirar minha certeza: quem sabe partiu de um deles a ideia da homenagem?

Sem dúvida Marcelo, como tantas outras pessoas, só tomou conhecimento da existência dessa mulher extraordinária, tão à frente do seu tempo, que brilhou nos palcos de teatro, nas telas de cinema e também como ousada empresária, porque ela foi enredo de sua escola do coração. Generosamente, ele compartilha aqui a história que pesquisou a fundo, o que mostra mais uma vez que bons enredos, consistentes e bem narrados, nos tornam mais ricos e mais brasileiros.

RACHEL VALENÇA

Conheça Zaquia Jorge, vedete centenária, que ganha biografia

Marília Monitchele

Em 22 de abril de 1957, o Rio de Janeiro chorava: Zaquia Jorge morria, aos 33 anos, em razão de um afogamento, na inóspita praia da Barra da Tijuca. Hoje, é bem possível que o nome, tão singular quanto a personagem, desperte pouca familiaridade entre os apreciadores do teatro, mas naquele fim de abril Zaquia ocupou as manchetes dos principais jornais do Brasil. Mais de 4 mil pessoas compareceram ao seu velório e até mesmo Juscelino Kubitschek, então presidente da República, se fez representar por meio de seu ajudante de ordens. A tragédia despertou rumores ofensivos na imprensa marrom e, num encontro de acasos, precedeu a festa, marcada para o dia seguinte, e celebraria os primeiros cinco anos do Teatro de Madureira, cuja fundação fez de Zaquia uma das figuras mais emblemáticas da vida cultural da cidade.

Entre os anos 1940 e 1950, Zaquia era uma estrela em ascensão — embora isso pareça muito distante do que significa ser uma celebridade nos dias atuais. Ingressou no Teatro de Revista, gênero popular na então capital federal, e assumiu diversas funções no competitivo mundo das vedetes, até que se tornou uma. Contracenou com grandes nomes como Dercy Gonçalves e Oscarito e, muitas vezes, saiu dos palcos para as telas, explorando o cinema, novo reduto entre as antigas artes. Por fim, fundou seu próprio teatro, mas não nas ruas badaladas do centro ou da crescente zona sul, Zaquia escolheu o subúrbio, algo inédito na época. Nascida em 6 de janeiro de 1924, a atriz ganhou finalmente sua primeira biografia, um feliz presente no ano de seu centenário.

O desafio de contar a história esquecida ficou a cargo de Marcelo Moutinho, vencedor do prêmio Jabuti em 2022 com o livro de crônicas  “A lua na caixa d’água”, que agora lança “Estrela de Madureira: a trajetória de Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Record, R$ 84,90).

“Escrever esse livro foi como escavar no meio do nada”, diz. Isso porque quase nada sobrou da artista. Antes da biografia, as referências se limitavam ao samba “Madureira Chorou”, sucesso no carnaval de 1958, e “Estrela de Madureira”, eternizado na voz de Roberto Ribeiro.  Os sambas prolongaram sua memória e fizeram dela uma espécie de mito no bairro do subúrbio carioca, mas para além disso, pouco ficou. Seu teatro, na rua Carolina Machado, hoje é uma loja de brinquedos e não há estátuas ou placas que lhe prestem algum tributo.

A solução foi vasculhar os arquivos públicos, uma missão que levou cinco anos, atrapalhada pela pandemia. O livro não destaca apenas seu lado artístico, mas também sua atuação empreendedora em uma área carente de aparelhos culturais. “Ela tinha consciência política do que estava fazendo. Aquela era o único teatro em uma área periférica em todo o Brasil”, afirma o biógrafo.

Apesar disso, a chegada de Zaquia em Madureira foi recebida com desconfiança. Uma atriz divorciada que usava calças não era necessariamente bem vista no Brasil da metade do século passado. Carismática, Zaquia tratou de virar o jogo. Ela convencia os locais a atuarem em suas peças, dava descontos no comércio e criou uma rede de apoiadores em torno do empreendimento. Esquecida pela cidade, a memória de seus feitos continua a vagar entre os antigos de Madureira. “Eu não sei dizer porque uma mulher como ela acabou apagada da história do Rio de Janeiro, mas a minha tentativa com o livro é brecar esse processo”, resume Moutinho.

Livro resgata a trajetória de Zaquia Jorge, a vedete que venceu o machismo do Rio nos anos 50

Marcelo Moutinho conta a história da estrela que abriu salas de espetáculos em Ipanema e Madureira, cuja morte por afogamento comoveu o Brasil, em 1957

Augusto Pio

Mulher à frente de seu tempo, a atriz e empresária fluminense Zaquia Jorge (1924-1957) tem sua história resgatada pelo jornalista Marcelo Moutinho no livro “Estrela de Madureira” (Editora Record). Ícone da cultura suburbana carioca, a vedete faria 100 anos em 2024.

O autor soube da existência de Zaquia por meio das canções “Estrela de Madureira” (Acyr Pimentel e Cardoso), grande sucesso na voz do cantor Roberto Ribeiro, e “Madureira chorou”, de 1958, samba dedicado à artista logo depois de sua morte, composto por Júlio Monteiro, marido dela, e Carvalhinho.

“Curiosamente, nenhuma das duas canções menciona o nome de Zaquia”, observa o biógrafo. Moutinho, que morava em Madureira, conta que sempre ouviu a Zona Norte carioca falar da artista “como uma espécie de mito”, que teve a coragem de abrir teatro numa região do Rio de Janeiro onde não havia esse tipo de equipamento. Ela morreu afogada, aos 33 anos, na Barra da Tijuca.

Não foi fácil a missão de resgatar Zaquia do esquecimento. “Não achei nada sobre ela”, lamenta o jornalista.

“Só sabiam que era a vedete que abriu um teatro em Madureira e morreu jovem. Não sabiam que ela trabalhou na companhia de Walter Pinto, na Praça Tiradentes, no auge do teatro de revista, que contracenou com Dercy Gonçalves e Oscarito e trabalhou nos teatros de Copacabana”, observa.

Moutinho chama a atenção para a migração do teatro de revista. Grandes espetáculos da Praça Tiradentes, no Centro do Rio, foram para pequenas casas da Zona Sul. “Por isso chamaram de teatro de bolso”, afirma.

A vedete arrendou uma sala de teatro em Ipanema, onde morava, em seus primeiros passos como empresária. Surpreendeu-se com a pujança de Madureira quando foi até lá para o aniversário de uma amiga numa churrascaria. Notou que lá havia intenso comércio, duas escolas de samba (Portela e Império Serrano), agência do Banco do Brasil e filiais de lojas conhecidas. “É aí que Zaquia percebe que havia espaço para se criar um teatro em Madureira”, conta o autor.

A jovem empreendedora enfrentou resistência de quem não acreditava na viabilidade de teatros na Zona Norte e também de moradores conservadores do bairro, avessos a vedetes do teatro de revista. “Na época, mulheres não se maquiavam e nem usavam calças compridas em Madureira, somente vestidos. As vedetes maquiadas de tamanco e calças compridas causaram espanto. Moradores acreditavam que aquelas mulheres estragariam suas famílias”, comenta o autor.

Moutinho explica que Zaquia, com muita habilidade, passou a frequentar o bairro, a conversar com os moradores, a almoçar por lá, a fazer convênios com o comércio local e a frequentar a quadra da Portela. “Ela foi quebrando as resistências até transformar o teatro em um grande sucesso. Infelizmente, quando a casa estava no auge, ela morreu.”

Em 1957, o trágico afogamento de Zaquia causou comoção. “Todos os jornais do Rio de Janeiro deram espaço de capa para falar da sua morte. Reproduzo no livro as manchetes. Mais de quatro mil pessoas foram a seu funeral, o presidente Juscelino Kubistschek mandou um representante oficial ao velório dela”, conta Moutinho.

De acordo com o biógrafo, Zaquia Jorge foi um exemplo de protagonismo feminino. “Esta mulher de vinte e poucos anos se aventura como empresária na área de teatro, com todo o machismo que havia na época, e consegue ser bem-sucedida. Ela teve um primeiro casamento e se desquita para seguir a carreira artística, porque o marido não aceitava a situação. Deixa a guarda do filho com ele e faz questão de retomar o nome de solteira. Já havia ali uma ideia de autonomia muito grande”, observa Moutinho.

Em 1975, o Império Serrano a tirou do limbo, lançando o enredo “Zaquia Jorge, vedete do subúrbio, estrela de Madureira”.

Zaquia Jorge participou dos filmes “Sob a luz do bairro”, “Fantasma por acaso” e “Caídos do céu”, todos lançados em 1946, “Pinguinho de gente” (1949), “A serra da aventura” (1950), “Aguenta firme, Isidoro” (1951) e “A baronesa transviada” (1957).

A estrela que fez Madureira chorar

Olga de Mello

Se mostrar corpo em biquínis sumários – para os padrões dos anos 1950 — exigia ousadia, abrir um teatro e encenar peças populares em Madureira era quase um atestado de insanidade. Consagrada como atriz e vedete de teatro de revista, a carioca Zaquia Jorge não hesitou em instalar no prédio de uma extinta loja de ferragens em sala de espetáculos para quase 500 espectadores, em 1952. A trajetória bem-sucedida foi interrompida, cinco anos depois, pela morte de Zaquia, afogada no mar da Barra da Tijuca, numa segunda-feira, único dia de folga dos artistas, então.

A mulher à frente de seu tempo foi inspiração para alguns sambas, um deles, “Madureira Chorou”, de Carvalhinho e Júlio Monteiro, lançado no Carnaval de 1958. Tema do desfile do Império Serrano em 1975, Zaquia seria lembrada pela canção de Acyr Pimentel e Cardoso, “Estrela de Madureira”, derrotada na disputa de samba-enredo da escola, e gravada por Roberto Ribeiro. Apesar do sucesso das músicas, Zaquia Jorge caiu no ostracismo, do qual é resgatada com a biografia assinada pelo jornalista Marcelo Moutinho “Estrela de Madureira – A trajetória da vedete Zaquia Jorge por quem a cidade chorou” (Record, R$ 84,90). Criado no bairro, ele passou a infância ouvindo os sambas, e diz que o livro nasceu do contraste “entre a mulher que inspirou duas músicas de grande sucesso, que foi enredo de escola de samba, e o esquecimento que cobre sua história”.

Moutinho considera a biografia seu primeiro trabalho de não-ficção, embora tenha coordenado a edição de “Canções do Rio”, uma compilação sobre bairros retratados na música popular. Na pesquisa de cinco anos, buscou manter-se fiel ao material encontrado, sem deixar que “a prática do ficcionista maculasse o rigor histórico”. O resultado é um relato jornalístico quase severo: “É muito tentador, para quem escreve ficção, completar com a imaginação os ‘espaços vazios’ da pesquisa. Evitar essa armadilha foi, desde sempre, uma premissa para mim. Isso não significa que não tenha recorrido a estratégias clássicas da ficção, como abrir a história com uma cena impactante – no caso, a morte da protagonista”, conta o escritor, que lança o livro neste sábado (6) no bar e sebo Al Farabi (Rua do Mercado, 34), com samba a cargo da Velha Guarda do Império Serrano.

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Marcelo Moutinho: ‘Aos olhos das pessoas, Zaquia será para sempre uma mulher jovem’

A interrupção abrupta da consagrada carreira de Zaquia Jorge talvez explique os anos de ostracismo que se seguiram alguns anos depois de sua morte. Em conversa com o Correio da Manhã, o jornalista Marcelo Moutinho explica sua relação com a personagem que escolheu biografar. “Lá em casa, os sambas “Madureira Chorou” e “Estrela de Madureira” giravam muito na vitrola. Meu pai costumava comentar que aquelas duas músicas haviam sido compostas para uma vedete que abriu um teatro no bairro”, recorda o autor, anunciando que pretende resgatar outras figuras esquecidas em seus próximos projetos editoriais.

Por que Zaquia Jorge caiu totalmente no esquecimento, quando outras vedetes que não chegaram a ser empreendedoras, entre elas Mara Rúbia e Virginia Lane, continuaram sendo lembradas?

Marcelo Moutinho: Não tenho como cravar, mas cogito que seja pelo fato de ter morrido muito jovem. Quando ela se afoga no canal da Barra, tem apenas 33 anos. Então a carreira foi curta, cerca de 13 anos, e também encerrada de forma abrupta. Por outro lado, é curioso pensar como acabou se fixando uma imagem que não envelhece. Aos olhos das pessoas, Zaquia será para sempre uma mulher jovem.

Como você chegou a Zaquia? Já conhecia sua trajetória?

Passei minha infância em Madureira e meus pais era grande fãs do Roberto Ribeiro. Então, lá em casa, os sambas “Madureira chorou” e “Estrela de Madureira” giravam muito na vitrola. Meu pai costumava comentar que aquelas duas músicas haviam sido compostas para uma vedete que abriu um teatro no bairro. São informações que ainda hoje pairam sobre o imaginário dos moradores do subúrbio, mas a história de Zaquia, apesar disso, é bem pouco conhecida. A ideia de escrever o livro nasce dessa constatação.

Mulher jovem e empreendedora, Zaquia se tornou querida em Madureira, tanto pela simpatia quanto pela generosidade. Era marketing ou algo natural?

Totalmente natural. Talvez por ser uma mulher nada arrogante, e também por ter se identificado com os moradores, a relação de empatia logo se impôs às reações refratárias iniciais. Ela costumava almoçar em uma pensão vizinha ao teatro, passeava pelo comércio, disputava jogos de purrinha nos botecos e frequentava a Portelinha, antiga sede da Portela (o próprio Monarco conta isso). Também ajudava financeiramente as pessoas, como mostram dois casos relatados no livro.

Zaquia teria pressentido o ocaso do teatro de revista, que aconteceria nos anos 1960, ou aventurou-se no empreendedorismo por ambição de criar algo para o teatro?

Certamente a popularização da televisão é parte fundamental do declínio do teatro de revista. Além disso, eram espetáculos muito custosos, com orquestra, grande corpo de artistas… Aos poucos, foram se tornando inviáveis. Não me parece que a opção por se tornar empresária tenha a ver com um suposto ocaso da profissão. Quando observamos a trajetória dela, chama a atenção a admiração que cultivava pelo mítico produtor Walter Pinto, que levava multidões à Praça Tiradentes. É claro que não posso falar com total certeza, mas diria que vem muito mais de um desejo pessoal de ter a própria companhia.

Como foi a relação do Império e da Portela com Zaquia numa época em que escolas de samba eram um fenômeno quase exclusivamente suburbano?

Quando ela abre seu teatro, o Império Serrano era uma escola muito recente. Tinha apenas quatro anos de vida. A Portela, por outro lado, há tinha bastante estrada. Zaquia frequentava os ensaios na antiga Portelinha, estava sempre lá. Nas peças do Madureira, também procurava tratar de temas ligados ao samba. E chegou a ceder profissionais do teatro, como os figurinistas, para ajudar na produção dos desfiles das duas escolas.

A biografia é uma volta sua ao jornalismo? Há outras figuras esquecidas que você vai resgatar?

Sim. O Ruy Castro disse certa vez que o passado é um país estrangeiro. Visitar essa país tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo foi trabalhoso, mas também uma experiência incrível. Não vou deixar de publicar seletas de contos e crônicas, nem livros infantis. A carreira como ficcionista seguirá seu rumo. Mas, agora, em paralelo à não ficção. Pretendo resgatar outras figuras esquecidas e já há, inclusive, uma pesquisa em andamento, ainda que de modo bem incipiente.

‘Estrela de Madureira’: biografia resgata trajetória da vedete Zaquia Jorge

Nara Boechat

Zaquia Jorge foi uma figura marcante na vida cultural do Rio dos anos 1940 e 1950. Trabalhou na companhia de teatro de Walter Pinto (1913-1994), brilhou no mundo das vedetes, contracenou com Dercy Gonçalves (1907-2008) e Oscarito (1906-1970), fundou o próprio teatro e muito mais. No ano em que chegaria ao centenário, a artista é tema do mais novo livro do escritor e jornalista Marcelo Moutinho, vencedor dos prêmios Jabuti, em 2022, e Clarice Lispector, em 2017, marcando sua estreia no gênero das biografias.

“Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou”, da Editora Record, retrata a história da atriz e empresária, que morreu aos 33 anos, em 1957, afogada na Praia da Barra da Tijuca. Sua morte trágica inspirou o samba “Madureira chorou”, sucesso do Carnaval de 1958. Em 1975, a artista tornou-se tema do enredo do Império Serrano. A composição vencedora não obteve muito sucesso, no entanto, um dos samba-enredo concorrentes naquele ano acabou sendo gravado por Roberto Ribeiro com estrondoso êxito, com o título de “Estrela de Madureira”.

Marcelo Moutinho conta em entrevista ao O DIA que a ideia do livro nasceu da intenção de tirar Zaquia da invisibilidade e torná-la conhecida. “Passei minha infância em Madureira e meus pais eram grandes fãs do Roberto Ribeiro. Tanto ‘Madureira chorou’, quanto ‘Estrela de Madureira’ giravam bastante na vitrola lá de casa. Lembro de meu pai comentar recorrentemente que os dois sambas homenageavam uma vedete chamada Zaquia Jorge. Mas quando fui tentar saber mais sobre a sua história, logo percebi que as informações eram parcas. As pessoas, quando muito, sabiam do antigo teatro, ou da tragédia nas águas da Barra. A incrível trajetória da vedete, contudo, permanecia um mistério. Isso apesar de, no momento de sua morte, ela ter levado uma multidão ao velório e merecer destaque nas capas de jornal de todo o país”, relembra.

O autor acrescenta que um dos grandes desafios na produção da biografia foi fazer a pesquisa durante a pandemia da covid-19, quando as instituições que guardam acervos sobre a história do teatro brasileiro estavam fechadas. “Outra dificuldade se deu em razão da falta de relatos orais. Como Zaquia morreu em 1957, infelizmente, quase todas as pessoas com quem conviveu já se foram. Mesmo seus familiares, que me atenderam com extremo interesse e gentileza, pouco sabem sobre a vida dela. O que, na verdade, só reforça a importância do livro”, explica.

Após participar da cena cultural na Zona Sul do Rio, Zaquia fundou o Teatro Madureira, na Rua Carolina Machado, nos anos 1950, destacando, pela primeira vez, a arte na Zona Norte. Para Marcelo, isso reflete no pioneirismo da mulher que se torna empresária ainda jovem. “Ela ajudou a promover uma mudança comportamental em Madureira e nos bairros próximos”.

O escritor espera que o livro inspire os leitores. “Se a história de Zaquia servir de inspiração a outras histórias, ainda a serem escritas, já estarei feliz”, conclui.

Biografias recuperam Tia Amélia e Zaquia Jorge, ícones da cena musical carioca

Livros retratam duas mulheres talentosas e modernas que enfrentaram preconceito e se popularizaram nos anos 1950

Álvaro Costa e Silva

Duas mulheres talentosas e modernas, que enfrentaram preconceito e imposições culturais, foram populares na mesma época, os anos 1950, agora são resgatadas do esquecimento em duas biografias: “Tia Amélia: O Piano e a Vida Incrível da Compositora”, de Jeanne de Castro, e “Estrela de Madureira”, de Marcelo Moutinho.

Com subtítulo “A Trajetória da Vedete Zaquia Jorge, por Quem Toda a Cidade Chorou”, o trabalho de Moutinho é um capítulo do livro que Bentinho, já metamorfoseado em Dom Casmurro e morando no Engenho Novo, prometia escrever sobre a história dos subúrbios cariocas.

A grande cartada de Zaquia Jorge foi fazer o caminho inverso da fama e trocar Ipanema e Copacabana por Madureira. Mas antes ela teve de se tornar uma vedete completa.

O autor explica os degraus do rebolado: a “girl” ocupava o fundo do palco; as “soubrettes” tinham direito a cantar e dançar um pouquinho; antes do estrelato com todas as luzes e o nome em destaque nos letreiros e cartazes passava-se pelo estágio de “vedetinha”. Todas tinham de se preocupar com os “corujas”, que as abordavam para oferecer carona ou dinheiro, na expectativa de uma noite de sexo.

Driblando o ambiente machista e as adversidades financeiras, Zaquia venceu. Atuou ao lado de Dercy Gonçalves, foi pioneira do teatro de revista, participou de chanchadas e abriu uma casa de espetáculos na zona sul.

Quando migrou para Madureira, instalando um teatro em frente à estação de trem, enfrentou uma sociedade conservadora. Lá, vedete era sinônimo de outra profissão. Mas superou a caretice, valendo-se de diplomacia e tino comercial e, sobretudo, espalhando diversão.

Sua morte, aos 33 anos por afogamento na Barra da Tijuca (ela havia bebido algumas doses a mais de uísque) originou um clássico samba carnavalesco, “Madureira Chorou”, lançado em 1958, um ano após a tragédia.

A investigação de Marcelo Moutinho —que consultou arquivos com roteiros de peças, desvelou filmes raros e varejou coleções de revistas do arco-da-velha— reconstitui os bastidores, em 1974, da disputa do samba-enredo do Império Serrano em homenagem à artista.

Gravado por Roberto Ribeiro, “Estrela de Madureira”, que ficou em segundo lugar, alterou a história do gênero, tornando-se mais lembrado que o campeão.

Enquanto Zaquia Jorge alegrava os suburbanos, Tia Amélia espantava a vanguarda musical com seu piano cheio de balanço e pegada jazzística.

Em 1953, aos 56 anos, com visual de “velhinha” —corpo rechonchudo e cabelos presos em coque, camisa de botão escura fechada até o pescoço—, ela conseguia ser uma das maiores atrações do enfumaçado Clube da Chave, boate de grã-finos que funcionava no Posto 6 de Copacabana.

Apresentando-se ao lado da turma da pesada —Tom Jobim, Dolores Duran, Johnny Alf, João Donato, João Gilberto—, Tia Amélia aproveitava para mostrar suas composições, como “Chora Coração”, e colecionar admiradores, de Sérgio Porto a Ary Barroso, passando pelo maestro Radamés Gnattali. Encantado, Vinicius de Moraes falava “no equilíbrio do complexo melódico, na sabedoria instintiva da harmonização”.

O que pouca gente sabia é que aquela senhorinha simpática não era uma revelação tardia. O nome artístico escondia a pernambucana Amélia Brandão Nery, que na década de 1920 largou não só o marido como a vida num engenho de açúcar, carregou os três filhos e foi tentar a sorte com a música no Recife.

Com seu “piano assombroso”, na definição de Ruy Castro, excursionou pelo Brasil, América Latina e Estados Unidos, trocou figurinhas com Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Jacob do Bandolim.

A partir do Clube da Chave e da amizade com a cantora Carmélia Alves, reinventou uma segunda carreira no disco e na televisão, entre 1958 e 1967. Nas emissoras Rio, Tupi e Cultura, comandou dois programas de sucesso: “Velhas Estampas” e “Tia Amélia, Suas Histórias e Seu Piano Antigo”.

A pianista morreu em 1983, aos 86 anos. Como homenagem póstuma, ganhou de Egberto Gismonti a composição “Sete Anéis”, inspirada “na polirritmia, no sorriso, no entusiasmo e na espontaneidade musical de Tia Amélia”. A biografia escrita por Jeanne de Castro recupera a sua importância.

Joaquim Ferreira dos Santos 

O subúrbio do Rio é uma espécie de Macondo, o lugarejo mágico onde García Márquez fez chover durante quatro anos, onde borboletas amarelas seguiam homens. Uma das provas desse realismo fantástico suburbano é a trupe de vedetes que na década de 1950 fundou um teatro rebolado à frente da estação de trem em Madureira e, aos gritos de “Oba!” no final dos espetáculos, avançou com uma revolução de alegria sobre a caretice ao redor. Tinham as pernas de fora, os borogodós desfraldados. Elas deixaram nos meus olhinhos já não tão infantis uma das imagens mais suculentas daquela minha Macondo natal.

De vez em quando eu passava na calçada do teatro, e só estou me lembrando disso porque acabei de ler “Estrela de Madureira”, a biografia de Marcelo Moutinho sobre a dona do teatro, a vedete Zaquia Jorge. No meio do meu caminho não havia uma pedra, mas uma vitrine de fotos das deusas do rebolado, Sandra Sandré com sua franjinha loura, Luz del Fuego com suas cobras enroscadas, todas nos poucos trajes com que ilustravam as cenas de “A alegria do peru”, “Vira o disco” e “Tira o dedo do pudim”.

Os mocotós das vedetes ao alcance dos olhos na vitrine, obrigado Moutinho, funcionaram como madeleines mais saborosas que as do Proust, e foi aí que eu percorri de volta o subúrbio da infância a bordo de um dos veículos da frota “Os intocáveis”. Era um táxi com a inscrição “Lotação Sete passageiros” porque, ao lado do motorista, ia um e atrás, em dois bancos que se encaravam, os outros seis passageiros. Ganhou o apelido de “Os Intocáveis” porque os carros se assemelhavam aos que no seriado da TV Rio, Canal 13, conduziam os federais comandados por Eliot Ness na guerra contra Al Capone.

No “Sete Passageiros” que me levou de volta à Macondo suburbana estavam uma rezadeira de espinhela caída, uma normalista de saia plissada do Carmela Dutra, um laçador da carrocinha de cachorros, a Fera da Penha, um garrafeiro, o cambono responsável pelos charutos do Seu Sete da Lira e o jogador Didi. O craque do Madureira inventou o mais mágico de todos os chutes, o “folha seca”, aquele de três dedos em que a bola, na ascendente, tem um desfalecimento e, para o espanto da física e principalmente do goleiro, desaba de súbito dentro da rede do coitado.

Passamos por uma viatura da Invernada de Olaria, por um aviário vendendo galinhas vivas (amarradas pelos pés e embrulhadas em jornal), por um bando de garotos gritando “Tá com medo tabaréu? É linha de carretel”, por um guarda noturno apitando para espantar o ladrão, pelo mata-mosquito, pelas chamas da explosão do paiol de Deodoro e, depois de dezenas de gente humilde em cadeiras nas calçadas, fachadas onde estava escrito que era um lar, passamos pelo que parecia ser a mãe da Katia Flavia, a futura Godiva de Irajá.

Zaquia Jorge morreu em 1957, afogada na Barra da Tijuca, como conta o indispensável livro de Marcelo Moutinho, um raro trabalho sobre a Zona Norte. O samba “Madureira chorou”, em homenagem a ela, tem letra triste e melodia animadíssima. Foi ao som dele, no ponto final da viagem em “Os Intocáveis”, que as vedetes levantaram os braços e, com o borogodó dos mocotós sempre desfraldados, gritaram um uníssono “Oba!!”.

A vedete principal

Famosa nos anos 1940, mas pouco lembrada atualmente, Zaquia Jorge tem sua história contada em biografia lançada pelo escritor e jornalista Marcelo Moutinho

Hellen Queiroz

Falecida no fim da década de 1950, Zaquia Jorge teve pouco tempo de vida, mas o suficiente para marcar a história de Madureira, bairro localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Vista como uma mulher à frente do seu tempo, ela desafiou o estigma de mulher desquitada, abriu mão da guarda do filho e alcançou o estrelato no teatro de revista – gênero teatral composto de números falados, musicais e humorísticos que alcançou grande popularidade no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, pela crítica bem-humorada a respeito do cotidiano do País. Além disso, Zaquia atuou no cinema brasileiro emergente e fundou o Teatro de Madureira antes de completar 30 anos de idade.

Projeto Brasil Memória das Artes guarda registros da artista Zaquia Jorge (Foto: Funarte/Divulgação)
Foto: Funarte/Divulgação
Projeto Brasil Memória das Artes guarda registros da artista Zaquia Jorge
Tendo como objetivo tirar a atriz da invisibilidade, o escritor e jornalista Marcelo Moutinho decidiu escrever a biografia “Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” e lançá-la neste ano, quando Zaquia completaria 100 anos de vida. Ao longo do livro, Marcelo conduz o leitor não só pela história da atriz, mas também pela transformação cultural ocorrida no Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1950.

Nascido em Madureira, o autor cresceu ouvindo “Estrela de Madureira” e “Madureira chorou”, músicas feitas após a morte de Zaquia como forma de homenageá-la. “Então a imagem dessa vedete meio misteriosa sempre esteve no meu imaginário. Mas eu não sabia muito bem quem ela tinha sido, o que tinha feito, e na medida em que eu fui virando adulto, eu percebi que isso não era só comigo. Quem tinha alguma referência da Zaquia Jorge era por causa dessas duas músicas e pelo fato dela ter aberto o primeiro teatro numa área periférica do Brasil. Mas ninguém sabia muito sobre a vida dela”, lembra Marcelo sobre o que o inspirou a biografá-la.

Projeto Brasil Memória das Artes guarda registros da artista Zaquia Jorge
Projeto Brasil Memória das Artes guarda registros da artista Zaquia Jorge Crédito: Funarte/Divulgação
Sendo esta a primeira biografia do escritor, ele explica sobre as dificuldades enfrentadas, principalmente por ter feito boa parte durante a pandemia de Covid-19, o que quase o impossibilitou de realizar entrevistas e consultar acervos. Além disso, Marcelo relata que o fato de Zaquia ter morrido ainda aos 33 anos faz com que poucas pessoas que conviveram com ela ainda estejam vivas para passar a história dela adiante.

Ainda sobre o processo de feitura do livro, estar acostumado com o gênero ficcional impactou na escrita do jornalista. “Quando você vai escrever ficção, ela é centrada na inventividade. Você pode inventar o que você quiser. E quando você vai fazer um livro de história, você não pode fazer isso. Todas as vezes em que eu me deparei com espaços em branco, hiatos, eu não podia simplesmente inventar uma narrativa e colocar ali. Eu tinha que separar muito bem o Marcelo ficcionista do Marcelo que estava fazendo um trabalho de historiador”, detalha.

Escritor e jornalista, Marcelo Moutinho sempre teve fascinação pela palavra e escolheu o jornalismo como porta de entrada nesse meio. Ao longo da carreira, atuou como jornalista em vários veículos, mas a literatura sempre esteve em seu coração.

Como escritor, conquistou o Prêmio Jabuti 2022 na categoria Crônica, com “A lua na caixa d’água” (Malê), e o Prêmio Clarice Lispector 2017, da Fundação Biblioteca Nacional, com a seleta de contos “Ferrugem” (Record). Publicou também os livros “A palavra ausente” (Malê), “Rua de dentro” (Record) e “Na dobra do dia” (Rocco), além de obras voltadas para as crianças.

“Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” é a primeira biografia lançada pelo autor, mas ele promete não parar por aí. Para quem anseia por um novo livro, Marcelo promete, em um futuro próximo, lançar um livro de contos e uma nova biografia.

A importância de revelar e registrar o orgulho da nossa suburbanidade

No centenário da vedete Zaquia Jorge, um livro chega para contar a rápida e brilhante trajetória da “Estrela de Madureira”

Rafael Matoso

Eis que o mês do nosso santo guerreiro se anuncia, Ògún ieé!

Certamente a devoção e grande popularidade de São Jorge, no Rio de Janeiro, se deve a uma intima ligação entre a sociabilidade e a fé característica da população suburbana. Sincretismo que opera para que o santo seja cultuado tanto pela igreja católica quanto pela ortodoxa, sendo também canonizado pelos anglicanos. Nas religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, São Jorge também é reverenciado como o poderoso orixá Ogum.

Mas antes de saudarmos Jorge, durante o feriado do dia 23 de abril, temos que rememorar a despedida de uma importante representante cultural dos nossos subúrbios cariocas. Foi num dia 22 de abril, mesma data que marca a chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral ao Brasil, que os fãs da vedete Zaquia Jorge foram surpreendidos com sua precoce morte, aos 33 anos de idade.

Tal contexto, somado ao fato de em 2024 a atriz completar seu centenário de nascimento, contribuiu para que o escritor Marcelo Moutinho aproveitasse para lança neste sábado, dia 6, uma relevante biografia sobre Zaquia Jorge.

Moutinho, como é mais conhecido nas rodas de samba, peladas e bares que frequenta, é um daqueles intelectuais pé no chão, que felizmente sabe reconhecer a relevância do lugar onde nasceu. Suas crônicas costumam carregar o olhar atento de um suburbano de Madureira, gente que sabe apreciar os pormenores da vida cotidiana. Ele nos explica que antes de se tornar um jornalista, curador e escritor consagrado, aprendeu muito na prática vivenciando e circulando pela cidade.

“Nasci e passei a infância em Madureira. Estudei no Encantado, mais especificamente no Colégio Nossa Senhora da Piedade, e depois no Hélio Alonso, do Méier, antes de ir fazer a faculdade de Jornalismo em Botafogo. Em seguida, morei na Barra, na Urca, no Jardim Botânico, em Laranjeiras, na Lapa. Como você pode ver, vivi literalmente todas as zonas geográficas da cidade. Norte, Oeste e Sul, além do Centro. E continuo circulando bastante. Tanto meus contos quanto minhas crônicas nascem desse perambular, dos encontros que ele proporciona. Mas, como disse certa vez em uma entrevista, Madureira é minha Macondo. Pouco importa se já não moro no bairro. Não só na literatura, mas também na vida, é a partir de lá que olho (e escrevo) o mundo.”

Sobre a produção intelectual que tem a cidade como objeto de investigação, tanto no campo a acadêmica como editorial,  percebemos um considerável aumento de novas publicações. Porém, em meio a esse cenário, a história dos subúrbios ainda precisa ser devidamente destrinchada e divulgada para o grande público, pois apesar de um relativo avanço investigativo reconhecemos que ainda temos poucas trabalhos, obras literárias, especialmente dedicadas às grandes personalidades suburbanas. Deste modo, o resgate histórico da figura de Zaquia Jorge feito por Moutinho se torna fundamental.

“Soube da existência da Zaquia muito por conta dos meus pais. Meu velho era um grande fã do Roberto Ribeiro, com quem chegou a tomar chope algumas vezes, e “Estrela de Madureira”, assim como outros sambas gravados pelo cantor, girava bastante na vitrola lá de casa. Também conhecia a canção “Madureira chorou”, até pela referência ao bairro onde morávamos. Lembro que, certo dia, meu pai disse que as duas músicas homenageavam uma vedete, que havia sido famosa e aberto um teatro lá em Madureira. É claro que depois soube da homenagem prestada pelo Império Serrano, e da própria polêmica sobre a escolha do samba-enredo de 1975. Mas me intrigava o fato de, apesar de tributada em dois grandes sucessos do nosso cancioneiro e objeto de enredo, Zaquia tinha uma trajetória tão desconhecida. A ideia de escrever o livro nasce dessa constatação. À medida que comecei a pesquisar sobre a vida dela, fui percebendo como, de certa forma, Zaquia ajuda a contar a história cultural do Rio, então capital federal, entre os anos 1930 e 1950. Sua trajetória no teatro e no cinema, nos dois casos sempre intimamente conectada com a música, espelha as profundas mudanças que ocorriam naquele período. O auge popular do teatro de revista e da chanchada, a migração da cena cultural, do Centro para a Zona Sul, o conflito entre o que se convencionou chamar de “arte maior” e “arte menor”. Para além disso, e aí ganhando contornos bem singulares, Zaquia foi uma mulher à frente do seu tempo. Desquitou-se com 20 anos. Abriu mão da guarda do filho para poder seguir a carreira artística, mas fez questão de retomar o nome de solteira. Viveu por décadas com o novo companheiro sem formalizar casamento. E quando abre o próprio teatro, escolhe um bairro suburbano. Sob a descrença de todas as amigas e mesmo do meio teatral, transforma o lugar num sucesso. É uma história e tanto, e que não merecia estar relegada ao esquecimento.”

Ao escrever sobre a vida e trajetória artística de Zaquia Jorge, o jornalista Marcelo Moutinho nos convida para uma viagem pela pluralidade da acultura carioca e as particularidades dos subúrbios. Algo que fica evidente desde o início do livro, ainda nas palavras da apresentação escritas pelo mestre Luiz Antônio Simas.“Ao reconstruir a trajetória de Zaquia, Moutinho acaba formando um mosaico em que aparecem Madureira, o teatro de revista brasileiro, as sociabilidades suburbanas, a música, o cinema, a cidade e o protagonismo da mulher em uma sociedade e um ambiente em que a misoginia nadava de braçada. Não bastasse isso, o livro retira — é importante frisar — do esquecimento a personagem que, apesar da vida curta, entranhou-se nas memórias do lugar, unindo o rigor histórico, o domínio crítico da bibliografia e a escrita fluente do escritor premiado.

Marcelo Moutinho lança biografia de Zaquia Jorge
‘Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou’ (Record) recupera a vida da atriz e empresária do teatro, que morreu aos 33 anos, em 1957, afogada na então inóspita praia da Barra da Tijuca

Marcelo Moutinho, vencedor dos prêmios Jabuti 2022 e Clarice Lispector (Fundação Biblioteca Nacional) 2017, tem Zaquia Jorge como personagem principal na sua estreia no gênero das biografias. Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou (Record) recupera a vida da atriz e empresária do teatro, que morreu aos 33 anos, em 1957, afogada na então inóspita praia da Barra da Tijuca, causando comoção popular e especulação midiática.Zaquia Jorge foi uma figura emblemática da vida cultural do Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Trabalhou na célebre companhia de Walter Pinto, ascendeu no competitivo mundo das vedetes, contracenou com Dercy Gonçalves e Oscarito e fundou seu próprio teatro. Em 2024, a atriz completa 100 anos.

Sua morte trágica inspirou o samba ‘Madureira chorou’, grande sucesso do Carnaval de 1958. Em 1975, a artista inspiraria o enredo “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira”, levado à Avenida pelo Império Serrano. Curiosamente, uma composição derrotada no concurso interno da escola foi gravada por Roberto Ribeiro e acabaria alcançando imensa repercussão popular. Lançada no disco do cantor com o título “Estrela de Madureira”, é hoje lembrada nas rodas ao longo do país e se tornou mais conhecida do que o samba com o qual o Império desfilou.

Moutinho reconstitui a vida de uma mulher à frente de seu tempo – que desafiou o estigma de mulher desquitada, abriu mão da guarda do filho e retomou, após a separação, o nome de solteira –, uma atriz incomum e fora dos padrões, que alcançou o estrelato no teatro de revista, atuou no cinema brasileiro emergente e, posteriormente, decidiu ousar como empresária das artes, rompendo as fronteiras da eterna cidade partida.

“Nasci e morei por boa parte da infância em Madureira. Desde pequeno, me intrigava o fato de que, apesar de Zaquia ser uma figura mítica entre os moradores do subúrbio, ter suscitado duas músicas de imenso sucesso e um enredo de escola de samba, sua história é pouquíssimo conhecida. Uma artista cuja morte mereceu destaque nas primeiras páginas dos jornais, cujo funeral contou com a presença de milhares de pessoas, que trabalhou no teatro da revista e nos populares filmes da época da chanchada, e cuja atuação como empresária foi absolutamente pioneira. Além de resgatar uma trajetória tão singular, o livro pretende tirá-la desse lugar de invisibilidade”, contextualiza Marcelo Moutinho.

Após ascender profissionalmente durante a efervescência cultural da Praça Tiradentes e participar da emergente cena cultural na Zona Sul carioca, Zaquia optou por fundar o Teatro Madureira. Assim, colocou, pela primeira vez, os holofotes na vida cultural da Zona Norte do Rio de Janeiro. Em seu texto de quarta capa, Ruy Castro felicita a publicação de uma biografia que remete à Zona Norte, um território, ele destaca, quase esquecido no mapeamento da vida artística e cultural carioca. “E ninguém mais equipado do que Marcelo para fazê-lo”, acrescenta.

Há biógrafos que escolhem personagens ilustres da história para a partir de uma trajetória marcante compor o panorama de uma determinada época. Outros buscam resgatar personalidades apagadas da história e, ao resgatar do esquecimento sua biografia, propor novas abordagens do passado. Este último é o caso de Marcelo Moutinho, como sintetiza Luiz Antonio Simas no texto de apresentação do livro:

“Ao reconstruir a trajetória de Zaquia, Moutinho acaba formando um mosaico em que aparecem Madureira, o teatro de revista brasileiro, as sociabilidades suburbanas, a música, o cinema, a cidade e o protagonismo da mulher em uma sociedade e um ambiente em que a misoginia nadava de braçada. Não bastasse isso, o livro retira — é importante frisar — do esquecimento a personagem que, apesar da vida curta, entranhou-se nas memórias do lugar, unindo o rigor histórico, o domínio crítico da bibliografia e a escrita fluente do escritor premiado.”

Ousada e agerrida

A vedete Zaquia Jorge tem sua coragem e pioneirismo revelados em livro com que Marcelo Moutinho estreia no gênero biográfico

Christovam de Chevalier

Ela brilhou nas chanchadas e no teatro de revista. Vítima de um afogamento na ainda bucólica Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, sua morte colocou o Rio de Janeiro de luto. E inspirou um dos mais belos sambas do nosso cancioneiro. Estamos falando de Zaquia Jorge (1924-1957), mulher cuja ousadia e cujo empreendedorismo foram encorajadores às mulheres de então e as das gerações subsequentes. A história dessa personagem, sobre quem sabemos tão pouco, é narrada pelo escritor e jornalista Marcelo Moutinho em “Estrela de Madureira – A trajetória da vedete Zaquia Jorge por quem toda a cidade chorou” (Record). A obra marca a estreia de Moutinho, um dos grandes ficcionistas da sua geração, no gênero biográfico.

O subtítulo da biografia não é um exagero jornalístico, pelo contrário. Zaquia é a musa do samba “Madureira chorou”, cantado a plenos pulmões no Carnaval de 1958 e, em 1975, inspiraria o enredo levado à avenida pela Império Serrano. Foram muitas as Zaquias e elas estão todas retratadas no livro, sobre o qual Moutinho esteve debruçado nos últimos cinco anos, tempo em que dedicou-se às pesquisas e à escrita.

Zaquia tinha 20 anos quando abriu mão da guarda do filho para dedicar-se às artes. Com o tempo, montou sua companhia e surpreendeu a sociedade ao escolher o bairro de Madureira para abrigar seu teatro – o primeiro aberto na Zona Norte da então capital federal, como conta Moutinho:

– Quando decide abrir um teatro, escolhe Madureira, um bairro suburbano, totalmente fora da área de elite da então capital federal. Outra característica que chama minha atenção é a persistência. Zaquia cortou um dobrado para conseguir terminar as obras de seu teatro, e foram muitas as dificuldades para contratar artistas e também para formar público em uma região onde a encenação de peças era algo inexistente.

Acontece que com ela não tinha essa de deitar nos louros de estrela. Ela arregaçava as mangas e colocava (mesmo) a mão na massa. E revelou, assim, tino de empreendedora ao firmar parcerias com comerciantes e fazer um corpo-a-corpo com os moradores locais.

– Ela precisou ser muito hábil para conquistar o público suburbano. A reação inicial à abertura do teatro foi ruim. Por conta do conservadorismo local, a chegada da companhia foi vista como uma ameaça às famílias. Zaquia buscou se entrosar com os moradores, frequentando cotidianamente as ruas de Madureira, e fez parcerias com o forte comércio do bairro. As lojas passaram a oferecer, a seus clientes, flyers que garantiam desconto nos ingressos para o Teatro Madureira. Em pouco tempo, ela conseguiu mudar de forma radical a relação, que passou de mal vista a querida, de ameaça a referência – destaca o biógrafo.

E da mesma forma que Zaquia deu tratos à bola, o mesmo pode ser dito sobre o autor do livro. Contista da linhagem de Lygia Fagundes Telles (1918-2022) e Caio Fernando Abreu (1948-1996), Moutinho assina agora sua primeira obra biográfica, e sob as bênçãos de dois craques no assunto: Ruy Castro, autor do texto publicado na quarta capa, e de Luiz Antonio Simas, que apresenta a obra. E precisou, para tanto, vencer obstáculos trazidos pelos impedimentos impostos pela pandemia.

– Praticamente todas as instituições cujos acervos eu precisava consultar estavam fechadas. Além disso, tive que lidar com a questão da falta de fontes orais, já que Zaquia morreu em 1957 e a absoluta maioria das pessoas que conviveram com ela já se foram – observa Moutinho, que driblou uma tentação comum a quem faz ficção: –  Já no plano individual, precisei lidar com a exigência do rigor histórico. Ter o cuidado de não “ficcionalizar”, evitando a tentação de completar os espaços vazios com a invenção. Mas foi um trabalho que adorei fazer. Tanto é que pretendo começar em breve outra biografia.

Que venham então!

“Estrela de Madureira” leva às livrarias o retrato de uma mulher à frente do seu tempo

Rodrigo Fonseca

Prolífico (mas, cirúrgico) na produção de contos e crônicas, coroado com o Prêmio Clarice Lispector por “Ferrugem”, Marcelo Moutinho bebeu da água do subúrbio carioca, em sua meninice, mas foi correr o Rio, ao crescer, pulando de bairro em bairro, nos múltiplos pontos cardeais da cidade. Sua localidade de garoto explode (na medida certa entre a nostalgia e a factualidade) nas páginas de “Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Ed, Record).

Numa investigação histórica, Moutinho viaja no tempo, até o Rio dos anos 50, com destaque para a vida suburbana de então, quando Zaquia, sensação teatral, não se limitou aos aplausos e virou empresária, ao fundar o Teatro Madureira. Morreu precocemente, afogada no mar da Barra da Tijuca aos 33 anos. O samba “Madureira chorou”, sucesso do carnaval de 1958, tornou-se um hino de dor no Rio de Janeiro, na voz de Joel de Almeida. Em 1975, o Império Serrano dedicou seu samba-enredo à história de Zaquia, num tributo que perdura na memória carnavalesca.

Na entrevista a seguir, Moutinho radiografa esse mito de empoderamento feminino.

Qual é a Madureira de que você fala, a partir da Zaquia Jorge e de que maneira ela conversa com o que o bairro se tornou?
Marcelo Moutinho
 – A Madureira de que o livro fala se situa entre os anos 1940 e 1950. Quando Zaquia abre lá seu teatro, em 1952, o bairro já tinha forte pujança econômica. O comércio servia como referência para os moradores de todo o subúrbio da cidade. Já existiam suas duas escolas de samba – a Portela e o Império Serrano –; uma instituição educacional de prestígio, que era a Carmela Dutra; filias de lojas famosas na cidade, como a Casa Sloper; uma agência do Banco do Brasil… A chegada do teatro é um ingrediente a mais nesse encorpado caldo de cultura e rapidamente as peças passam a assumir certa cor local. Eram muitas as esquetes que tematizavam o cotidiano do morador, como a viagem de trem, as agruras da carestia e o próprio universo do samba, tão marcante ali. Acredito que muitas dessas características distinguem o bairro ainda hoje, quase oito décadas depois. Isso acontece embora tenha havido uma mudança no que tange à classe média, um setor que era bastante presente e, aos poucos, migrou para outras regiões da cidade, como as zonas Sul e Oeste.

Que legado Zaquia deixou para o teatro e para o simbolismo da força feminina das vedetes?
Marcelo Moutinho – 
Zaquia foi uma mulher à frente do seu tempo. O simbolismo não se esgota em sua atuação como atriz. Lembremos que ela se tornou empresária com vinte e poucos anos. E, como se não bastasse enveredar por um trabalho que costumava ser vedado à mulher, comprou a briga de abrir um teatro completamente fora das áreas onde esse tipo de negócio se concentrava, que eram o Centro e a Zona Sul da cidade. Outro aspecto que merece atenção é a verdadeira revolução que a chegada das vedetes a Madureira provocou no campo dos costumes. Toda a região suburbana era bastante conservadora e, de início, houve forte reação à presença daquelas mulheres quase sempre maquiadas, que vestiam calça comprida e tamancos. À frente do grupo, Zaquia foi muito hábil em conquistar os moradores sem ir para o embate. Passou a frequentar o bairro, a conversar com todos, e aos poucos ganhou a simpatia da população local. Em todas as entrevistas que fiz com mulheres que eram meninas ou adolescentes na época, houve menção ao fato de Zaquia ter sido, para elas, uma espécie de signo de mulher moderna, um modelo de autonomia feminina a seguir.

De que maneira a sua natureza de cronista se manifesta nessa operação de cartografia biográfica?
Marcelo Moutinho – T
alvez na preocupação em tentar enxergar a conjuntura geral a partir de pequenos acontecimentos, ou de notícias que não ocupavam os espaços mais disputados dos jornais. A crônica tem essa característica de buscar iluminar uma situação a partir de ângulos não usuais. Mas tive, durante todo o processo de pesquisa e de escritura, o cuidado em não deixar o ficcionista sobrepassar o rigor histórico. Em que pese o fato de ter, em alguns momentos, lançado mão da técnica literária. Foi o que norteou, por exemplo, a ideia de abrir o livro com a cena da morte precoce e trágica de Zaquia na Barra da Tijuca.

Qual é o teu Rio de berço e de que maneira ele se amplia para o RJ da investigação literária de sua obra mais recente?
Marcelo Moutinho –
 Nasci e passei a infância em Madureira. Estudei em Piedade e no Méier, antes de ir fazer a faculdade de Jornalismo em Botafogo. Depois disso, morei na Barra, na Urca, no Jardim Botânico, em Laranjeiras, na Lapa. Rodei literalmente todas as zonas. Norte, Oeste e Sul, além do Centro, e continuo circulando bastante pela cidade. Tanto meus contos quanto minhas crônicas nascem desse perambular, dos encontros que ele proporciona. Mas, como disse certa vez em uma entrevista, Madureira é minha Macondo (referência à terra narrada por Gabriel García Márquez). Pouco importa se já não moro no bairro. Não só na literatura, mas também na vida, é a partir de lá que olho (e escrevo) o mundo.

Livro resgata história da artista que abriu o primeiro teatro de Madureira

Em sua estreia como biógrafo, Marcelo Moutinho recupera a história de Zaquia Jorge e reconstitui a transformação cultural do Rio de Janeiro sob a ótica da vedete ícone da cultura suburbana que, em 2024, faria 100 anos

Felipe Lucena

“Madureira chorou”, diz o samba composto após a morte de Zaquia Jorge, artista emblemática da vida cultural do Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Ela trabalhou na célebre companhia de Walter Pinto, ascendeu no competitivo mundo das vedetes, contracenou com Dercy Gonçalves e Oscarito e fundou seu próprio teatro, no bairro que – não à toa – derrubou muitas lágrimas quando morreu. Zaquia faria 100 anos em 2024 e é a biografada de Marcelo Moutinho, escritor que se notabilizou nos últimos anos por suas crônicas que olham para os subúrbios da cidade do Rio em busca de histórias e personagens.

O livro “Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Record) recupera a vida da atriz e empresária do teatro, que morreu aos 33 anos, em 1957, afogada na então inóspita praia da Barra da Tijuca, causando comoção popular e especulação midiática. O lançamento será neste sábado, 06/04, às 14h, no Al Farabi, que fica na Rua do Mercado 34, Centro do Rio. O evento ainda terá Pedro Paulo Malta cantando sambas e marchinhas e a participação da Velha Guarda do Império Serrano.A obra mostra a vida de uma mulher à frente de seu tempo – que desafiou o estigma de “desquitada”, abriu mão da guarda do filho e retomou, após a separação, o nome de solteira –, uma atriz incomum e fora dos padrões, que alcançou o estrelato no teatro de revista, atuou no cinema brasileiro emergente e, posteriormente, decidiu ousar como empresária das artes, rompendo as fronteiras da eterna cidade partida.“Nasci e morei por boa parte da infância em Madureira. Desde pequeno, me intrigava o fato de que, apesar de Zaquia ser uma figura mítica entre os moradores do subúrbio, ter suscitado duas músicas de imenso sucesso e um enredo de escola de samba, sua história é pouquíssimo conhecida. Uma artista cuja morte mereceu destaque nas primeiras páginas dos jornais, cujo funeral contou com a presença de milhares de pessoas, que trabalhou no teatro da revista e nos populares filmes da época da chanchada, e cuja atuação como empresária foi absolutamente pioneira. Além de resgatar uma trajetória tão singular, o livro pretende tirá-la desse lugar de invisibilidade“, detalha Marcelo Moutinho.

No livro, Moutinho mostra que depois de se encantar com o esplendor do Cassino da Urca, ascender profissionalmente durante a efervescência cultural da Praça Tiradentes e participar da emergente cena cultural na Zona Sul carioca, Zaquia optou por fundar o Teatro Madureira, em abril de 1952. Assim, colocou, pela primeira vez, os holofotes na vida cultural da Zona Norte do Rio de Janeiro.

“Foi o primeiro teatro do Brasil construído em uma área periférica“, destaca o autor, que também conta que a biografia mostra todas as dificuldades pelas quais Zaquia passou para abrir esse espaço cultural na década de 1950.

Além da música “Madureira chorou“, grande sucesso do Carnaval de 1958, a artista inspiraria o enredo “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira”, levado à Avenida pelo Império Serrano, em 1975. Uma composição derrotada no concurso interno da escola foi gravada por Roberto Ribeiro e acabaria alcançando imensa repercussão popular. Lançada no disco do cantor com o título “Estrela de Madureira“, é hoje lembrada nas rodas e se tornou mais conhecida do que o samba com o qual o Império desfilou.

A Estrela de Madureira terá outros eventos de lançamento (um em Madureira, inclusive), que ainda não têm datas e locais definidos. Agora, com esse livro de Marcelo Moutinho, a arte e a vida de Zaquia Jorge serão cada vez mais exaltadas, encantarão muitas pessoas e a apoteose vai ser mesmo o infinito.

Vedete Zaquia Jorge, que completaria 100 anos em 2024, ganha biografia

Obra escrita por Marcelo Moutinho recupera a história da atriz que desafiou o conservadorismo de sua época

No livro “Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Record), o escritor Marcelo Moutinho, vencedor do prêmio Jabuti na categoria de Crônicas, faz sua estreia na biografia ao resgatar a trajetória de uma personagem emblemática dos anos 1940 e 50: a atriz e empresária Zaquia Jorge que, em 2024, faria 100 anos.

Zaquia faleceu afogada aos 33 anos, mas é lembrada como uma mulher que desafiou o conservadorismo de sua época. Ela contracenou com Dercy Gonçalves e Oscarito, alcançou o estrelato no teatro de revista, trabalhou na célebre companhia de Walter Pinto e fundou seu próprio teatro em Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua trajetória inspirou o samba-enredo da Império Serrado em 1975

A publicação conta com texto de quarta capa assinado por Ruy Castro e apresentação por Luiz Antonio Simas.

Estrela de Madureira

Em sua estreia como biógrafo, Marcelo Moutinho recupera a história de Zaquia Jorge e reconstitui a transformação cultural do Rio de Janeiro sob a ótica da vedete ícone da cultura suburbana que, em 2024, faria 100 anos

Seu nome é Zaquia Jorge. É bem possível que a alcunha, tão exótica quanto seus olhos amendoados e rosto marcante, traga, em um primeiro e descuidado relance, pouca familiaridade aos leitores contemporâneos. Mas ao (re)descobri-la, não restam dúvidas: Zaquia Jorge foi uma artista de primeira grandeza, figura emblemática da vida cultural do Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Trabalhou na célebre companhia de Walter Pinto, ascendeu no competitivo mundo das vedetes, contracenou com Dercy Gonçalves e Oscarito e fundou seu próprio teatro. Eis a estrela de Madureira que, em 2024, completaria 100 anos.

A artista sui generis, não por acaso, é a personagem escolhida por Marcelo Moutinho, vencedor dos prêmios Jabuti 2022 e Clarice Lispector (Fundação Biblioteca Nacional) 2017, para a sua estreia no gênero das biografias. “Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou” (Record) recupera a vida da atriz e empresária do teatro, que morreu aos 33 anos, em 1957, afogada na então inóspita praia da Barra da Tijuca, causando comoção popular e especulação midiática.

Sua morte trágica inspirou o samba “Madureira chorou”, grande sucesso do Carnaval de 1958. Em 1975, a artista inspiraria o enredo “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira“, levado à Avenida pelo Império Serrano. Curiosamente, uma composição derrotada no concurso interno da escola foi gravada por Roberto Ribeiro e acabaria alcançando imensa repercussão popular. Lançada no disco do cantor com o título “Estrela de Madureira“, é hoje lembrada nas rodas ao longo do país e se tornou mais conhecida do que o samba com o qual o Império desfilou.

Mais do que isso, Moutinho reconstitui a vida de uma mulher à frente de seu tempo – que desafiou o estigma de mulher desquitada, abriu mão da guarda do filho e retomou, após a separação, o nome de solteira –, uma atriz incomum e fora dos padrões, que alcançou o estrelato no teatro de revista, atuou no cinema brasileiro emergente e, posteriormente, decidiu ousar como empresária das artes, rompendo as fronteiras da eterna cidade partida.

“Nasci e morei por boa parte da infância em Madureira. Desde pequeno, me intrigava o fato de que, apesar de Zaquia ser uma figura mítica entre os moradores do subúrbio, ter suscitado duas músicas de imenso sucesso e um enredo de escola de samba, sua história é pouquíssimo conhecida. Uma artista cuja morte mereceu destaque nas primeiras páginas dos jornais, cujo funeral contou com a presença de milhares de pessoas, que trabalhou no teatro da revista e nos populares filmes da época da chanchada, e cuja atuação como empresária foi absolutamente pioneira. Além de resgatar uma trajetória tão singular, o livro pretende tirá-la desse lugar de invisibilidade”, contextualiza Marcelo Moutinho.

Após se encantar com o esplendor do Cassino da Urca, ascender profissionalmente durante a efervescência cultural da Praça Tiradentes e participar da emergente cena cultural na Zona Sul carioca, Zaquia optou por fundar o Teatro Madureira. Assim, colocou, pela primeira vez, os holofotes na vida cultural da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Em seu texto de quarta capa, Ruy Castro felicita a publicação de uma biografia que remete à Zona Norte, um território, ele destaca, quase esquecido no mapeamento da vida artística e cultural carioca. “E ninguém mais equipado do que Marcelo para fazê-lo”, acrescenta.

Há biógrafos que escolhem personagens ilustres da história para a partir de uma trajetória marcante compor o panorama de uma determinada época. Outros buscam resgatar personalidades apagadas da história e, ao resgatar do esquecimento sua biografia, propor novas abordagens do passado. Este último é o caso de Marcelo Moutinho, como sintetiza Luiz Antonio Simas no texto de apresentação do livro:

“Ao reconstruir a trajetória de Zaquia, Moutinho acaba formando um mosaico em que aparecem Madureira, o teatro de revista brasileiro, as sociabilidades suburbanas, a música, o cinema, a cidade e o protagonismo da mulher em uma sociedade e um ambiente em que a misoginia nadava de braçada. Não bastasse isso, o livro retira — é importante frisar — do esquecimento a personagem que, apesar da vida curta, entranhou-se nas memórias do lugar, unindo o rigor histórico, o domínio crítico da bibliografia e a escrita fluente do escritor premiado.”

Biógrafo renomado e profundo conhecedor da história do Rio de Janeiro, Ruy Castro recuperou em livros recentes o esplendor carioca da primeira metade do século 20. Uma cidade moderna e cosmopolita que antecipava no país as tendências da nova ordem mundial e, ao mesmo tempo, adaptava as modas ao gosto local.

Em “Estrela de Madureira”, Marcelo Moutinho segue a opção pelo texto fluido, o rigor dos fatos, o acesso às fontes primárias ou àquelas que mais se aproximam dos acontecimentos reais, a análise cuidadosa dos arquivos de jornais e revistas, a iconografia reveladora, sem nunca perder o sabor que as histórias ocultas podem capturar. Com um acréscimo: Moutinho desloca a geografia da narrativa e, assim, conduz os leitores pela transformação da cidade, trazendo para a superfície subtextos dos desafios atuais.

Tudo começa no Cassino da Urca, palco que consagrou Carmen Miranda e inseriu o Brasil no mapa cultural da geopolítica do momento. Em seguida, a cidade se transformou com a agenda inesgotável das produções do teatro de revista inspiradas no modelo francês, e, logo, adaptadas ao anedotário local. Um sucesso absoluto que passou a lotar o Centro do Rio de Janeiro. Sem falar nos cinemas da Cinelândia, epicentro da vida carioca moderna.

O eixo cultural mudou para Copacabana, novo reduto da ebulição artística urbana, que propôs um novo estilo de vida e desafiou a cidade a admirar o mar e a liberdade que os novos tempos propagavam. Mas, ao trilhar o périplo histórico, Moutinho acaba por se voltar para a enigmática personalidade de Zaquia Jorge e sua ousadia: abrir uma inédita companhia de teatro em Madureira. Uma memória apagada. Uma estrela que chora. E, agora, resgata seu esplendor.

O AUTOR

Marcelo Moutinho é escritor e jornalista. Conquistou o Prêmio Jabuti 2022 na categoria Crônica, com “A lua na caixa d’água” (Malê), e o Prêmio Clarice Lispector 2017, da Fundação Biblioteca Nacional, com a seleta de contos “Ferrugem” (Record). Publicou também os livros “A palavra ausente” (Malê), “Rua de dentro” (Record) e “Na dobra do dia” (Rocco), além de obras voltadas para as crianças. É mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV-Rio.

Serviço:

Título: Estrela de Madureira: A trajetória da vedete Zaquia Jorge, por quem toda a cidade chorou

  • Autor: Marcelo Moutinho
  • Editora: Record
  • Número de páginas: 182
  • ISBN: 978-65-86061-70-3
  • Preço: R$ 84,90
  • E-book: R$ 59,90
  • ISBN: 978-65-5587-888-2
  • Lançamento do livro: 11 de março de 2024
  • A edição inclui um caderno de imagens de 32 páginas

Estrela de Madureira: A história de Zaquia Jorge, que encantou o Rio de Janeiro

Marcelo Moutinho, renomado escritor e jornalista, apresenta sua estreia como biógrafo com uma obra envolvente que resgata a trajetória marcante de Zaquia Jorge, uma figura emblemática da vida cultural do Rio de Janeiro nas décadas de 1940 e 1950. Neste artigo, exploraremos detalhadamente a história da Estrela de Madureira, destacando sua ascensão nos palcos, sua influência na cultura suburbana e seu legado que perdura até os dias de hoje.

Zaquia Jorge foi uma artista singular, reconhecida por sua beleza exótica e talento excepcional. Iniciou sua carreira na célebre companhia de Walter Pinto, onde rapidamente se destacou como uma das principais vedetes da época. Sua participação nos espetáculos teatrais ao lado de grandes nomes como Dercy Gonçalves e Oscarito solidificou sua posição como uma das personalidades mais influentes do cenário cultural carioca.

No entanto, a vida de Zaquia Jorge foi interrompida de forma trágica aos 33 anos, quando foi encontrada afogada na praia da Barra da Tijuca. Sua morte prematura causou comoção popular e inspirou o famoso samba “Madureira chorou”, tornando-se um marco no Carnaval de 1958.

O Legado de Zaquia Jorge na Cultura Suburbana

Além de sua notável carreira nos palcos, Zaquia Jorge foi pioneira ao abrir seu próprio teatro em Madureira, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Esta iniciativa não apenas colocou holofotes na vida cultural da região, mas também desafiou as fronteiras estabelecidas pela sociedade da época.

O impacto de Zaquia Jorge na cultura suburbana transcendeu gerações, inspirando enredos de escolas de samba e sendo reverenciada como uma verdadeira “estrela de Madureira”. Seu nome permanece vivo nas memórias dos moradores locais e sua influência continua a ser celebrada até os dias de hoje.

Marcelo Moutinho, reconhecido pelos prêmios Jabuti e Clarice Lispector, escolheu Zaquia Jorge como protagonista de sua estreia no gênero das biografias. Em seu livro “Estrela de Madureira”, Moutinho mergulha fundo na vida da vedete icônica, resgatando sua história do esquecimento e apresentando-a ao público contemporâneo de forma envolvente e emocionante.

A obra de Marcelo Moutinho não se limita a contar a história de uma personalidade esquecida, mas também oferece uma reflexão sobre a transformação cultural do Rio de Janeiro ao longo do século XX. Ao destacar a vida e o legado de Zaquia Jorge, Moutinho nos convida a revisitar o passado e a reconhecer o papel fundamental das figuras marginalizadas na construção da identidade cultural de uma cidade tão diversa como o Rio de Janeiro.

“Estrela de Madureira” é mais do que uma simples biografia; é um mergulho profundo na história e na cultura de uma cidade que tanto amamos. Através da vida de Zaquia Jorge, Marcelo Moutinho nos presenteia com uma narrativa envolvente e emocionante, repleta de detalhes e nuances que nos transportam para uma época de glamour e tragédia. Este livro é um tributo à memória de uma mulher extraordinária e ao poder transformador da arte.

Livro resgata a história de Zaquia Jorge, a trágica vedete de Madureira

Marcelo Moutinho traça o perfil da atriz pioneira do teatro rebolado

Tom Farias

O subúrbio carioca já foi também o “refúgio dos infelizes”, como já se referiu a ele o escritor Lima Barreto. A frase veste feito uma luva com a atenta leitura de “Estrela de Madureira”, biografia que traça a trajetória da vedete Zaquia Jorge, de autoria de Marcelo Moutinho, que acaba de sair pela editora Record.

O bairro suburbano, dos mais conhecidos da zona norte do Rio de Janeiro, pelo seu agitado comércio, mas também pelas escolas de samba campeãs Portela e Império Serrano, foi palco de um teatro que abalou geral o mundo artístico da região –o “Teatro de Madureira”, inaugurado em 1952, por Zaquia, e dirigido por ela até sua morte prematura, aos 33 anos, por afogamento, na deserta e desconhecida praia da Barra da Tijuca.

A corajosa façanha de abrir casa de espetáculos em pleno subúrbio carioca, dedicada exclusivamente ao teatro de revistas ou “teatro rebolado” —gênero popularizado a partir da década de 1930 e que escandalizou uma época e muitas gerações —, se deveu a essa atriz, empresária, dramaturga, multiartista e vedete, cujo nome virou referência no meio artístico brasileiro, por sua atuação no palco e no cinema, onde pontificou ao lado de nomes como Oscarito, Dercy Gonçalves e Grande Otelo.

Moutinho, em “Estrela de Madureira”, apresenta um perfil preciso e humano de Zaquia Jorge, situando-a no seu tempo presente e vivido, com precioso panorama da cena artística da época. Consegue, com raro brilhantismo, historiar a evolução cultural sob a perspectiva do teatro e do cinema, resgatando figuras hoje esquecidas, como a própria Zaquia Jorge.

O subúrbio carioca, no livro, ganha expressivo relevo. Em “Estrela de Madureira”, são resgatados a importância dos “arrabaldes” da cidade, uma cidade cujos holofotes eram voltados somente na direção do centro e da zona sul – ou seja, da Praça Tiradentes a Copacabana.

Ao trocar a chique zona sul por um local distante e de aspecto “rural”, como a Madureira dos idos de 1950, Zaquia Jorge foi duramente criticada. Os jornais e a opinião pública não a perdoaram por querer entreter “o povinho inculto”. O teatro ainda era coisa da elite, herança do período colonial.

O subúrbio, região longe do coração da cidade, do glamour dos calçadões da orla, onde pontificava os ricaços do momento, habituês da Confeitaria Colombo e dos salões do Copacabana Palace, sentiu a torcer do nariz e virada de cara, literalmente. Mas Zaquia insistiu e venceu. Tinhosa, provou que a “gente humilde” –como o poetizou Vinicius de Moraes, amigo de Pixinguinha, portanto, frequentador dos subúrbios -, era núcleo de pessoas mereciam teatro e arte.

Sua caminhada na contramão da história dos grandes negócios do entretenimento, cimentou a popularidade de Zaquia Jorge, o que levou ao sucesso do seu empreendimento artístico.

Quando se afogou, na tarde de 22 de abril –véspera do dia consagrado a homenagear São Jorge –, toda cidade, não só o bairro, “chorou de dor”, como sintetiza o verso do samba “Madureira Chorou”, composição de Carvalhinho e Júlio Monteiro, empresário e viúvo da artista.

Em 1975, foi a vez da escola de samba Império Serrano, histórica agremiação carnavalesca, pagar seu tributo a grande vedete, homenageada com o samba-enredo “Zaquia Jorge: Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira”, conquistando o terceiro lugar no desfile de 1958, então realizado na Avenida Antônio Carlos, mas ganhadora do Estandarte de Ouro.

O legado de Zaquia Jorge deu raízes. Após a fundação do Teatro de Madureira, a região ganhou destaque e novas casas. Nos anos seguintes à sua inauguração, abriram as portas os teatros Armando Gonzaga, em Marechal Hermes (1954) e o Arthur Azevedo, em Campo Grande (1956) –ambos ainda em pleno funcionamento.

O livro de Marcelo Moutinho traz um ar de gostosa nostalgia para quem aprecia o subúrbio e gosta de sua cultura e sua gente.

Essa rica região, assim como a zona oeste, fadada ao isolamento de financeiro desde as modernosas reformas do início do século 20, lideradas por Pereira Passos, passou a ser apenas o “dormitório” dos operários madrugadores, que povoam os escritórios da Presidente Vargas e Rio Branco, ou as casas dos ricaços e bacanas.

O sucesso do teatro de Zaquia Jorge é também um deboche a essa “gente do bem”, sempre empoada e metida. Por temporadas concorridas, no palco, ela valorizava o humor, a picardia, a sensualidade, as paródias que provocavam o riso e marcavam a originalidade da cultura suburbana.

Pelo seu pioneirismo, traço característico da sua personalidade, Zaquia Jorge, afinal, se imortalizou. O belo livro de Marcelo Moutinho, ele mesmo cria de Madureira, é o caminho para revisitar esses tempos tão gloriosos, mas que, infelizmente, não retornam mais.

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