Na terça pela manhã, logo após a passeata que reuniu 100 mil pessoas no Rio de Janeiro, escrevi o seguinte texto em meu perfil no Faceboook:
Estive na passeata da Rio Branco, assim como estive no comício de Lula no segundo turno, em 1989, e no ato pelo impeachment, em 1993, entre muitos outros. Minha impressão, ontem, foi de um sentimento difuso de indignação, com demandas individuais que colidem entre si e que só resistem unidas justamente pelo fato de não haver uma pauta coletiva. Resistem, paradoxalmente, pela pouca nitidez.
Compreendo a empolgação da turma mais jovem, que nunca havia participado de passeatas. É natural e legítima. Compreendo também o entusiasmo de uma turma mais veterana, que enxerga no movimento uma possibilidade da volta do “povo” a uma postura mais ativa. Compreendo até mesmo o adesismo de ocasião, fruto da moda ou da pressão dos colegas no Facebook.
Só não compreendo é o ataque a qualquer reparo aos rumos do movimento, a partir da premissa de que “aquele que critica não está entendendo nada” (o que significaria que quem participa e elogia está entendendo, atitude arrogante e que pouco ajuda o debate). Há quem se sinta, neste momento, como Adão de manhã cedo cortando a fita inaugural do Paraíso. Qualquer menção a fatos passados é imediatamente metralhada. Qualquer reflexão que parta de um ângulo diferente é tachada de conservadora e que tais.
Vi, ontem, um discurso contra a política, os partidos (que tal votar melhor?) e as instituições. Discurso que se esgota em si, numa espécie de “anarquia moralista”, como bem definiu alguém no Twittrer. Vi uma ofensiva autoritária contra quem portava a bandeira de seu partido. Gente que, antes de passeata de tornar “in”, estava lá, na rua, protestando, reivindicando, e que agora é marginalizada pelo neo-manifestante.
O que colocar no lugar dos partidos, das instituições? Democracia direta? Talvez um salvador da pátria? Ninguém diz. Pouco importa. Foi assim que Collor se elegeu. E Berlusconi.
A euforia generalizada está impedindo que as pessoas parem e reflitam. A ânsia de estar na vanguarda, seja lá o que isso seja, tem turvado a visão. O movimento, que começou com uma reivindicação justíssima – a melhoria e o barateamento do transporte público – começa a se perder numa fala “contra tudo isso que tá aí”. E esse tipo de caldo de cultura, quando engrossado, não costuma terminar em coisa boa.
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Ontem, minhas piores previsões se confirmaram. Num misto de ufanismo súbito com revolta sem rumo, manifestantes tentaram atear fogo ao Palácio do Itamaraty, obra de Oscar Niemeyer. Vários prédios públicos e de instituições foram apedrejados. Incediaram um carro do SBT e bandeiras do movimento negro. Saquearam uma escola pública. Até a sede da OAB, que tanto lutou para restaurar as liberdades, ganhou pedradas. Além disso, militantes de partidos de esquerda e dos movimentos sociais receberam agressões e tiveram suas bandeiras rasgadas.
A “maioria pacífica” diz que tudo isso foi obra de uma “minoria”. “Minoria” que, no entanto, parece bem grande, cada vez maior – e cujo espírito, que desqualifica as instituições e centra-se na pauta-platitude “contra tudo isso que está aí”, é francamente fascista. Só que o fascismo começa a mostrar sua face é em pequenas atitudes. Mandar abaixar bandeira, por exemplo. Gritar “sem partido”. E isso não foi uma minoria que fez.
É claro que a polícia, que nem deveria ser militar, voltou a demonstrar total despreparo para atuar em grandes atos populares. Foi irresponsável, e esse é um ponto que deve ser tratado, assim como a reforma política, saída viável para a flagrante perda de legitimidade dos partidos, que o movimento escancarou.
Mas não são justificáveis, nem são bons para o estado de direito, episódios como o que vi ontem, da janela de meu apartamento: uma turba quebrando carros e prédios, gratuitamente. Até porque o fascismo de um lado costuma atiçar o fascismo do outro. Não demorou até que os moradores que observavam de suas janelas começassem a gritar “Bate!”, “Atira!”.
A quem interessa essa exacerbação? À democracia é que não é.
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