Palavras falhas


Ontem tive um sonho estranhíssimo. Não recordo quem era meu interlocutor, ou se havia mais de um. Sei é que eu tentava falar e as palavras não saíam. Conseguia construir mentalmente as frases, mas na hora de transformá-las em som algo impedia. Restavam balbucios, fonemas desconexos.

Como detesto sonhar, e sobretudo me lembrar dos sonhos, acordei com extremo mau humor. Intrigado, porém. Seria apenas o eco longínquo, simbólico, de coisas que dormiram no inconsciente por anos e anos, e agora resolveram perturbar minha paz? Ou, ao avesso, a repentina debilidade verbal teria relação com esses dias cobertos de sombras? A sempre rediviva interrogação que envolve os sonhos.

Durante mais de duas décadas trabalhou na casa de meus pais a Araci. Mais do que uma empregada doméstica, ela era uma babá na acepção do vocábulo, quase uma segunda mãe para nós, os três filhos mais novos da bem fornida ninhada de seis.

Cozinheira de mão cheia, Araci preparava pratos espetaculares. Costeleta de porco com tutu à mineira, frango ensopado com ervilhas, bolo de batata com carne. Além disso, limpava a casa, servia a mesa, abarrotava a casa de carinho.

Certa manhã cheguei à cozinha e perguntei qual seria o almoço. “Concro”, ela respondeu. “O quê?”. “Concro”. E apontou para o peixe que, já temperado, ocupava uma travessa.

Corri para avisar meu pai que algo estranho estava acontecendo. Ele então se dirigiu à cozinha e fez algumas perguntas à Araci. As respostas se repetiam: termos que simplesmente não batiam com as coisas que pretendiam nominar. Um desajuste entre significante e significado, atestaria um professor de comunicação.

Não demorou até que soubemos que Araci havia sofrido um acidente vascular cerebral, o tal do AVC. Aos poucos, com a ajuda dos médicos e de uma pá de remédios, o cérebro se reorganizou e o peixe voltou a ser peixe para ela, que, aposentada, mora hoje com meu irmão em Cachoeiras de Macacu, no interior do Estado.

No sonho desta madrugada, vivi a experiência da Araci – para minha sorte, apenas como quimera. Ainda assim, foi uma tremenda agonia. Que me levou a pensar se por vezes essa falha de mecanismo não acontece também no amor. A gente tenta dizer algo, e há uma espécie de desacerto que esmigalha a compreensão. Por mais que se repita, que se insista. Como se o pensamento fosse se corroendo ao longo do trajeto que precisa percorrer até converter-se em expressão, sem que possamos distinguir onde foram parar seus estilhaços. E esses cacos, embora não visíveis, nos ferem, nos enchem de dor.


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