Do banco de trás


No parágrafo final de Formas de voltar para casa, o protagonista lembra uma cena da infância: no assento traseiro do Peugeot 404, o pai ao volante, ele conta os carros que passam à sua volta. Um ato aparentemente sem sentido, talvez a tentativa de vencer a monotonia dos intervalos entre as conversas, entre as pequenas brigas familiares, uma estratégia para ocupar o vão silencioso e demorado que subitamente se cria ao fim das canções que rodam na fita cassete.

Alejandro Zambra, o autor do romance, nasceu no Chile em 1975, mesmo ano em que veio ao mundo a uruguaia Inés Bortagay. Ela também acaba de lançar um livro no Brasil. Em Um, dois e já, Inês relata uma viagem da família, de Salto a La Paloma, a bordo de um Renault. A personagem é uma menina e observa a paisagem, o mundo, do banco de trás do carro.

As coincidências se deixam ver: na idade dos dois escritores, nas histórias que narram, vazadas pela ditadura que dominava seus países, ambos sul-americanos, na perspectiva da criança que começa a rasgar a paisagem do mundo atrás de sentidos.

Nasci em 1972, no Brasil. Quando pequeno, dividia o banco de trás do Corcel 2 de meu pai com os dois irmãos mais novos. Flávia, a caçula, sofria. Eu e Flávio, hormônios masculinos em efervescência, disputávamos espaço no estofado forçando as pernas um contra o outro. Menorzinha, ela se apertava entre nós dois, espremida e calada.

Estávamos, também aqui, sob uma ditadura. Que igualmente me parecia insondável, algo distante, que eu só conseguia apreender por fragmentos. Fulano é comunista, alguém dizia. Cuidado com ele. O presidente se chama Baptista, tem nosso sobrenome, a gente precisa ficar orgulhoso. Sicrano anda lendo livros que não devia, as palavras soavam no jantar comemorativo de alguma data.

Eram minúsculos recortes de frases, pedaços de imagens como aquelas que eu, a exemplo dos personagens dos livros de Zambra e Inés, enxergava do banco traseiro do Corcel 2.

No livro de Inés, a menina e os irmãos se revezam nos dois lados próximos à janela, embora ela quase sempre leve a pior nessa negociação. Comigo e com meus irmãos, nem havia querela. As janelas pertenciam a nós, os mais velhos, e estava acabado.

Era dali que, a caminho do colégio, ouvíamos A cidade contra o crime, um programa que encenava ocorrências policiais como radionovela. Adorávamos as bizarras expressões que o apresentador usava: “ameixa quente” para bala de revólver, “sacripanta” para ladrão. Era dali que ouvíamos as fitas cassete de meu pai, as intermináveis discussões.

Como o personagem de Formas de voltar para casa, eu e meu irmão também gostávamos de competir quanto aos carros do entorno. Mas não nos limitávamos a contá-los, sem critério. O sorteio designava a marca de cada um, automóveis que nem existem mais, e o ganhador seria aquele que ao fim do trajeto contabilizasse mais veículos. Quem ficava com o Fusca, sempre vencia. A Brasília costumava ficar com o vice.

Poucas vezes identifiquei tantos traços em comum com personagens, e situações, de um livro. Aliás, dois livros. Histórias criadas, ou vividas, por contemporâneos, em países vizinhos. As mesmas brincadeiras, o mesmo olhar desvendando sinais ainda pouco precisos, juntando pedaços de diálogos como num quebra-cabeça daqueles com centenas de peças que nunca se encaixam totalmente, que nunca chegam a formar o desenho estampado na caixa.

“Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passa e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro”, escreve a narradora de Um, dois e já. A impressão é que os postes continuam passando, um após o outro, e o rastro não termina.


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