Nem sempre um romance lido quando já vencida a adolescência entra na lista particular (e necessariamente ilógica) dos “livros de nossa vida”. Em geral, os eleitos se revelam na quentura daquele momento esquisito e inesquecível em que acabamos de olhar para o mundo e perceber que a solidão de alguns, se não exatamente igual, é bastante parecida com a nossa. Pois foi tardiamente que “O encontro marcado”, de Fernando Sabino, passou a integrar a prateleira mais preciosa de minha estante íntima. Lembro dele neste mês de julho, ao ser informado pela folhinha de um calendário que o dia 20 foi consagrado a celebrar a amizade. Pasmem: o calendário foi mais rápido que o Facebook.
A escolha da data, pesquiso, inspirou-se na viagem do homem à lua, que significaria, mais do que uma conquista científica, a chance de arregimentar amigos em outros cantos do universo. Quando Neil Armstrong fincou a bandeira norte-americana, Sabino tinha 33 anos e já havia lançado “O encontro marcado”. Vivia, portanto, aquela idade em que boa parte das grandes amizades já foram feitas. Seu romance funda-se justamente na história da consolidação do imenso afeto que o uniu a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.
Esse sentimento, uma irmandade sem vínculo de sangue, é construído em estridência e silêncio, em dor e sândalo. Paradoxos nos quais Sabino mergulha de forma quase delirante, até sintetizar, em expressão que se tornaria clássica, a dedicação trágica que é marca inexorável de um amigo: “puxar angústia”. Quem nunca “puxou angústia” ao ouvir um samba triste, ao engolir o quinto chope numa mesa de bar, ao abraçar o colega de trabalho que chegou carregando o mundo junto à maleta?
“Vivíamos em estado permanente de discussão”, comentou o cronista certa vez, referindo-se às delongas que, superando tempo e geografias, estenderam-se pelos anos posteriores às travessuras da adolescência. Em carta remetida a Hélio, em 1945, Sabino confessava ter o coração cheio de “alegria triste”, e observava: “Há qualquer coisa de comovente nesse encontro de nós quatro assim de longe – tão longe que estamos um do outro, você do Paulo, o Paulo do Otto, o Otto de mim, e no entanto tão juntos, que nossa respiração se confunde, nossas mãos se tocam (…) e há um resto de doçura no olhar de cada um, que é a recordação dos outros três”.
Numa caminhada pós-chopes e pré-ressaca, na primeira edição da Flip, um desses amigos que ajudam a justificar a vida pronunciou uma frase da qual nunca esqueci, aludindo à conversa que tivéramos algumas horas antes. “A gente conseguiu mostrar o coração um para o outro”, disse ele.
A imagem daquela caminhada pelas ruas pés-de-moleque de Paraty e esquenta hoje as letras frias do 20 de julho grafado no calendário. Acende a lembrança de Sabino, Otto, Paulo e Hélio. De seu íntimo apocalipse, eles mineiramente nos sopram que a amizade é, sobretudo, uma forma de amor.
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