Vento


O dia estava quente, uma temperatura nem tão estranha ao inverno particular do Rio de Janeiro. A pele, tomada pela película de suor. De repente o sopro forte bateu no meu rosto.

Um vento súbito.

Eu cruzava a Avenida Rio Branco, repleta de gente. Táxis e ônibus engarrafados numa fila barulhenta — já não passam carros comuns lá —, e as pessoas voltando aos escritórios após o almoço. A algazarra das buzinas arranhava a sinfonia que toda grande cidade encerra com seus barulhos, o som das ruas.

“Vento encanado”, diriam minhas tias-avós lá no subúrbio. “Cuidado com o vento encanado”, alertavam. “É a pior coisa para dar resfriado”. Eu nunca soube definir um vento encanado, embora saiba perfeitamente identificá-lo.

Mas aquele da Rio Branco não era um vento encanado. A amplidão da avenida não permitiria. Foi um vento amplo, espalhado, que varreu o Centro num ínfimo, talvez vindo do mar. Do mar aterrado que virou parque, e passarela, e museu. Estranho lembrar disso quando se caminha por ali, pisando no que foi água.

O vento não transportava areia, não arranhava. Era uma onda seca. Brisas podem trazer conforto ou prenúncios, ensinam os afeitos a símbolos. Algo ruim vem por aí, quem sabe? Espantam a sujeira, profetizam dilúvios, delícia e dor numa mesma frase. Mas eu só pensava, naquele instante, nos restos da cidade que o vento carregara.

Se havia tocado o peixe morto que jazia à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. As sepulturas do São João Batista, repletas de flores tristes, e o gás carbônico dos túneis. Se lambera o chorume escorrido das lixeiras cor de laranja. Os mendigos da Glória, a fumaça do crack, a imundície dos Arcos da Lapa, as árvores do Passeio Público.

Não era um vento inocente, aquele. Tinha um peso qualquer, como se a lufada carreasse um pouco de cada coisa, cada pessoa, por quem passou.

A moça segurou a barra da saia, o chapéu do guarda caiu no chão, jornais e pequenos papéis anunciando a compra de ouro plainavam sobre a Rio Branco. O rapaz ao meu lado abriu a camisa e disse, num esgar: “Maçarico do cacete”.

Em poucos instantes tudo retornaria, o calor, a pressa, o alarido. A moça bateu com as mãos na saia, como se a limpasse, e ajeitou o cabelo. O guarda, chapéu novamente à cabeça, tentava organizar o tráfego. O rapaz com a camisa aberta sumiu de vista.

Um bilhete de loteria insistia no voo, solitário. E o vento, assim como veio, seguiu viagem.


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