Na recente viagem à Europa, vi um realejo. Foi em Bruges, na Bélgica. A turma mais jovem talvez não saiba o que é o realejo. Explico: uma caixinha de música que funciona a partir de uma manivela girada continuamente. Quando me deparei com o realejo de Bruges, que soava extemporâneo mesmo numa cidade de arquitetura antiguíssima, lembrei de uma conversa travada com os colegas de trabalho algumas semanas antes das férias. Falávamos de tocadores de realejo e de outras profissões que começam a se apagar na memória: amoladores de facas, sapateiros, funileiros, tintureiros, fotógrafos lambe-lambe.
No armário confuso que é o imaginário, guardo essas figuras na mesma gaveta dos personagens de circo, embora os circos ainda estejam por aí. Lá estão palhaços, domadores de leão, equilibristas, tipos que parecem igualmente estranhos ao presente, como um arcaísmo que persistiu.
E os mágicos. Quando garoto, eu tinha mágicas que o pai comprava, depois de eu encher sua paciência, num quiosque do Centro da cidade. Guardava-as numa maleta preta, tipo 007, que costumava carregar para as apresentações mambembes que fazíamos, eu, meu primo André e mais dois ou três amigos, nas festinhas infantis de Madureira. Levava jeito para a coisa.
No realejo de Bruges, há um pequeno passarinho. A ele, cabe escolher e retirar, com o bico, o papelzinho onde consta a “sorte” de quem quer conhecer o próprio destino. Curioso: uma engrenagem do passado que pretende ver o futuro.
Talvez mágicos e realejos estejam fora de moda porque perdemos algo de nossa inocência. Já não há tanta surpresa em se tirar água de um jornal, em fazer uma carta mudar de lugar ou sumir com um lenço entre os dedos. O encanto perdeu a patente e virou mero truque. Déjà vu.
E tampouco passarinhos predizendo o futuro são capazes de cativar. Estamos vacinados contra a ingenuidade, cheios de certezas e ceticismo. A música do realejo chega a irritar em sua candura. Enjoa de tão doce.
Muita gente fotografa o realejo de Brujes, mas ninguém se aproxima. O passarinho descansa, preso na gaiola, enquanto o homem de chapéu gira a manivela, com expressão de tédio. Ao lado, uma mulher compõe a cena. Que parece coberta por um verniz envelhecido, já quase fosco. É um rasgo de infância. Tardio. E bonito à beça.
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