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Rainha decadente

Rainha decadente


O cartão de visitas recebi logo no primeiro mês de moradia. Eram mais ou menos nove da manhã, e eu acompanhava a namorada até a casa dela, que também fica no bairro, quando vimos o pequeno agrupamento de pessoas na esquina das ruas Mem de Sá e Gomes Freire. Bastou que nos aproximássemos mais um pouco e a cena se descortinou em todo o seu esdrúxulo. O homem acorrentado ao poste recusava-se, entre berros e palavras desconexas, a ceder aos apelos dos dois policiais que tentavam tirá-lo dali.

Ele próprio colocara a corrente, minutos antes. Alguém viu, chamou a polícia e logo se formou o furdunço. A plateia do entorno respondia por boêmios tomando a última e moradores que haviam descido em busca de café e pão. A Lapa me dava boas-vindas.

Não havia pensado em morar lá até que, recém-separado e atônito com o crescente preços dos imóveis no Rio, decidi que era hora de ter um teto meu de verdade. Foi curiosa a reação dos amigos, a grande maioria da Zona Sul, quando eu revelava o novo bairro. Após a indisfarçada hesitação, vinha o comentário apaziguador: “O bom é que fica perto do trabalho, né?”

Fica perto, sim. Do trabalho e de uma saraivada de bares, botecos, sujinhos, fede-a-mijos, bundas-de-fora. De clássicos, como o Nova Capela e o Brasil, passando por típicos botequins de balcão e chegando aos neobotecos, essa linhagem mais do mesmo que achata singularidades num empastelamento sem charme. E a vizinhança também tem casas de samba, lavanderias à antiga, hotéis para solteiros, borracheiros, armazéns, motéis vagabundos.

“A Lapa está voltando a ser a Lapa”, cantavam Herivelto Martins e Benedito Lacerda em 1950, para saudar um dos tantos renascimentos desse espaço da cidade que, a rigor, nunca morreu. Talvez porque, mesmo com a demão de tinta trazida pela “modernização”, há um jeito gauche que resiste. Seja na prostituição, hoje praticamente restrita às travestis, seja nas sinucas e nas boates gays. Ou ainda na Casa da Cachaça, que, como diz um amigo frequentador, congrega todas as sobras da madrugada.

O espírito do bairro é eminentemente noturno, mas o morador pode experimentá-lo também durante o dia. Você desce para ir ao supermercado e esbarra no malandro com bermuda branca, chinelo de enfiar o pé e camisa do Império Serrano tomando a abrideira no Bar do Gomes. Enquanto enche o carrinho, encontra a travesti que faz ponto ali perto desmontada da roupa de trabalho, sem salto ou maquiagem, comprando arroz, queijo e iogurte. A Lapa que só se dar a ver a quem vive nela.

Mas mesmo quem reside no bairro, e está acostumado com a divertida fauna local, anda se surpreendendo nesses dias de Copa do Mundo. No domingo passado, fui comer uma pizza na Rua do Rezende. Terminado o lanche, conta paga, pus os pés na rua novamente. Pois bem. Em apenas um quarteirão, testemunhei: a ambulância do Samu resgatando o senhor que passou mal, uma fileira de travestis em polvorosa com os estrangeiros, o pirata sobre longas pernas de pau bailando com uma loura australiana, um grupo de mexicanos, enfeitados com seus típicos chapéus, purgando a derrota para a Holanda com música e dança, um alemão carregando o colega, este desmaiado de bêbado, até o táxi. Enquanto ele tentava pôr os pés do amigo para dentro e fechar a porta, a travesti de minissaia gritava para os dois: “Maricóns! Maricóns!”.

“Quem quiser que cante a sua Lapa”, sugeriu Mário Lago, que a chamava de “rainha decadente”. Expressão precisa. Bairro da perdição cujo nome nasceu de uma igreja — a de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro, na rua Morais e Vale. Terra cujo herói mais valente, capaz de enfrentar à navalha qualquer policial ou malandro, era homossexual assumido e adorava remexer os quadris nos palcos dos cabarés. A Lapa é mesmo o sumo improvável dos contrastes.


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